Onde está o Jota Camelo?
Por Enock Cavalcanti
Onde estão as charges cortantes, ácidas e cirúrgicas de Jota Camelo? Quem acompanha o debate político brasileiro nos últimos anos sabe que o traço dele era um escudo e uma arma na defesa das causas sociais. Mas a verdade é que o silêncio ensurdecedor sobre o seu paradeiro esconde uma realidade dramática.
Em 14 de novembro de 2024, o próprio artista usou suas redes sociais para fazer um desabafo doloroso: havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que comprometeu sua visão e seu equilíbrio. Ele avisou que tentaria voltar, mas não sabia quando.
Hoje, em setembro de 2026, quase dois anos depois, a ausência de Jota Camelo no front da batalha politico-cultural pode ser explicada pela dura e silenciosa luta por sua saúde. Mas o que mais dói não é a doença em si, que é uma fatalidade. O que estarrece é o abandono. Chego a temer, com o coração apertado, que ele possa ter morrido sob o manto trágico do esquecimento, sem que ninguém na grande imprensa alternativa se desse ao trabalho de notar ou de nos avisar.
Onde estão portais como Brasil 247, Revista Fórum, Diário do Centro do Mundo, O Cafezinho e Diário Causa Operária, para demonstrar a sua carência pelas artes pelo talento genial de Jota?
Por que essas páginas, que faturam e constroem audiência no factual diário, simplesmente viraram as costas e não dedicam uma linha sequer para saber como ele está, se precisa de tratamento ou se passa por dificuldades financeiras?
O boicote da mídia corporativa tradicional contra um profissional de extrema-esquerda é um comportamento esperado pelo sistema. Jornalões como o Estadão, a Folha e o Globo jamais deram espaço para o Jota Camelo. No entanto, o esquecimento vindo dos seus próprios pares e dos veículos progressistas é uma omissão que considero estranha, imperdoável.
Um artista independente, quando perde a capacidade motora e visual, perde o seu ganho de subsistência. Jota Camelo não pode ser simplesmente descartado como uma engrenagem velha que parou de funcionar. A imprensa dita solidária tem a obrigação moral de romper esse silêncio, apurar o seu estado de saúde e mobilizar redes de apoio, se for o caso. (É claro que o Jota pode ter, simplesmente, resolvido mandar tudo para a puta que o pariu e preferido ficar, como no poema do Pessoa, “contemplando o lago mudo”.)
Direto de Cuiabá, nós não esquecemos. Este espaço exige publicamente que os portais progressistas e os movimentos sociais tragam notícias oficiais sobre a saúde de Jota Camelo e estendam a mão a quem tanto lutou com a ponta do lápis. Solidariedade não é palavra de ordem para palanque; é prática. Melhoras, Jota. Sua arte faz falta, e sua dignidade não será apagada pelo silêncio de quem se omite. Se alguém deve fazer alguma coisa pelo Jota Camelo que faça agora! Certamente quem irá em socorro do Jota não será a extrema direita nem o Xandão.
(Abaixo, algumas das charges que documentam o poder questionador deste jornalista admirável.)
ENOCK CAVALCANTI DA SILVA, 73 anos, é jornalista e editor do blogue PAGINA DO ENOCK, editado a partir de Cuiabá, Mato Grosso, desde o ano de 2009.
@enockcavalcanti@gmail.com


















