MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - CHICO CÉSAR, A DOR DA CONDIÇÃO HUMANA E A RESISTÊNCIA ESCORADA NO EXISTENCIALISMO

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MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - CHICO CÉSAR, A DOR DA CONDIÇÃO HUMANA E A RESISTÊNCIA ESCORADA NO EXISTENCIALISMO
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MÚSICA POPULAR BRASILEIRA - CHICO CÉSAR, A DOR DA CONDIÇÃO HUMANA E A RESISTÊNCIA ESCORADA NO EXISTENCIALISMO - Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa é um dos versos mais famosos da canção Deus Me Proteja, composta e lançada pelo cantor e compositor paraibano Chico César. Chico, nessa canção, expõe que o ser humano também pode ser seu próprio inimigo, seja por impulsos, orgulho, autossabotagem ou cegueira diante dos próprios defeitos. Aponta para a hipocrisia, para aqueles que se apresentam com boas intenções ou máscaras de bondade, mas cujos atos carregam segundas intenções ou falsidade. Alerta contra a falsa generosidade ou favores venenosos vindos de quem tem histórico ou essência malévola, onde o presente esconde uma armadilha. Deus Me Proteja possui uma forte fundamentação que dialoga diretamente com o Existencialismo. Embora traga uma roupagem de prece e espiritualidade popular brasileira, a letra de Chico César aborda o peso da subjetividade, a autoconhecimento e o ato de se construir através do movimento e das escolhas no mundo. Em O Existencialismo é um Humanismo (1946), Jean-Paul Sartre afirma que o homem está condenado a ser livre. Sem um determinismo que guie suas ações, o homem experimenta a Angústia. Sartre explica que a angústia não é o medo de um perigo externo, mas o medo de nossas próprias decisões e do controle que temos sobre nosso destino. Quando Chico César canta Deus me proteja de mim, ele traduz poeticamente esse pavor existencial da própria liberdade, sabendo que nós somos os nossos maiores sabotadores.O pilar máximo do existencialismo sartreano é: A existência precede a essência. O ser humano primeiro existe no mundo, age, caminha, erra e, somente depois, se define. Não há um caminho abstrato e pronto esperando por nós. Além disso, o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em O Conceito de Angústia (1844), defende que se perder e encarar o abismo das possibilidades é um pré-requisito indispensável para alcançar a verdadeira autencidade. O erro e a desorientação (se perder) fazem parte do processo de tornar-se indivíduo. Após constatar a fragilidade interna (proteja de mim) e a hostilidade externa (maldade de gente boa), a resposta lírica da canção não é o isolamento amargurado, mas a entrega ativa e generosa à vida. Isso nos remete diretamente ao livro O Homem Revoltado (1951). Albert Camus defende que a solidariedade humana e a empatia nascem justamente do reconhecimento da nossa dor comum diante do absurdo. A revolta camusiana não é destrutiva; ela é uma afirmação da dignidade e da vida. Quando o eu lírico decide sair distraído, espalhar bem-querer, ele está exercendo a Paixão e a Revolta de Camus: mesmo ciente do absurdo e dos perigos do mundo, ele escolhe agir de forma solar, espalhando afeto como um ato sublime de resistência contra o absurdo e a maldade.