ENOCK CAVALCANTI – Barreira de garrafas plásticas lançada pelo ecologista Diego Saldanha no rio Atuba, no Paraná, virou tecnologia social contra a poluição que precisa se multiplicar pelo Brasil

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ENOCK CAVALCANTI – Barreira de garrafas plásticas lançada pelo ecologista Diego Saldanha no rio Atuba, no Paraná, virou tecnologia social contra a poluição que precisa se multiplicar pelo Brasil
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Ano de eleição, período perfeito para se discutir propostas que enfrentam as dificuldades de sobrevivência que se abatem sobre a maioria da população brasileira. Me deixem contar uma história.

O ano era 2016 quando o ecologista Diego Saldanha olhou para o quintal de sua casa, às margens do Rio Atuba, no Paraná, e decidiu que não dava mais para assistir passivamente às toneladas de lixo flutuante que passavam em direção aos oceanos. Sem investimentos bilionários ou apoio governamental inicial, Saldanha utilizou o que tinha à mão: galões plásticos usados, redes e uma dose gigante de persistência. Nascia ali a primeira ecobarreira, um sistema artesanal capaz de interceptar garrafas PET, sacolas e até eletrodomésticos descartados incorretamente nos leitos de água deste nosso Brasil tão antiecológico.

O que começou como uma iniciativa caseira e solitária transformou-se, em uma década, em um dos maiores exemplos de inovação ambiental e economia circular do Brasil. A estrutura simples provou que a despoluição dos rios não precisa esperar por promessas políticas; ela pode começar na comunidade, com baixo custo e altíssima eficiência. Além de limpar as águas, o projeto original do jovem ecologista do Paraná virou um polo vivo de educação ambientada, atraindo escolas e moradores locais para entender o impacto do descarte correto de resíduos.

Números que impressionam: toneladas retiradas das águas

Os resultados práticos do projeto dão a dimensão real do problema do descarte de resíduos urbanos no país e consolidam o sucesso da iniciativa. Ao longo de uma década de funcionamento, pelo que apurei mergulhando na pesquisa do Google, a ecobarreira original de Diego Saldanha já retirou mais de 40 toneladas de resíduos das águas do Rio Atuba.

O monitoramento detalhado do sistema aponta estatísticas diárias impressionantes sobre a eficiência da retenção:

  • Vejam só, o equipamento de estrutura rústica consegue reter cerca de 256 quilos de resíduos por mês, uma marca superior a muitos programas tradicionais de logística reversa. Aproximadamente 90% de todo o material recolhido é composto por garrafas plásticas, sacolas, embalagens em geral e isopor. O restante do volume engloba objetos pesados inacreditáveis jogados nas águas, como geladeiras, fogões, sofás, colchões, capacetes e até portas de carros. Tudo que descartado de forma irregular acaba indo parar no leito dos rios – e nós já ouvimos histórias semelhantes com relação aos rios de Cuiabá e ao ambiente ultra poluído do Pantanal.

A expansão nacional e o aval técnico

A força da ideia do Rio Atuba quebrou as barreiras geográficas do Paraná. O invento chamou a atenção do Instituto Renato Muzzolon (IRMZ), entidade que desempenhou um papel crucial na história do projeto: a criação do primeiro projeto básico de engenharia da ecobarreira. Essa padronização técnica transformou a invenção comunitária em uma tecnologia social segura, abrindo as portas para que o modelo fosse adotado oficialmente por prefeituras e grandes corporações dentro de suas agendas de sustentabilidade (ESG).

Atualmente, o sistema idealizado por Saldanha já foi replicado em pelo menos sete pontos do Brasil, alcançando diferentes realidades e ecossistemas, a saber:

  • Na Amazônia: Em Benevides (PA), o Rio Benfica recebeu a primeira barreira oficial do estado, integrada ao programa municipal Benevides Recicla. Já em Belém (PA), o modelo foi levado para conter os resíduos nos igarapés (como o Canal Tamandaré) e ganhou visibilidade global ao ser apresentado como exemplo prático de inovação ambiental na COP30.
  • No Nordeste: Em Maceió (AL), canais urbanos receberam as redes para impedir que o lixo urbano chegasse às praias e lagoas da capital alagoana.
  • No Litoral Sul: Em Matinhos (PR), o sistema foi adaptado para proteger a região costeira.

Esse crescimento foi impulsionado pelo interesse de multinacionais e grandes marcas brasileiras, como Natura, Sprite e Havaianas. O patrocínio corporativo permitiu não só a instalação de novas barreiras, mas também o desenvolvimento de novos equipamentos correlatos, como a Ecopeneira, focada na despoluição de areias de praias urbanas.

O caso de Manaus: Escala gigantesca e racha sobre a autoria

A chegada da tecnologia social à Região Norte também gerou desdobramentos complexos. Em Manaus (AM), a Secretaria de Limpeza Urbana daquele capitalimplementou um dos maiores complexos de contenção de resíduos do país, composto por 14 ecobarreiras flutuantes instaladas em pontos críticos de poluição, como os igarapés do Educandos, do 40 e do Mindu. Sob a gestão do então prefeito David Almeida, a iniciativa alcançou resultados operacionais avassaladores, interceptando mais de 5,3 mil toneladas de resíduos sólidos que ameaçavam o Rio Negro.

No entanto, o sucesso prático em Manaus foi acompanhado por um forte embate de bastidores sobre a autoria intelectual. Técnicos da prefeitura amazonense e o prefeito David Almeida passaram a promover a estrutura nos canais oficiais e em anúncios focados na COP30 como uma "invenção local" desenvolvida por colaboradores municipais.

O posicionamento gerou uma reação pública imediata de Diego Saldanha nas redes sociais. O ecologista paranaense protestou contra o apagamento do seu pioneirismo e a ausência de créditos ao desenho técnico original que ele havia patenteado e padronizado em parceria com o Instituto Renato Muzzolon. "Fico feliz em ver mais cidades aderindo, mas é fundamental reconhecer e respeitar quem veio antes. O rio não tem dono, mas a história tem", desabafou Saldanha na ocasião. O episódio escancarou um desafio extra para as tecnologias sociais brasileiras: conciliar a urgência da replicação pública com a ética e a propriedade intelectual de quem as idealizou.

O futuro da preservação dos rios brasileiros

O avanço das ecobarreiras pelo território nacional acende uma luz de esperança, mas também aponta para a necessidade de o projeto dar passos ainda maiores. Para que essa defesa dos rios brasileiros seja ampliada de forma sustentável, o modelo precisa superar desafios estruturais, como a garantia de manutenção constante das redes pelas prefeituras e a desburocratização de licenças ambientais para intervenções comunitárias em corpos hídricos.

Mais do que reter o lixo visível, o impacto do avanço dessas barreiras está interligado à inclusão social. Ao direcionar toneladas de materiais recicláveis para cooperativas locais de catadores, o projeto gera emprego e renda, fechando o ciclo da logística reversa.

O exemplo de Diego Saldanha demonstra que o futuro da preservação das águas brasileiras exige a união entre a urgência da ação prática (as ecobarreiras) e o planejamento de longo prazo (investimento em saneamento básico e coleta seletiva). Levar essa tecnologia para cada município cortado por rios urbanos é o próximo passo necessário para transformar a indignação de um ecologista em uma política de Estado definitiva.

Fico imaginando o impacto que podem ter as ecobarreiras introduzidas nos principais rios que desaguam (são afluentes) no Rio Cuiabá como o Rio Manso,o Rio Coxipó (e seus braços Coxipó-Açu e Coxipó-Mirim), o Rio Acorizal e o Rio São Lourenço. E a proposta pode ir mais longe, resguardando e protegendo todos os rios que abastecem o Pantanal de Mato Grosso.

Espero que o professor Juacy da Silva, ecologista tão esforçado, que há tanto tempo briga para estabelecer ação pragmática para a Pastoral da Ecologia Integral da Arquidiocese de Cuiabá pode se debruçar sobre esta proposta e encontrar uma maneira de reproduzi-la aqui em nosso tão castigado território.

Ao invés de pequenas centrais hidrelétricas, que se multipliquem as ecobarreiras sonhadas por esse notável sonhador que é Diego Saldanha.



ENOCK CAVALCANTI, 73, é jornalista e editor do blogue PAGINA DO ENOCK, que ele edita a partir de Cuiabá, Mato Grosso, desde o ano de 2009.

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