ENOCK CAVALCANTI - Lula fugiu do debate e perdeu a eleição. Triste assim

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ENOCK CAVALCANTI - Lula fugiu do debate e perdeu a eleição. Triste assim

Lula fugiu do debate e perdeu a eleição. Triste assim

Por Enock Cavalcanti

Faz muito tempo. Foi lá no ano de 2018 que o professor Fernando Haddad cravou seu diagnóstico: quem foge do debate político, em disputa eleitoral, não passa de um bundão.

Mora na filosofia. Haddad falou isso para atacar Jair Bolsonaro mas acredito que, principalmente, em respeito à tradição da esquerda de sempre buscar firmar o contraditório, de sempre trabalhar para que as ideias sejam alvo de um continuado refinamento, através da força da argumentação, seja em época de eleição, seja em qualquer período ou oportunidade em que esse confronto se fizer necessário.

Quem foge do debate é um bundão. E Lula, não há como negar, agiu como um bundão no primeiro turno, demonstrando, por outro lado, também uma forte egolatria, uma jactância, um salto alto, como se ele fosse o absoluto dono da verdade – e o seu adversário direitista, o filho do capetão Flávio, e os demais candidatos de direita, uns pobres coitados incapazes de esgrimir ideias, e que estariam a serviço de uma emissora de TV, a Rede Globo, agora muito empenhada em detonar o filho de dona Lindu. Ora, justamente a Rede Globo que o governo do PT e desse guia genial do povo brasileiro engordou com o dinheiro de propaganda arrancado dos cofres dos contribuintes pacatos cidadãos, durante todos estes quatro anos.

Lembro do bons tempos do Cajamar, quando havia um certo debate teórico nas bases do PT e tinhamos contato com as ideias do alemão Jurgen Habermas para quem o debate político deveria ser a expressão máxima da ação comunicativa. É através do debate que as propostas precisam ser validadas não pelo poder financeiro ou pelo carisma de um ou outro candidato, mas pela "força sem força do melhor argumento" (zwangloser Zwang des besseren Argumentes), como prescreveu o pensador alemão.

Sim, os debates são importantes porque forçam os candidatos a justificarem publicamente suas promessas perante a racionalidade do eleitor – e a racionalidade do eleitor/cidadão/contribuinte é sempre valorizada quando temos os debates e a oportunidade de que as pessoas participem deles.

Quando fugiu do debate com Flávio Bolsonaro no 1º turno, Lula demonstrou, justamente, um menosprezo não só pela figura (caricata?) do filho de Bolsonaro, como também por essa racionalidade do eleitor que, ao contrário, deveria Lula valorizar, prestigiar, estimular.

Agora, que a direita já ganhou o 1º turno e estraçalhou a esquerda pelo Brasil afora, imagino com meus tristes botões que basta que Flávio #Bolsonaro adote a mesma postura que o bundão #Lula adotou no 1º turno - e não vá aos debates no 2º turno - para que o candidato da extrema direita, dentro do contexto da atual disputa, ganhe os debates no 2º turno. Triste assim.Ou seja, Lula parece que construiu a receita de sua própria derrota.

Diz a tal sabedoria popular que cada um colhe o que plantou, por óbvio. Mas essa equação, na política, é bem mais complicada. Não trabalha contra você apenas o que você planta, mas também o que os outros plantam contra você,

Cada ser humano deve ser analisado pela forma como ele atua dentro das circunstâncias que o cercam. E o que vejo, na figura de Lula, é um líder que se apresenta como um pretenso detentor da verdade, sem que essa sua pretensão se escore em fatos devidamente verificados.

Eu, que acompanho esta história desde o começo, avalio que o PT passou por um processo de continuado esvaziamento de sua proposta original. O que era para ser um partido construido pela base, com ampla participação classista, virou um partido que, como quase todos os demais, gravita em torno de uma forte liderança que faz questão de se apresentar forte, esmagando o contraditório. Os bolsonaristas tem o Bolsonaro, os petistas tem o Lula. Seria bom a gente construir alguma coisa diferenciada, ainda mais quando a gente percebe que o Lula é um cacique altamente concentrador, ele gosta de comandar as massas, sem se abrir fraternalmente aos questionamentos.

Vejam o que Lula, com seu tacão de líder, fez aqui em Mato Grosso: Lula sufocou lideranças locais, como a do professor Domingos Garcia, sindicalista da Adunemat, para impor ao partido uma aliança com os barões do Agro, visando ampliar seu conchavo com as elites econômicas. Sempre o acordo por cima, é disso que ele gosta, é disso que ele se alimenta.

Garcia em 2022 havia sido escolhido candidato a governador pela convenção estadual do PT em Mato Grosso, mas a candidata acabou sendo a senhora Márcia Pinheiro, esposa de Emanuel Pinheiro, devido a intromissão de Lula, que vetou acima de tudo a candidatura da professora Enelinda Scala para o Senado, para favorecer a candidatura do ruralista Neri Geller. Neri acabou afastado da disputa por decisão da Justiça Eleitoral, já que o TSE cassou o seu mandato de deputado federal por abuso do poder econômico nas eleições de 2018. Um rolo desastroso, em que Lula, decidamente, não atuou bem, aparecendo como aquele cacique político que não deixa que as bases partidárias atuem em paz.

Não preciso dizer que os resultados obtidos pelo PT em 2022 foram constrangedores. E vejam só com o a história involuiu: Márcia Pinheiro, a candidata da esquerda ao governo em 22, acabou banida do palanque de Ludio na disputa da Prefeitura de Cuiabá em 2024, o que expôs a enorme contradição para qual Lula arrastou o partido em nosso Estado. E tudo isso jamais foi submetido a uma reflexão coletiva, porque as instâncias partidárias simplesmente não se reunem mais em Mato Grosso e o poder petista é controlado pelos mandatos eleitorais de personagens como Lúdio, Barranco e Rosa Neide, títeres de Lula no Estado.

O professor Paulo Freire, um dos mais respeitados pensadores da pedagogia e da filosofia política do século XX, deixou lições profundas sobre o perigo da concentração de poder e a urgência de uma construção política horizontal e dialógica. Para Freire, o poder centralizado é uma herança da "estrutura opressora", e a verdadeira libertação social só ocorre quando a liderança atua com o povo, e não para o povo ou sobre o povo.

Freire argumentava que muitas lideranças políticas, mesmo as que buscam a transformação social, caem na armadilha de adotar os mesmos métodos dos opressores ao centralizar as decisões. O poder horizontal exige que a liderança reconheça que a força transformadora reside na comunhão com as bases. "A liderança não pode pensar sem as massas, nem tampouco para elas, mas com elas" – escreveu Freire. Quando a liderança decide de forma isolada, ela nega ao povo o direito de ser sujeito de sua própria história, transformando a política em uma via de mão única. Pensem no que Lula fez com o PT de Mato Grosso, naquela crise da eleição de 2022 e a conclusão só pode ser a que Lula se comportou como os mauro mendes que já temos por aqui.

A concentração de poder frequentemente se disfarça de "guia técnico" ou "salvacionismo". Freire criticava o que chamava de dirigismo cultural ou político, onde os líderes agem como se fossem os únicos detentores do saber e da direção correta, tratando a população como mera espectadora ou massa de manobra. "A nossa convicção é a de que a transformação necessária não será feita pelos homens nas suas mentes apenas, mas também na realidade. E a realidade não se transforma com propaganda. Não se transforma com dirigismo" – nos orientou Paulo Freire. Para ele, a horizontalidade se contrapõe à invasão cultural, que ocorre quando as lideranças impõem sua própria visão de mundo sobre a realidade do povo, sem escutá-lo.

A maior lição freiriana para evitar o autoritarismo e a centralização é a prática do diálogo. O diálogo não é um mero debate cortês; é uma exigência existencial e política. Se a relação entre a liderança e a base não for horizontal (dialógica), ela se torna vertical (anti-dialógica), o que gera manipulação e domesticação."O diálogo é este encontro dos homens, mediatizados pelo mundo, para pronunciá-lo, não se esgotando, portanto, na relação eu-tu." Perguntem a Domingos Garcia e à veterana professora Enelinda Scala quantas vezes o todo poderoso Lula os procurou para um diálogo respeitoso sobre as candidaturas do PT em Mato Grosso naquele fatídico ano de 2022. O que houve foi um verdadeiro estupro politico e espero que muitos historiadores mato-grossenses mergulhem sobre os dados daquela época para melhor identificá-los, já que eu, como se sabe, não sou analista muito confiável.

Pelo que leciona Paulo Freire, ao estabelecer o diálogo verdadeiro, a liderança abre mão do monopólio da palavra e do poder, permitindo que a tomada de decisões seja um processo coletivo e compartilhado.

Para Freire, a liderança que concentra o poder impede a práxis — que é a ação combinada com a reflexão crítica. Um poder descentralizado e horizontal convida todos os cidadãos a pensarem criticamente sobre suas ações, transformando o ato político em um aprendizado mútuo."Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”, escreveu o professor.

Essa máxima resume a essência da horizontalidade: o poder político legítimo e libertador não emana de um líder iluminado que dita as regras de cima para baixo, mas sim da articulação coletiva onde todos se educam e se emancipam juntos.

Sim, Lula convive muito bem com os banqueiros, e convive muito bem com os barões do Agro. O antigo líder metalúrgico que arrasta atrás de si multidões de trabalhadores organizados faz questão de comandar um governo reformista quando se trata de enfrentamento com os patrões. Suas reuniões reservadas com as cúpulas do STF volta e meia se destacam também nos informes dos repórteres investigativos no Brasil.

E o desmonte das estruturas partidárias do PT se multiplica pelo Brasil afora, Tivemos problemas em Pernambuco. Tivemos problemas com a candidatura de Adão Preto no Rio Grande do Sul. A rebeldia de muitos petistas contra a liderança de Washington Quaquá no Rio de Janeiro fala muito da contaminação sofrida pelo PT lulista nesses anos todos. E o continuado esvaziamento das organizações independentes e autônomas dos trabalhadores, por todas as regiões, é outro fato constrangedor, principalmente quando se pensa no fraco desempenho das entidades dos trabalhadores no embates classistas em Mato Grosso. Todas as decisões, enquanto isso,são cada vez mais, concentradas nele, o Lula, o grande Lula, esta maior liderança popular e sindical de toda a história do Brasil, da América do Sul, da América Latina e, quiça, de todo o mundo contemporâneo. Uma espécie de novo guia genial dos povos, por mais que essa ironia nos machuque.

Essa não é a receita do professor Paulo Freire, e de todos os construtivistas, e de toda nova esquerda que conseguiu superar a antiga dominação dos partidos comunistas stalinistas sobre a política de esquerda e sobre o movimento organizado dos trabalhadores.

Todo esse meu nariz de cera para dizer que devemos fazer uma avaliação da derrota da esquerda no 1º turno da eleição em 2026, buscando entender onde erramos, muito mais do que imaginar que Flávio Bolsonaro foi quem nos venceu.

A esquerda no poder conseguiu perder para si mesma por uma série de deficiências, falhas, caminhos tortos.

E essa jactância do Lula, esse negócio do Lula imaginar e se apresentar como o líder genial dos trabalhadores brasileiros, digo que é um dos nossos maiores problemas à medida que desmobiliza a nossa construção coletiva. É um dos nossos maiores problemas porque a grande verdade é que a maioria dos petistas, a maioria do povo da esquerda, se entrega à liderança do Lula e acha que isto basta. Essa todavia é uma postura inconveniente. Ficamos jogando tudo no eleitoral e nos esquecemos daquela organização pela base que fora o mais importante diferencial que o PT havia agregado à experiência da construção do socialismo no Brasil.

Outro dia, sempre apressado, sempre no corre-corre, eu dizia para o médico e lutador Wanderlei Pignati, em Cuiabá, depois de assistirmos a uma apresentação de Eduardo Moscovis no Cine Teatro, que, em minha nodesta avaliação, o PT caminha para se diluir diante das suas responsabilidades para com a classe trabalhadora brasileira como se diluiu, no passado, o Partido Comunista Brasileiro. O PCB de Luis Carlos Prestes. (E agora já nos surge o Jones Manoel, outro ególatra, anunciando que quer ser o novo guia genial do povo e presidente do Brasil em 2030!)

Não existe mais aquele PT, não existe mais organização pela base, o que existe lá em cima é o Lula decidindo sobre tudo e sobre todos – e a grande maioria da militância da esquerda adorando viver sob um domínio desses. Erich Fromm escreveu sobre o medo da liberdade, lembram? A esquerda internacional que conseguiu se livrar e superar lideranças concentradoras e mesmo autoritárias como Josef Stalin, Tito, não aprendeu a importância de fazer da transformação socialista uma construção coletiva. E por isso, neste ano de 2026, a gente tem que ver um babaquara como Flávio Bolsonaro conquistando mais votos entre a população trabalhadora de importantes regiões do Brasil, que o candidato da esquerda.

Os numeros das pesquisas estão aí, indicando que Lula foi bem votado entre as populações endinheiradas de bairros como o Ipanema e Leblon, no Rio de Janeiro, enquanto via os votos de favelados e periféricos pelo Rio de Janeiro e pelo Brasil afora serem capturados pelos bolsonaristas e evangélicos.

Daqui até o 2º turno é muito dificil mudar esta realidade. Não basta ao governo do PT dizer que é honesto e que trabalha em defesa dos interesses da maioria do povo. Esse sentimento tem que estar no coração e na mente do povo – e o que se vê é que o sentimento da maioria de nossa população caminha em outra direção.

A análise do jornalista Pedro Dória e do pessoal do Meio de que o voto de muitos do povo contra Lula foi um voto contra o sistema, deve ser considerada com seriedade. Lula, com tantos anos de poder, hoje se confunde com o sistema e sua posição centralizadora facilita isso, principalmente quando estabelece parceria com ministros do STF para reinar sobre a nação.

A maioria do povo votou contra Lula e contra os candidatos da esquerda porque quer mudança, quer melhorar de vida, quer um Brasil mais justo.

O povo não é culpado de nada. O povo fez sua reação.

Importante agora não é constatar que a maioria do povo trabalhador assumiu posição crítica com relação à esquerda e ao seu governo. Importante agora é identificar as razões que levaram essa maioria do povo trabalhador a se afastar da influencia da esquerda - e buscar reverter esse distanciamento.

Ou procuramos esclarecer isso ou vamos ficar sempre nos esgoelando contra os “pobres de direita”, sem entender porque um número tão expressivo de homens e mulheres da nossa comunidade de trabalhadores acabou sendo arrastado para este posicionamento que lhes é tão desfavorável.

Continuo com Trotsky, quando escreveu no “Programa de Transição” da Quarta Internacional, em 1938, justamente na abertura daquele texto, que “a crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária.”

O povo trabalhador reage como pode a tudo que sobre ele desaba, à espera de que possa produzir, algum dia, o surgimento de líderes menos rombudos do que os que temos.

ENOCK CAVALCANTI, 73, é jornalista e editor do blogue PAGINA DO ENOCK, editado a partir de Cuiabá, MT, desde o ano de 2009