ENOCK CAVALCANTI: Renúncia de Caiubi Kuhn enfraquece PDT. Esquerda pode fazer novo papelão em Mato Grosso

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ENOCK CAVALCANTI: Renúncia de Caiubi Kuhn enfraquece PDT. Esquerda pode fazer novo papelão em Mato Grosso

Esquerda pode ir pro brejo, mais uma vez, em Mato Grosso

Por Enock Cavalcanti



Meus amigos, meus inimigos: confesso que a renúncia do geólogo Caiubi Kuhn à sua pré-candidatura a governador pelo PDT em Mato Grosso me deixou triste. Triste pelo que essa renúncia representa para o campo da esquerda em nosso Estado. Caiubi entregou o jogo no 1º tempo. Por que não agregar forças para o partido, participando da caça aos votos e dos debates, e ver até onde a campanha poderia chegar?!

A esquerda em Mato Grosso segue atuado como a esquerda de que a direita gosta. Aquela esquerda que não se esforça por espalhar e defender suas ideias, buscando conquistar assim novos adeptos e, com isso, brigar pela hegemonia ideológica em nosso território.

O prefeito bolsonarista Abilio Brunini gosta de dizer que Mato Grosso é terra da direita e que aqui a esquerda não tem vez. Parece que os militantes da esquerda deram de assumir este discurso provocativo do alcaide como uma verdade - e se mostram cada vez mais acuados, apáticos, omissos.

Parece que não aprenderam as lições históricas que nos deixaram os lutadores e pensadores da esquerda, através dos anos e através de tantas lutas.

Ora, Dante de Oliveira quando se fez prefeito e governador, era de esquerda, era do PDT. José Pedro Taques também se elegeu originalmente pela esquerda. Se eles depois debandaram, foram dormir com seus inimigos e ingressaram em partidos da ordem, esse é outro problema. O dado alvissareiro que permanece é que o povo mato-grossense sempre soube abrir seu coração e mente para a esquerda, quando essa esquerda se fez presente e atuante.

Lembro que o médico guerrilheiro Gilney Vianna foi deputado estadual e federal nesta terra, consagrado com expressiva votação. Por aqui a Coluna Prestes e Che Guevara, em suas caminhadas revolucionárias, também tiveram boa acolhida. E foi o povo pobre e camponês que acolheu guerrilheiros na região do Araguaia para resistir à truculência da ditadura militar.



Importância da independência de classe



O principal pilar teórico para justificar uma candidatura própria, seja em Mato Grosso, seja em qualquer região desta Brasil com uma maioria do povo tão castigado, baseia-se, ao meu sentir, no conceito de independência de classe, exaustivamente defendido por Marx e Engels, pensadores clássicos da esquerda, eles que sistematizaram as primeiras propostas de um programa de gestão socialista, voltado para a superação da barbárie do capitalismo.

Na famosa Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas (1850), Marx e Engels foram categóricos ao alertar que a classe trabalhadora jamais deveria dissolver suas forças ou abrir mão de seus próprios nomes em favor de alianças com a burguesia dita liberal ou democrata.

Marx argumentava que, mesmo onde não há esperança imediata de vitória, os trabalhadores devem apresentar seus próprios candidatos para preservar sua independência, contar suas forças e levar sua posição ao debate público. Esse é o legado ao qual a esquerda contemporânea tem que responder.

Para os autores do Manifesto Comunista, abrir mão da candidatura própria em nome de uma "frente unificada" abstrata significa ser ludibriado pelas promessas vazias de governos de conciliação, que esvaziam o potencial transformador da esquerda. Isso, claro, quando se confia no potencial transformador da esquerda.

Atentos à orientação marxista, a gente conclui que disputar eleições com candidaturas próprias é vital para a esquerda manter sua identidade ideológica, renovar quadros políticos, apresentar programas voltados à justiça social e mobilizar a base militante. Essa estratégia evita a perda de protagonismo em frentes amplas e garante que pautas estruturais não sejam diluídas em composições pragmáticas.

Em tempos de Copa do Mundo, lembro que time que não disputa campeonato não constrói torcida, não se valoriza diante de quem sustenta o futebol. Essa é uma regra futebolística básica, e que vale também, certamente, para as pelejas eleitorais.



As esperanças que Caiubi Kuhn levantara

Quando a candidatura do geólogo Caiubi Kuhn foi lançada pelo PDT me surpreendi, positivamente, dadas as possibilidades que ela nos abria, nesse Mato Grosso em que o PDT estivera, até muito recentemente, ausente e/ou controlado por lideranças conservadoras e onde a esquerda, através da Frente Brasil da Esperança (PT, PcdoB e PV), há alguns anos, vem se subordinando a uma aliança espúria com os setores do Agro hegemonizados pelos barões da soja da família Maggi.

Jovem e muito ativo nas redes sociais, com seus artigos problematizadores da realidade ambiental de nosso Estado, Caiubi surgia, diante dos meus olhos fatigados, como a possibilidade, neste Mato Grosso, de contarmos pela primeira vez, com um candidato a governador que viesse a dar primazia às questões ambientais, à defesa radicalizada do meio-ambiente, ao enfrentamento da predação sistematizada que o Agronegócio promove em nosso território.

Parece, todavia, que a fragilidade institucional do PDT e uma aparente fragilidade ideológica do próprio Caiubi, acabaram por arrastar a candidatura, poucos dias depois de apresentada à sociedade, para o mesmo colo em que já estão o PT, o PcdoB e o PV, o colo do Agronegócio que se articula em torno do PSD do ruralista e ex-ministro Carlos Fávaro, conhecido braço politico e operador da família Maggi.

Espero que o Caiubi produza um dos seus artigos com explicações para esse recuo de sua candidatura tão desgastante.

Ficou me parecendo que faltou estofo, faltou visão de mundo e perspetiva de futuro para Caiubi Kuhn e na certa também para os dirigentes do PDT que submetem assim o partido, mais uma vez aos mesmos descaminhos em que já mergulhara, no passado, sob o comando meramente eleitoreiro de políticos como Otáviano Pivetta, Zeca Viana, Alan Kardec, e Lilo Pinheiro.

Fico, desde já, lastimando a perda dessa preciosa oportunidade de recuperarmos aqui, na Terra de Rondon, a utópica pregação de Leonal Brizola e Darcy Ribeiro, em torno de um “socialismo moreno”.

Nem sei se Caiubi Kuhn comunga, de fato, com os ideais dessa utopia ideológica proposta pelo brizolismo, segundo a qual o socialismo brasileiro não deveria copiar modelos soviéticos ou cubanos, mas se nutrir da nossa própria história, da miscigenação entre a nossa cultura e a mística desse nosso povo "moreno", tão marcado pela influência dos povos negros que para cá vieram trazidos como escravizados.

O sonho utópico de Brizola e Darcy foi apenas uma quimera lançada no ar e permanece por aí, desafiando a criatividade de quem se ocupe e se preocupe com o desafio da construção socialista.

E essas eleições de 2026, aqui neste território ocupado tão selvagemente pelo Agro e, atualmente, pelo bolsonarismo, poderia ser um ótimo campo para que essa formulação pudesse ser revisitada e, quem sabe, fortalecida para se reerguer e recuperar um PDT que tem tanto se prostituido nestes tempos em que o partido se viu até mesmo enredado na corrupção escandalosa do INSS e da Previdência Social.

O PDT e o socialismo moreno, que chegaram a ter forte presença e influência no Rio de Janeiro, nos tempos em que fora governado por Brizola, acabaram se despedaçando por aquelas bandas.

Imagino, em minha leitura torta, que talvez tenha faltado ao “socialismo moreno” um diálogo mais estreito com o marxismo e com o leninismo, mas esse é um estudo no qual precisamos nos aprofundar.

O fato é que um possível ressurgimento das consignas do brizolismo em Mato Grosso acaba também de ser uma utopia despedaçada pela renuncia desse transfuga que se revela Caiubi Kuhn.

Ao renunciar à sua candidatura, talvez de maneira torpe, talvez de maneira ingênua, ele entregou as utópicas bandeiras do brizolismo nas mãos da doutora Natasha Slhessarenko (PSD), uma candidata que é também um nome do empresariado e está longe de poder representar com dignidade a parcela empobrecida da população.

Imaginar Natasha, que já andou igualando lulismo e bolsonarismo na atual política contemporânea brasileira, como liderança de um projeto popular de ruptura com conservadorismo em Mato Grosso, é muita mentira para mim.

Romper com a democracria restrita



Considerado o pai da sociologia crítica brasileira e militante político, Florestan Fernandes dedicou grande parte de sua obra, como A Revolução Burguesa no Brasil, a analisar como as elites brasileiras sempre realizaram transições políticas "por cima", selando acordos entre si e excluindo o povo. (De uma certa maneira, foi o que fizeram as cúpulas do PSD e do PDT, ao rifar a candidatura de Caiubi.)

Florestan defendia que a classe trabalhadora precisava construir seus próprios instrumentos de poder e representação política expressiva.

Para ele, submeter o projeto da esquerda a alianças espúrias com oligarquias ou partidos burgueses consolida o que chamava de "democracia restrita". Ele apontava a candidatura própria como mecanismo para romper o ciclo histórico de conciliação e colocar os de baixo como protagonistas da história.

Florestan foi um pensador da esquerda brasileira que pregou contra a conciliação de classe. Mas podemos citar outros. É só ter o cuidado de lembrar o que já vivenciamos.

Em seu livro A Revolução Brasileira (1966), Caio Prado Júnior criticou duramente a importação mecânica de fórmulas estrangeiras e defendeu que a esquerda deveria formular uma tática baseada na análise concreta da realidade do país. Tal como tentaram Brizola, Darcy e todos aqueles que se esforçaram para forjar o Partido dos Trabalhadores, o Partido Comunista Brasileiro, o Partido Comunista do Brasil, o Partido Socialista Brasileiro, a Rede Sustentabilidade, o Partido Verde, o Partido Socialismo e Liberdade, o Partido da Causa Operária, o Partido Socialista dos Trabalhadores Unidos, a Unidade Popular. Não sei se citei todos.

Caio Prado Jr, referência teórica dentro da esquerda brasileira, alertava contra o erro de apoiar setores da suposta "burguesia nacional progressista" na ilusão de que eles realizariam as reformas de base.

Sob a lógica caiopradiana, disputar o espaço político institucional com uma candidatura e programa nitidamente populares é indispensável, por isso mesmo, para organizar as forças populares do país (trabalhadores urbanos, camponeses, marginalizados, etc) em torno de um projeto nacional de libertação, sem ilusões reformistas delegadas a terceiros.

A candidatura de esquerda é essencial

Caiubi Kuhn não teve tempo ou não teve interesse ou não teve sabedoria de compreender que a candidatura própria da esquerda era essencial para qualificar o debate ideológico em Mato Grosso. Ele não lembrou das lições destes estudiosos que vieram antes de nós.

Falo do Caiubi mas poderia também falar do Lúdio Cabral, das lideranças locais do Pcdo B, do Partido Verde...

E porque a candidatura própria é essencial? É a candidatura própria da esquerda que permite pautar o debate público com temas como reforma agrária, direitos trabalhistas e justiça climática, sem precisar ceder às diretrizes de centro ou direita.

É a candidatura própria da esquerda que oferece uma alternativa clara e direta aos trabalhadores e movimentos sociais, combatendo a despolitização e o descrédito na classe política.

É a candidatura própria da esquerda que garante a construção de alternativas para a classe subalternizada, através da renovação geracional de lideranças e evita a dependência exclusiva de nomes hegemônicos, fortalecendo a capilaridade dos partidos no médio e longo prazo.

É a candidatura de esquerda que evita o "paradoxo de vencer, mas não governar", onde alianças heterogêneas engessam a implementação de políticas transformadoras.

A importância de manter uma "trincheira" própria dentro da disputa eleitoral tem sido frequentemente debatida por movimentos e pensadores do campo progressista. A literatura política aponta que, em momentos de polarização, a esquerda se divide entre a formação de frentes amplas (com foco na governabilidade e na derrota de agendas conservadoras), como defendido atualmente por Lula e seus seguidores, e a manutenção de candidaturas independentes e de perfil mais radical (focadas na agitação social e na construção de uma base estruturada).

Lenin detalhou a atuação da esquerda no campo institucional em obras como “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo (1920) e nas suas Teses sobre a Questão Parlamentar para a Terceira Internacional. Lenin combatia tanto o "cretinismo parlamentar" (a ilusão de que as eleições mudam a estrutura do sistema capitalista) quanto o "esquerdismo abstrato" (o boicote cego às urnas). Para ele, as eleições devem servir como uma poderosa tribuna de agitação e propaganda. Um espaço para a esquerda expandir seu objetivo de ampliar suas bases no meio do povo.

Sob a ótica leninista, a campanha eleitoral não deve servir para acumular cargos burocráticos, mas para despertar a consciência das massas. Isso só é viável através de uma candidatura própria que apresente um programa nítido, expondo as contradições do capitalismo sem as amarras ideológicas de coligações moderadas.

Já o pensador italiano Antonio Gramsci, em seus “Cadernos do Cárcere", procurou redefinir o papel do partido político, chamando-o de "O Moderno Príncipe". Gramsci avaliava que, nas sociedades ocidentais complexas, a tomada do poder exige da esquerda uma disputa prévia na sociedade civil para construir uma nova hegemonia cultural (consenso em torno dos valores da classe trabalhadora).

Eleger representantes ou disputar o pleito com um projeto próprio é, para Gramsci, uma ferramenta pedagógica importante. Ele aponta que é no processo eleitoral independente que o partido unifica as visões de mundo fragmentadas do povo em uma vontade coletiva nacional-popular, algo que se perde quando a esquerda atua como coadjuvante em projetos alheios.

Agronegócio é uma força de dominação

Então, posso concluir que o PT, o PcdoB, o PV se enfraquecem quando deixam de apresentar candidaturas próprias nas eleições em Mato Grosso. Todos temos visto que a convivência do PV mato-grossense com o PT e o PcdoB tem revelado contradições que não deveriam ser resolvidas apenas em conchavos de bastidores mas em um debate que buscasse o envolvimento da população.

Esse mesmo diálogo priorizado com a população, em busca de bases para o seu projeto político, vai continuar faltando certamente para o PDT, há tantos anos afastado do teste das urnas, desde que se viu vítima de lideranças vacilantes como se revelaram Dante de Oliveira e Otaviano Pivetta. O PDT tem sido usado por muitos como mero partido de aluguel e isso precisaria ser compensado com uma busca intensa de representatividade junto ao povo trabalhador mato-grossense. Ação que Caiubi Kuhn poderia comandar mas que acabou desistindo dela.

É triste perceber que, ao invés de procurarem o povo trabalhador, os partidos de esquerda, em Mato Grosso, procuram os barões do Agronegócio em busca de substância. Ecoa na minha cabeça aquela triste canção do gaúcho Lupicinio Rodrigues (1914-1974) que fala de moços, pobres moços, que “vão ao inferno a procura de luz.”

Ora, João Pedro Stédile, economista, liderança do MST e analista político, aponta que o agronegócio moderno não é apenas um setor econômico, mas uma força de dominação transnacional baseada no capital financeiro. Stédile argumenta que negociar com esse setor, entre as muitas perdas que produz, paralisa a reforma agrária popular, pois o modelo do latifúndio exportador é inerentemente incompatível com a soberania alimentar e a preservação ambiental.

Virginia Fontes, historiadora e cientista política, utiliza os conceitos de "capitalismo imperialista" e "aparelhos privados de hegemonia" para demonstrar que a burguesia associada ao agronegócio sequestra o orçamento público (via subsídios e perdão de dívidas). Para Fontes, quando partidos de esquerda se aliam a essas forças nas eleições, eles passam a atuar como meros administradores dos interesses do capital, desmobilizando a classe trabalhadora.

A economista Leda Paulani analisa o fenômeno a partir da "mercadorização da terra" e "reprimarização da economia". Paulani sustenta que a dependência econômica do Brasil em relação às commodities agrícolas confere ao agronegócio um poder de veto sobre a política econômica. A conciliação, portanto, obriga a esquerda a manter políticas de austeridade e incentivos fiscais ao campo que aprofundam a desigualdade social.

Outro economista, Plínio de Arruda Sampaio Jr. classifica a estratégia de alianças amplas com o latifúndio moderno como um sintoma da "reversão neocolonial". Sampaio Jr. defende que essa conciliação transforma a esquerda institucional em uma linha de defesa do próprio sistema capitalista dependente, impedindo a juventude e os trabalhadores de enxergarem uma alternativa anticapitalista real nas urnas.

Ruralistas lucram e povo trabalhador paga a conta

Só doi quando a gente ri. E dói porque é isto que a política lulista tem imposto à esquerda de Mato Grosso em todo este recente período. Conciliação com o Agro.

Acompanhando a reflexão desses analistas, vou concluindo que a conciliação de classes com o agronegócio anula a identidade da esquerda e converte o Estado em mero gerenciador dos privilégios da burguesia agrária. Historicamente apresentada como uma exigência de "governabilidade", essa aliança neutraliza pautas estruturais urgentes. O resultado prático é a perpetuação de um modelo econômico primário-exportador baseado na desigualdade e na selvagem exploração da terra.

Deve ser por isso que o médico, pesquisador da UFMT e militante histórico do PT Wanderlei Pignati parece falar para as paredes quando, por anos e anos a fio, brada contra a contaminação dos agrotóxicos que só faz se agravar em Mato Grosso, sem que encontre um ouvido de autoridade pública que se empenhe pelo urgente enfrentamento dessa emergência médico sanitária.

Os defensores da conciliação argumentam que ceder ao agronegócio é necessário para manter o equilíbrio fiscal e a paz social. Os números da realidade política e econômica revelam, no entanto, que enquanto o latifúndio colhe cifras bilionárias, o povo trabalhador é que arca com o custo fiscal, ambiental e social deste grande conchavo nacional.

Recentemente vimos que, no orçamento federal do Plano Safra, a agricultura empresarial (médios e grandes produtores) concentra o montante recorde de R$ 525,1 bilhões. Em contrapartida, a agricultura familiar recebe apenas R$ 97,3 bilhões, embora seja a verdadeira responsável por produzir os alimentos que chegam à mesa da população.

As corporações de commodities operam sob um regime facilitado pela estrutura do Estado atualmente administrado pelo PT. E o debate político é pressionado pelo projeto de lei (PL 5.122/2023), que prevê a renegociação e anistia de dívidas rurais de grandes produtores, gerando um impacto estimado pelo Ministério da Fazenda de até R$ 140 bilhões ao longo de 13 anos. Trata-se de uma verdadeira "pauta-bomba" orçamentária patrocinada pela bancada ruralista, um dos principais braços do bolsonarismo.

Em nome da governabilidade institucional, pautas prioritárias para o campo progressista sofrem paralisia crônica. A reforma agrária popular é travada para não antagonizar os grandes proprietários, enquanto as demarcações de terras indígenas e os limites à fronteira do desmatamento são relativizados em mesas de negociação em Brasília.

Com esses meus olhos míopes, o que percebo é que, na periferia dependente do capitalismo — de maneira ainda mais aguda em regiões sob forte hegemonia do latifúndio monocultor, como em Mato Grosso —, a conciliação de classes esvazia a combatividade popular. Aceitar o papel de sócio minoritário da burguesia agrária sob a justificativa de "sobrevivência" apenas adia as rupturas necessárias.

Falei aqui de alguns problemas que consegui alinhar, pesquisando no Google. Muitos mais problemas viriam à luz do dia se, ao invés do CONCILIARMOS com o Agro, nos dispuséssemos a ENFRENTÁ-LO.

O melhor detergente é a luz do Sol.

Para isso, é preciso romper o atual ciclo e eu lamento que Caiubi Kuhn tenha abandonado o barco. Sigo entendendo que é imperativo que a esquerda resgate sua independência política de classe.

O espaço eleitoral precisa ser ocupado por candidaturas próprias e sem amarras, capazes de defender abertamente temas como a taxação das grandes fortunas agrícolas, o fim dos subsídios estatais ao agrotóxico e a soberania alimentar.

Vencer eleições diluindo o programa resulta em governos frágeis e reféns do sistema econômico.

Manter candidaturas próprias e um programa nítido não é isolamento tático; é a única estratégia viável para acumular forças reais, educar politicamente o povo e semear as bases para uma transformação estrutural autêntica na sociedade brasileira.

ENOCK CAVALCANTI, 73, é jornalista e editor do blogue PAGINA DO ENOCK, que se edita a partir de Cuiabá, Mato Grosso desde o ano de 2009.

enockcavalcanti@gmail.com