José Medeiros golpeado pelo PL
Por Enock Cavalcanti
Meus amigos, meus inimigos: como decretou Natasha Slhessarenko, na convenção do PSD, a lealdade não é mesmo uma característica dos políticos e da política em Mato Grosso e no Brasil. O atual deputado federal José Medeiros (PL), que procura sempre se apresentar e se comportar como "bolsonarista raiz", ainda que desengonçado, não ficou nada satisfeito com a decisão da cúpula nacional do seu partido de enfiar a candidatura de Janaina Riva (MDB) ao Senado por sua goela abaixo.
Medeiros tinha expectativa de concentrar os votos bolsonaristas em Mato Grosso contudo a filha do notório José Riva chega cheia de estrutura e cheia de banca, ainda que pelo #MDB - que o prefeito Abilio Brunini (PL) diz ser um partido lotado de esquerdistas - , para disputar com Medeiros a preferência dos apoiadores de #Bolsonaro em Mato Grosso, na busca de uma vaga no Senado Federal. Cheia de estrutura?! Claro, Janaina é a filha do Zé Riva, corrupto confesso, mas sempre livre, leve e solto!
Óbvio que Janaina deve chegar falando em voto casado dentro da coligação em torno da candidatura do seu sogro, Wellington Fagundes (PL), a governador. Mas Medeiros parece sentir que armaram uma cama de gato, ou melhor, de gata, contra ele - já que, correndo por fora, as poderosas máquinas de Mauro Mendes (UB) e Carlos Fávaro (PSD) também disputam a cadeira de senador que o policial rodoviário aposentado de Rondonpolis um dia imaginou que pudesse voltar a ser sua, como recompensa por sua dedicação canina, quase rastejante, ao ex-presidente golpista.
Longe de ser um Coringa transtornado e visceral como aquele que o ator Joaquim Phoenix incorporou no cinema, José Medeiros sempre teve pra mim esse jeito de palhaço patético, que conseguiu se alçar até alturas extraordinárias na atividade política, alturas que ele jamais imaginara ser capaz de trilhar. Devo recordar que Medeiros se iniciou na politica, curiosamente, como filiado ao PT-MT, no grupo da professora Serys Slhessarenko, no inicio dos anos 90, um inexpressivo policial rodoviário a patrulhar rodovias e modorrentas estradas vicinais no trecho de Rondonópolis a Guiratinga, passando por Pedra Preta.
Pode acontecer agora o fim de carreira para esse Medeiros que contou com uma ata fraudada - na convenção da coligação Mato Grosso Melhor Pra Você (PDT / PPS / PSB / PV) em 2010 - para ingressar no Senado, e construir surpreendente carreira parlamentar. Ele terá, agora, o duro desafio de convencer os bolsonaristas a não cairem no canto de sereia da filha "bunitinha" do Riva, e garantirem a preferência a ele que há tanto tempo vem ralando, pagando micos na Câmara, xingando os petistas e esquerdistas, consolando os patriotários bolsonaristas que foram presos pela tentativa de golpe de janeiro de 2023, e se dedicando sempre piedosamente a paparicar o destronado e mais patético ainda capetão presidiário Bolsonaro. A vida de um lambe-saco nunca é uma existência muito equilibrada, vamos combinar.
Pior para Medeiros, nessa altura do campeonado, é saber que Janaina chega pra ferrar com seu futuro abençoada por Michelle Bolsonaro, justo a esposa do homem, esta personagem também algo tresloucada que não dá sossego nem a Flávio Bolsonaro, o filho que o pai tenta abençoar como seu herdeiro. Não bastasse empentelhar pra cima do Flávio, Michele e também o Valdemar da Costa Neto resolveram agora também atrapalhar a já tão atrapalhada campanha e trajetória do nosso Zé. Quem foi bafejado pela sorte inesperada antes, no caso da ata fraudada, vê agora como que um andaime desabar sobre a sua cabeça. "O que dá pra rir, dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar".
De golpe em golpe, de traição em traição, de eleição em eleição, é assim que o bolsonarismo vai destruindo e/ou renovando seu polêmico organismo político no Brasil.
Medeiros, que se imaginava um leão, de repente aparece agora como rato patético, sem coragem de explodir em surto, sem estofo para xingar, quem sabe, a filha do Riva, abandonado à própria sorte por parceiros muito mais mais gulosos do que ele. Afinal de contas, Medeiros, dentro dos estertores do bolsonarismo, sempre procurou atuar como um louco manso, tão manso que já me disse que um dos seus melhores amigos em Brasília, parceiro de cervejadas, é o também boquirroto petista Lindbergh Faria, marido da loira Gleisi Hoffman.
A política partidária tem, sim, muito de farsesca.
O xororô do Zé Medeiros, nesse vídeo de esperneio que ele "corajosamente" conseguiu gravar e reproduzo acima, é o último alento de um destroçado. Que papel restará para esta triste figura no cenário político de Mato Grosso?!
"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?!
Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?!"
ENOCK CAVALCANTI, 73, é jornalista, editor do blogue de opinião PÁGINA DO ENOCK, que ele edita a partir de Cuiabá, Mato Grosso, desde o ano de 2009.