A final da Copa: quanta bobagem, afinal*
Por Edmundo Lima de Arruda
O festival de besteiras que assola o mundo cada vez mais desinformado não poupa o futebol. Não poderia ser diferente. O esporte que mais envolve e emociona milhões não passa ao largo dos efeitos dos tempos algorítmicos de uma cultura do orgulho de ser idiota. E de reproduzí-lo.
Uma evolução no avesso atinge a inteligência em todas as esferas da vida. O ser parido na velocidade espetacular das redes produz o tipo "brilhantemente ignorante". Ele é o resultado de uma mutação do conhecimento no qual tem papel de destaque um exército de "influencers" e "coaches" de ocasião. Filósofos se sujeitam a esse desafio de banalização das ideias.
Neste torneio mundial de futebol a Argentina, campeã em 2022, ocupou o lugar do bode da vez nos substratos de polarizações mais amplas. Logo na partida entre los hermanos e Egito, quando de evidentes erros de arbitragem em favor do time de Messi, anunciavam uma Copa de cartas marcadas. Tudo organizado para o tetra da Argentina. Nessa pantomima conspiratória aparece uma Argentina racista, sionista (no seu sentido mais abjeto), um time sem jogadores pretos. Uma seleção eugênica.
Um historiador em seus dois segundos de orgasmo prematuro nos oferece um vídeo sobre a gênese da escravidão na Argentina e o genocídio programado dos escravos na guerra do Paraguai (na qual o Brasil era aliado...). A oportunidade para extinguir afrodescendentes de uma já presente seletividade em curso. Primeiro, evitando a miscigenação. Segundo, colocando os povos africanos no front como buchas de canhões.
A redução sociológica não tem limites atestando uma inegável anestesia no pensamento. Uma primeira afronta à inteligência: o abominável escravismo não admite e não permite graduar bons e maus países que o praticaram. No Brasil é farta a literatura sobre a violência contra os escravizados arrancados da África. Aliás, também o genocídio de povos indígenas não foi exclusivo na Argentina, estando presente em toda a América Latina. Portugueses e espanhóis dizimaram populações inteiras de índios. Bandeirantes eram remunerados por orelhas de tribos inteiras.
Uma segunda aberração do raciocínio é carimbar os argentinos por sionismo, tomando, entre muitas hipóteses estapafúrdias, a dos silêncios de jogadores como Messi e outros sobre o genocídio em Gaza e o apoio de alguns jogadores ao governo Milei. A Argentina é racista e sionista tanto quanto outros países, incluindo o Brasil. Ademais, maior a generalização, maior a falsificação. Pelé não era lá um exemplo de consciência negra, ou de consciência de cidadão... Sócrates era ativista mas o que o definia no futebol era sua extraordinária classe nos dribles e jogadas. Neimar é bolsonarista. Por isso deixa de ser um grande jogador?
A Argentina é um país-irmão. Como em todas as culturas, há diversidade com suas riquezas e misérias. Muitos dos que destilam ódio aos argentinos não deixam de apreciar Buenos Aires, a cidade mais charmosa e culta das Américas, com seu tango, vinho, carne. Pensadores como Marx, Freud e Kelsen entre tantos foram reimaginados na Argentina. A livraria El Ateneo é fascinante, igual as réplicas de edifícios europeus.
A Argentina é cultura e esta sintetiza contradições. Maradona, um descendente de índios, gênio do futebol, era um homem de esquerda. Pleno de vícios não deixa de ser motivo de orgulho de argentinos e de seres humanos que amam aquele esporte. Esporte criado na Inglaterra, o país com o maior número de colônias escravistas... Guevara, ídolo de Maradona, sintetiza acertos e equívocos de um grande homem na história. A Espanha bicampeã foi outro país com história trágica, de muito terror fora e dentro do seu país (jamais esquecer o martírio dos Incas de Atahualpa e o fascismo de Franco). Uma República nas mãos de uma ultradireita delirante e uma monarquia restaurada de cariz democrático. Ambos países com futebol de excelência. Ponto.
Por fim, a Argentina está de parabéns. Das duas últimas copas levou uma e ficou em segundo lugar nesta última. Enquanto o Brasil espera Godot... É dizer, nos últimos oito anos colocou o futebol latino-americano como o melhor do mundo. E cá entre nós, brindaram o mundo com Jorge Luis Borges, Ricardo Darín, Júlio Cortázar, Astor Piazzolla, Ernesto Sabato, entre milhares de outros intelectuais e artistas gigantes.
Viva a, Argentina. Abaixo a burrice recalcitrante.
- Edmundo Lima de Arruda Jr, sociólogo e jurista, nascido em Cuiabá, MT, vive há tempo em Florianópolis, SC
