“ODEIO OS INDIFERENTES”
POR BENITO CAPARELLI
Christian Friedrich Hebbel, filósofo alemão, poeta, escritor, dramaturgo e jurista, (18-3-1813/13-12-1863), porém, não muito conhecido em nossas paragens, foi quem cunhou o termo “Odeio os Indiferentes” o qual foi objeto de análise etiológica e adjetivada por Antônio Gramsci, este, sim, conhecidíssimo filósofo, sociólogo e ativista político italiano, quem outorgou-lhe extensa e copiosa compilação de viés ideológico, escorada em Marx e Lênin, ao editar livro do mesmo título (Editora Boitempo), nos albores do início do século passado (1917), sendo sua obra acolhida e consagrada universalmente, pela sua rica adjetivação vernacular e sempre atual, como hoje ocorre, por isso, preferimos transcrevê-las, integralmente, sem comentá-las, deixando a critério do leitor, apenas e tão somente, no tocante ao que se passa em nosso país, bem como carreando-a pela análise que faz um general da reserva, no cenário político da nação.
Inicia o afamado e renomado autor itálico ao afirmar de modo enfático: “que viver significa tomar partido”. Não podem existir os apenas homens.
“Quem verdadeiramente vive, não pode deixar de ser cidadão e partidário, pois, a indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida.
A indiferença é o peso morto da história. É matéria inerte em que se afogam, frequentemente, os entusiasmos mais esplendorosos.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; é aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos, mesmo o mais bem construído; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca.
O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heroico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos, que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos.
O que acontece, não acontece tanto, porque alguns querem que aconteça quando, porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis, que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar.
A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso.
Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso.
Mas, os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, porque todos são vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente.
Estes, então, zangam-se, queriam eximir-se às consequências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu?
Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são, todavia igualmente urgentes.
Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica, que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismo e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram.
E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir.
Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.”
“Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.” (Gramsci).
O general de divisão, atualmente na reserva, OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS, sobre o tema, publicou, recentemente, no “Correio Braziliense” os seguintes dizeres:
“Em apertadas palavras, tratou-se da comparação entre o estudo do cenário construído por profissional e a opinião dos leitores. Sendo bosquejo prospectivo, serve como sinalização do que se pode esperar no próximo ano. Matutou Hannah Arendt: “A indiferença pode ser terreno fértil para o mal, e a antítese da indiferença é a reflexão. Portanto, temos todos a responsabilidade de refletir sobre nossos atos, de escolher, de não apenas obedecer e seguir o rebanho”. A sociedade não pode quedar-se indiferente. A indiferença gera o mal! “
Benito Caparelli é Juiz do Trabalho aposentado, em Mato Grosso
