Morrer de Amor
Por Sebastião Carlos
É possível morrer de amor? Esta indagação, desde a semana passada, passou a ser feita com insistência, em várias partes do mundo. Não que a questão gerada por ela seja nova. Ela é recorrente desde há séculos, na vida real e na literatura. Mas, por que afluiu a partir do último dia 5, precisamente quando guerras atormentam o mundo e imolam milhares de inocentes?
Vamos ver o motivo desse recente interesse, mas antes se impõe a distinção entre o de - preposição conectiva que indica, no caso presente, uma finalidade – e o por – também uma preposição, mas usada para indicar uma causa, um meio. Então falaremos aqui de morrer de amor e não de morrer por amor. Assim que “morrer de amor”, não é o mesmo que “morrer por amor”.
No último dia 4, morreu em Paris, aos 56 anos, Marjane Satrapi. Ela era iraniana exilada na França e, perseguida em seu país de origem, ganhou a nacionalidade francesa e se tornou uma das mais ativas militantes pelos direitos civis e em defesa dos perseguidos políticos pela ditadura dos aiatolás. Foi uma ativa cronista a relatar as experiências das mulheres e dos jovens sob as restrições políticas e sociais do regime.
Além do mais, era escritora e ilustradora que se tornou conhecida na Europa pela série de graphic novels “Persépolis”, que narra a sua história e a de outras jovens no período que vai da ditadura do xá Reza Pahlavi [1941 a 1979] e durante e após a denominada Revolução Islâmica. Publicada em 2000, seria adaptada para o cinema, com a codireção da própria autora e, oito anos depois, indicada ao Oscar de Melhor Filme de Animação. Assim, com uma narrativa autobiográfica, soube incorporar a história moderna do Irã ao cenário artístico global. Os anos sombrios e terríveis que marcaram, e de certa forma ainda marcam, a história recente do Irã foram por ela fixadas de forma indelével numa narrativa que teve aclamação mundial. A causa da morte não foi oficialmente divulgada, mas amigos e pessoas próximas afirmaram que ela morreu de tristeza. Em comunicado à imprensa, disse em nota sucinta a família: “Marjane Satrapi morreu de tristeza pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida".
Literalmente, “morreu de tristeza”. A saudade do marido, morto o ano passado, era tão imensa que ela não suportou. O sucesso literário e social não foi suficiente para que a dor fosse amenizada. Quando Mattias faleceu em abril do ano passado, ela publicou num dos principais jornais da França, Le Figaro, a seguinte nota: "Marjane Satrapi anuncia com profunda tristeza o falecimento de Mattias Ripa, o homem e o amor de sua vida, que nos deixou aos 53 anos após 31 anos de uma vida maravilhosa juntos". A partir de então, foi usual publicar nas redes sociais mensagens emocionadas em que escrevia: "Perdi o amor da minha vida."
Daí a indagação que permanece: é possível morrer de tristeza pela perda da pessoa amada? É possivel morrer de amor? Em outros termos: ainda se morre de amor ou de saudade em tempos tão elusivos, fugazes e insustentáveis como estes que vivemos?
O importante é reconhecer que o “morrer de amor” não é somente uma figura de linguagem utilizada na poesia, na música ou na literatura de modo geral. A paixão avassaladora que invade o corpo e alma é também objeto da ciência, que nela reconhece que essa dor profunda, provoca um extremo estresse que abala e causa reais danos físicos a essa máquina fundamental chamada coração. Daí ser conhecida também por a “síndrome do coração partido”.
Se a perspectiva médica pode ser delineada com o rigor da ciência, já o significado poético e emocional refulge de filigranas, que exigem especial tratamento. Sim, a arte – e isto fica para um outro momento em que poderemos tratar de amores que transcenderam o tempo e a existência: Cleópatra e Marco Antônio, Romeu e Julieta, Pedro e Inês de Castro e tantos, tantos outros, que, na ficção ou na vida real se transformaram em obras literárias imorredouras – para a arte o significado de “morrer de amor” traduz um sentimento que pela intensidade se torna incontrolável, no qual é tanta a saudade, é tanta a paixão e o desejo que a ausência da pessoa amada pode se tornar a fonte do sofrimento último e insuperável.
Não por menos, dois grandes da poesia dizem com uma alegria pontuada de sutil tristeza: “Tão bom morrer de amor! E continuar vivendo...” o nosso Mário Quintana e o francês universal Victor Hugo: “Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele”.
Sebastião Carlos é poeta, escritor e historiador em Cuiabá, Mato Grosso, e membro da Academia Mato-grossense de Letras. Publicou, entre outros: A Arquitetura do Homem, Hematopoemas, Pássaros Sonhadores.