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Vender” o passado, sobretudo comparado com o presente de Jair Bolsonaro, é uma tática correta, mas ela não basta. Por exemplo: quando o Lula fala em enfrentar o problema da fome, ele apenas acena para a manutenção dos 600,00 reais, para além do mês de dezembro. Isto é pouco e Bolsonaro já está prometendo o mesmo que o Lula. É claro que o energúmeno é facilmente rebatido, bastando perguntar por que não prorrogou o aumento para o ano que vem agora em agosto.Mas Ciro Gomes dobrou esta proposta e é mais difícil de explicar por que não apoiar valores mais altos. Afinal de contas, qual a justificativa de um ou de outro valor? Qual o cálculo que permite identificar o quanto uma família em situação de miséria precisa para poder se alimentar corretamente? Está faltando ao Lula montar uma proposta mais completa e ambiciosa para o problema da fome. Falta algo dirigido a uma mobilização do conjunto da sociedade para enfrentar esta desgraça. Algo que apele para a generosidade e a solidariedade, além de uma firme intervenção do Estado.O clima entre os opositores de Jair Bolsonaro, depois de uma semana de angústias com expectativas negativas em relação a pesquisas, é de alívio e quase euforia. Segundo a opinião da maioria, não só Bolsonaro está em condições de ser batido no primeiro turno, como também deixaram de existir condições para ele dar um golpe.A meu ver ambas as avaliações são discutíveis. Todas as avaliações para as condições de um golpe passam pela comparação com o golpe de 1964 e outros, vários, na América Latina dos anos 1960 e 1970. “Sem o apoio do andar de cima e do imperialismo americano” não pode haver golpe. Há um forte maniqueísmo nesta afirmação. Golpes respondem a condições locais, mais até do que a condições internacionais. Já em 1968, os militares peruanos deram um golpe que não tinha apoio nem das elites nem dos Estados Unidos. Caso único? Exceção que confirma a regra?O “andar de cima” está dividido, embora os pesos pesados pareçam ter despertado para os riscos provocados pelo presidente e suas intenções golpistas. Mas se é bem possível que os ruralistas sejam capazes de fechar rodovias com tratores, não imagino os capos da Faria Lima fechando ruas com Ferraris. O poder do dinheiro tem certos limites e precisa de tempo para operar. Para financiar a eleição de deputados e senadores, por exemplo.Se Mao Tse Tung (com esta grafia eu revelo a minha idade) estivesse vivo, ele balançaria a cabeça e repetiria sua frase histórica: “o poder está na ponta do fuzil”. É um notório exagero, mesmo nas condições da China dos anos 1930 e 1940, dispensar a análise das posições das diferentes classes sociais, em particular as dominantes, e a dos poderes imperiais, na época a Inglaterra, França, Estados Unidos e Japão. Apesar da frase citada, Mao fez as devidas análises em seu tempo. Mas a metáfora é interessante por mostrar que opinião desarmada tem menos peso do que a armada.Não é por acaso que Jair Bolsonaro fez tudo que pode para disseminar o porte e uso de armas desde a sua posse. Ele sabia que a esquerda não tem mais uma estratégia de luta armada pelo poder. E sabia que seus asseclas estavam prontos para embarcar no militarismo miliciano. O resultado são 700 mil bolsonaristas possuidores de mais de 3 milhões de armas, sendo que muitas com alto poder de fogo. Tudo isso sem o controle das FFAA, que parecem não se incomodar com a perda do monopólio do uso da força.Esses fanáticos organizados nos Clubes de Tiro e que já planejam criar um partido político, não tem o nível de estrutura necessário para dar um golpe. Eles têm um raio de operações localizado, embora suficientemente articulado para uma ação coordenada nacionalmente. Mas não tem comando e controle para agir em grupamentos maiores do que dois ou três clubes vizinhos. Podem criar um tremendo problema, fechando estradas, atacando jornais e TVs ou sedes de partidos de oposição. Mas um golpe significa algo muito maior em termos de amplitude das operações militares.Jair Bolsonaro tem outro componente nas “suas” forças armadas. Uma parte importante das polícias militares é bolsonarista. Não tenho dúvidas que muitos deles poderão se mobilizar e agir para dissolver manifestações de opositores, atacar os alvos citados acima e até tomar as sedes dos governos estaduais ou prefeituras que estejam nas mãos da oposição. Mas as polícias são notoriamente hesitantes em correr riscos que possam complicar suas carreiras. Se não houve uma maré importante de adesões ao golpismo eles vão pensar duas vezes e uma boa parte vai ficar neutra. Um golpe “boliviano”, executado pelas polícias militares, me parece difícil de acontecer.Para que os policiais se mexam com força, a liderança das FFAA é fundamental. As polícias não enfrentam o exército, os paraquedistas ou os fuzileiros navais. Mas podem segui-los se eles se mexerem.Finalmente, temos que avaliar se as FFAA podem intervir militarmente a favor da manutenção de Jair Bolsonaro. Não é uma avaliação fácil, pois os fatores em jogo são muitos. O ministério da Defesa está, abertamente, jogando na suspeição das urnas e do processo eleitoral, com vistas a uma eventual anulação ou adiamento das eleições. Se Lula ganhar apertado, a tentação de anular as eleições vai ser grande. Se Lula tiver larga margem de vantagem nas pesquisas no fim da campanha, a tentação vai ser grande de forçar o adiamento das eleições.Como Jair Bolsonaro e seus generais pretendem anular ou adiar das eleições? O “golpe clássico”, com fechamento do Senado, da Câmara, do STF e do STE, a deposição de governadores de oposição, dissolução de sindicatos e associações profissionais etc., me parece impossível em um quadro de normalidade política e social. O que é mais do que possível são os comandos das FFAA darem um ultimato ao Congresso, ameaçando com o golpe. Toda a questão vai ser se este Congresso, para lá de fraco, vai aceitar a pressão ou se vai peitar o “pronunciamento”.As coisas estão tão ruins para Jair Bolsonaro, que eu não acredito que o ultimato aconteça sem uma prévia negociação com o Centrão e anexos para garantir o resultado. A “seco”, não vejo este congresso, mesmo com uma maioria sem princípios, nem compromissos com o país, votando a anulação das eleições das quais fizeram parte, ou adiando o pleito. A não ser que a maioria dentre eles saia derrotada das eleições, o que me parece improvável.Assim voltamos para aquilo que já indiquei em outros artigos. O golpe precisa do apoio do Congresso e este apoio não vai acontecer sem uma agitação política e/ou social de grandes proporções em várias partes do país. No meio do caos, a pressão da generalada pode funcionar, misturada com a garantia da manutenção dos interesses mesquinhos do Centrão e outros mais.Como pode ser provocada esta instabilidade política? Jair Bolsonaro tem suficientes provocadores fanáticos e armados para criar tumultos antes, durante e depois das eleições. Mesmo que apenas uma fração dos 700 mil aceite se arriscar pelo “mito”, 10% deste número já representa 70 mil agentes do caos. Ataques a comícios, atentados contra sedes de campanhas, agressões a candidatos e apoiadores são coisa fácil de se organizar, sobretudo com a expectativa de um comportamento solidário da polícia. Ações brutais das forças policiais ampliariam o caos, com a dissolução de manifestações com amplo uso de gás lacrimogênio, pancadaria, tiros de borracha. Com sangue correndo, feridos e mortos, fica armado o quadro para um pedido de Jair Bolsonaro ao Congresso, cobrando plenos poderes para “restaurar a ordem” e, de passagem, suspendendo ou anulando as eleições, cuja “transparência e lisura estariam prejudicadas”.Lembremos que Jair Bolsonaro tem o suficiente de apoio entre seus fanáticos para apelar por manifestações de massa em suporte ao seu pedido de mais poderes “em nome da ordem e da democracia”.Estou armando o quadro mais perigoso para este futuro próximo e agora veremos se ele tem qualquer possibilidade de acontecer. A meu ver, Bolsonaro vai tentar o golpe por puro desespero. Por medo de ser chamado a pagar por tudo que fez. Ou que fizeram, ele, a família e os asseclas. Se vai dar certo é outra coisa. É bom lembrar do fiasco do último 7 de setembro, quando as provocações deram chabú e ele ficou esbravejando ameaças que não tinha forças para cumprir.Para dar este golpe é preciso competência e coragem e as duas coisas estão em falta no Planalto. Mas é sempre bom lembrar que o pitbull encurralado é um perigo. Ele ataca cegamente e faz um estrago antes de ser controlado.Muita coisa vai ficar na responsabilidade dos comandos das três armas. Se os generais, almirantes e brigadeiros se recusarem a dar suporte às ameaças de Jair Bolsonaro, negando-se a fazer o ultimato para o Congresso, o golpe desaba, limitando-se, no máximo, a manifestações dos bolsominions e provocações dos seus apoiadores armados. Sem o apoio dos altos comandos, Bolsonaro teria que apelar para a tropa, por cima dos seus comandantes. Embora ele tenha muita adesão na oficialidade média que tem o comando direto das tropas, um chamado à insurreição é algo muito grave e difícil de ser seguido em massa.Estamos no fio da navalha, não porque as condições políticas em geral estejam favoráveis a um golpe (elas, decididamente, não estão), mas porque condições políticas específicas entre a parcela armada da população podem estar.O próximo teste para a democracia vai ser o 7 de setembro. Bolsonaro está convocando suas hordas para manifestações e tentando inserir os desfiles militares nos seus comícios. Mistura para lá de perigosa que parece encontrar resistências entre os comandos militares. Não parece que o energúmeno pretenda dar o golpe agora, mas vai testar a sua base de apoio popular e militar. O desenlace fica para mais tarde.Minha maior esperança é que Jair Bolsonaro tenha mais medo de apostar no caos do que o medo que tem do “japonês da federal” que vai esperá-lo na porta dos fundos do palácio do Planalto, por onde ele tentará escafeder-se no dia da posse de Lula.*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA). Publicado originalmente no A Terra é Redonda