CAIUBI KUHN: Nas últimas semanas o boato sobre Ratanabá, uma suposta cidade perdida no norte de Mato Grosso, ganhou espaço na mídia. Porém, essa lenda é mais uma fakenews, resultado da falta de conhecimento sobre ciência e sobre os fenômenos da natureza q

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Fakenews, ratanabá e divulgação científicaPOR CAIUBI KUHNNas últimas semanas o boato sobre Ratanabá, uma suposta cidade perdida no norte de Mato Grosso, ganhou espaço na mídia. Porém, essa lenda é mais uma fakenews, resultado da falta de conhecimento sobre ciência e sobre os fenômenos da natureza que ocorrem no nosso planeta. Neste texto além de explicar o porquê Ratanabá não existe, também será abordado sobre a importância da divulgação científica e a necessidade de o Brasil melhorar o ensino de ciência nas escolas. Para entender o porquê Ratanabá é uma fakenews, se pode utilizar dois argumentos principais. O primeiro é sobre a idade atribuída a cidade perdida. O segundo sobre os processos que deram origem as linhas que embasaram o surgimento da lenda. Para recordar o leitor, a vida na terra surgiu há pelo menos 3,7 bilhões de anos, e vem evoluindo lentamente ao longo do tempo geológico. O maior e mais significativo evento de diversificação de formas de vida ocorreu por volta de 542 milhões de anos atrás, no qual surgiram a base da maioria dos filos modernos. Nos textos sobre Ratanabá, citam uma idade de 450 milhões de anos para a cidade. E esse é o primeiro fato que demonstra que a lenda da cidade perdida se trata de uma fakenews. Se viajássemos no tempo até 450 milhões de anos atrás, encontraríamos um planeta onde a vida estava restrita basicamente aos oceanos. Não veríamos florestas, nem tão pouco répteis, anfíbios, aves ou mamíferos. O Homem estava longe de surgir. A história do homem Sapiens (homem moderno) se inicia aproximadamente 350 mil anos atrás. Ou seja, por muitos motivos diferentes não é possível que uma cidade tenha sido construída há 450 milhões de anos. Mas então como surgiram as estruturas lineares que chamaram atenção nas imagens? Novamente a ciência apresenta as respostas para isso. As estruturas lineares são na verdade resultados da evolução do relevo. No planeta terra temos diversos processos que modelam a superfície, entre eles processos da dinâmica interna relacionado a tectônica de placas e os processos da dinâmica externa, relacionados principalmente a atmosfera e hidrosfera. O leitor deve já ter visto muitas notícias sobre terremotos, pois bem, este fenômeno ocorre quando um bloco de rocha se desloca em relação a outro. Nestes processos são formadas estruturas lineares que na geologia chamamos de falhas. Quando as rochas são expostas na superfície do planeta devido a atuação dos processos erosivos, as estruturas lineares que se formaram durante a atuação dos processos geológicos que outra hora ali atuaram se destacam no relevo.O fato de fakenews como essa ganharem tamanha dimensão, é um claro indicativo dos problemas existentes no país relacionados ao ensino de ciências, assim como a sobre a falta de divulgação científica. Ensinar e divulgar ciência é uma forma de fazer com que os nossos jovens entendam os processos que atuam no planeta, que compreendam como ocorrem os fenômenos físicos e químicos, como ocorreu a evolução do planeta e da vida. Porém, para que isso ocorra não só as escolas precisam ser equipadas com laboratórios, como também precisa se realizar a capacitação de professores. Museus e universidade podem desempenhar um papel fundamental na difusão científica, porém os governos, federal, estadual e municipal precisam criar linhas de financiamento e programas que possibilitem que exposições, eventos e outros tipos de iniciativas possam chegar a estudantes dos quatro cantos do Brasil. Fortalecer a divulgação científica é fundamental para auxiliar na formação dos jovens. A ciência precisa ser priorizada e pensada como um instrumento de transformação social e como uma forma de garantir que se tenha subsídios para, desde saber ler e identificar uma fakenews ou até mesmo encontrar novas descobertas científicas e novas soluções para a sociedade.Caiubi Kuhn, Professor na Faculdade de Engenharia (UFMT), geólogo, especialista em Gestão Pública (UFMT), mestre em Geociências (UFMT).