A caminhada do médico e deputado estadual Lúdio Cabral para se credenciar como candidato da Federação PT-PV-PC do B vem cumprindo uma caminhada exemplar. Notadamente, em sua primeira fase, quando Lúdio e seus apoiadores conseguiram superar o golpismo engendrado pela ex-deputada Rosa Neide e seus apoiadores.Pode-se dizer que Lúdio Cabral, apesar de comandar um dos mandatos partidários que controlam o PT em Mato Grosso, cumpriu uma agenda exemplar até se firmar com a candidatura petista em Cuiabá. Lúdio poderia ter optado por uma articulação cupulista, conchavando com o diretório estadual e com a cúpula nacional para se firmar como a opção petista para a disputa da Prefeitura de Cuiabá. De uma forma bastante saudável, ele optou por garantir que o processo de escolha fosse conduzido pelo Diretório Municipal do PT de Cuiabá.O PT, nacionalmente, vive uma fase delicada, com suas instâncias sendo rifadas diante dos seus caciques, os parlamentares, os prefeitos, os governadores, o presidente Lula. Não se pode dizer, hoje, que o PT seja atualmente aquele partido “construido pela base”, com que se sonhou em priscas eras. Há um domínio dos caciques, dos capas pretas, de quem tem mandato, como se o mandato incorporasse, ao invés de esvaziar, a força das bases partidárias. Para mim, em grande medida, o PT conduzido por um condomínio de mandatos eleitorais é negação da ideia de um partido militante. Essa é uma longa discussão, discussão que, aliás, dificilmente é feita no âmbito do PT e da esquerda brasileira.O fato é que Lúdio Cabral, depois de se eleger duas vezes deputado estadual, com forte votação em Cuiabá, fez o teste das bases, e foi nas bases partidárias que ele enfrentou a candidatura de sua adversária, a professora Rosa Neide, cumprindo uma série de procedimentos ditados pelos estatutos partidários. Houve a consulta aos membros do Diretório Municipal de Cuiabá, aconteceram os debates, houve a consulta ao conjunto dos filiados na capital - e Lúdio Cabral superou por ampla margem os votos dados a Rosa Neide.Para surpresa de muitos, Rosa Neide não aceitou essa derrota nas bases petistas e partiu para um esperneio de última hora, dizendo que a candidatura do PT em Cuiabá seria definida não aqui, pelos petistas cuiabanos, mas lá em Brasília, pelo Diretório Nacional do PT, que levaria em conta o caso cuiabano em meio a todas as negociações que o Partido conduz pelo Brasil afora, visando um bom desempenho nas urnas nessas eleições municipais de 2024.Ora, as lideranças nacionais acabaram por entender que não havia como atropelar um processo de escolha feito pelas bases, em Cuiabá, e com cuidadoso respeito aos procedimentos ditados, ao longos das mais diversas disputas eleitorais, pelo próprio PT. A trama golpista de Rosa Neide acabou detonada. A candidatura basista de Lúdio Cabral se impôs. Ora, por estarmos diante de uma candidatura a prefeito com uma componente basista tão importante, renovadora, não pode deixar de surpreender e se estranhar que, de repente, a candidatura de vice-prefeito ou vice-prefeita na chapa de Lúdio Cabral possa surgir como resultado de uma articulação cupulista tão evidente como se vê agora, no caso da recém apresentada candidatura da médica e empresária Natasha Slhessarenko, pelo PSD.Vejam só que jogada complicada, os pacientes que me acompanhem: Natasha estava filiada ao PSB (Partido Socialista Brasileiro), um aliado histórico do PT, apesar de não fazer parte da Federação. Por uma decisão imperial do senador Carlos Fávaro, atual ministro da Agricultura de Lula e cacique do PSD em Mato Grosso, Natasha, pelo que conta o noticiário, teve sua filiação transferida do PSB para o PSD para ser então apresentada como provável candidata a vice na chapa de Lúdio em Cuiabá. Ninguém dentro do PSB foi previamente consultado sobre este arranjo imperial e até o deputado estadual Max Russi, pretensamente líder máximo da legenda socialista, apareceu como marido corneado no noticiário, garantindo que fora o último a saber. Por que não forjar a aliança com Natasha no PSB? Por que a vice tem que vir com uma gargantilha do partido do Fávaro?Uma manobra cupulista que acontece no momento em que Lúdio Cabral, candidato do PT, desenvolve tratativas com políticos do PV e do PC do B, que compõem a Federação petista, visando se credenciar como candidato desses três partidos. Carlos Fávaro e Natasha Slhessarenko agem como se PV e PC do B não tivessem nenhuma importância no processo - e Lúdio e o PT de Cuiabá tivessem que se submeter ao PSD só porque esse é o partido do cacique Fávaro que o presidente Lula - deus ex machina do PT - escolheu para ser seu negociador junto aos Barões do Agronegócio em Mato Grosso. Ou seja, longe de ser um candidata basista, a médica e empresária Natasha Slhessarenko surge com o seu nome querendo ser imposto pelo grupamento político do Agro ao candidato Lúdio Cabral, um político cuja atuação na Assembleia Legislativa de Mato Grosso tem sido caracterizada por um forte e eficiente enfrentamento do Agronegócio e sua deletéria hegemonia política sobre a economia e sobre toda a sociedade de Mato Grosso.São facetas que cuido em considerar quando vejo , mais uma vez, o nome da médica e empresária Natasha Slhessarenho surgir no jogo político de Mato Grosso, dentro do mesmo padrão cupulista, enfiado pela garganta abaixo. Parece que esta senhora não aprende a se desenvolver politicamente através de caminhos mais meritórios.Um olhar sobre o que foi a disputa eleitoral de 2022, em Mato Grosso, nos mostra que foram muito sinuosos os caminhos que a médica e empresária Natasha Slhessarenko percorreu para tentar impor seu nome entre a alta cúpula dos partidos, na disputa pelo Senado Federal. Sim, ela me parece sempre preocupada em pontificar nas cúpulas, nas altas esferas, e talvez seja por isso que negocia agora com Fávaro e com os barões do Agro que atuam por trás de Fávaro, que são Eraí e Blairo Maggi. A médica e empresária Natasha Slhessarenko pode ter um currículo profissional exemplar, pode ser boa filha da respeitada professora Serys, pode ser boa irmã do notável advogado Alexandre Slhessarenko, pode ser boa mãe da notável jovem cientista política Marina Slhessarenko, mas seus métodos políticos me parecem simplesmente detestáveis. Ela parece buscar o poder pelo poder, sempre tentando evitar assumir opções ideológicas e, nas eleições de 2022 chegou a cogitar virar candidata do PT em Mato Grosso mas com um acesso inusitado ao palanque do então candidato à reeleição, o governador Mauro Mendes. Um pezinho cá, outro pezinho lá, o que provocou forte reação do deputado Valdir Barranco. Preterida como candidata do PSB, e cogitando então se lançar como candidata avulsa ao Senado, a médica e empresária Natasha Slhessarenko foi indagada pela repórter Jenifer Gularte se poderia vir a apoiar o inominável Bolsonaro naquela eleição. Está lá em O Globo a resposta enviesada da médica e empresária: “(Natasha) disse que preferia não responder, mas não descartou a possibilidade:— Como médica, entendo que houve equívocos na condução da pandemia, mas teve acertos, como fortalecimento da atenção primária e das equipes médicas de atenção. Nada na política dá para fechar, dizer que não.” CONFIRAM AQUI: https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2022/noticia/2022/08/candidata-do-psb-no-mt-e-preterida-por-lula-em-nome-de-alianca-com-deputado-ruralista.ghtmlQuer dizer, para tentar avançar em uma carreira política, até o Bolsonaro ela abraçaria - e ela falava isso mesmo tendo diante de si a multidão de cadáveres da pandemia. Vai daí que a médica e empresária Natasha Slhessarenko me parece não ter limites nas soluções que adota no seu receituário político partidário. Para lembrar aquele filme alemão que disputou o Oscar, podemos dizer que ela vive na sua zona de interesse. Ela tem muito o que se aperfeiçoar em sua postura para merecer nosso crédito.Por isso, a minha avaliação de que Natasha Slhessarenko pode complicar a atual campanha de Lúdio Cabral, dada a possibilidade de ser adotada como candidata a vice-prefeita indicada pelo PSD, atropelando as opções do PV, PC do B e demais legendas.O candidato Lúdio Cabral certamente enfrenta neste quesito e neste momento um desafio decisivo. A opção por uma vice mulher, se for feita, precisa nos apresentar uma mulher que seja de fato lutadora e organizadora da luta dos de baixo. Lúdio também precisa estabelecer um diálogo de alto nível com o PV e com o PC do B, antes de se aventurar pelas águas tortuosas de uma frente ampla naquele modelo que Lula adotou em sua campanha pra a presidência e tem apresentado vazamentos por todos os lados.Não queremos, amanhã ou depois, ver Lúdio Cabral botando o galho dentro e vacilando diante da necessidade de avançar com uma opção, a partir de Cuiabá, com relação ao Agro predador, como, nessa virada de março para abril, temos visto o velho metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva vacilar diante da importância de expôr, mais uma vez, os crimes cometidos pela ditadura militar no Brasil e diante da importância de finalmente garantir Justiça para os familiares de mortos e desaparecidos naquele período sombrio.Será que o engenheiro civil e ex- deputado federal Rubens Paiva (1929-1971), barbaramente assassinado pelos militares, cuja coragem cívica foi destacada por Ulisses Guimarães na promulgação da Constituição Cidadã, nunca terá seu corpo resgatado para honra de seus familiares e para que tenha direito a uma sepultura digna?! ENOCK CAVALCANTI, 70, é jornalista e editor do blogue PAGINA DO E/ PAGINA DO ENOCK, editado a partir de Cuiabá, MT, desde oo ano de 2009.Lúdio e Natasha