ENOCK CAVALCANTI: Felippe Corrêa vai pro PL pra combater gays e lésbicas, o comunismo e o Estado laico

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Felippe Corrêa não é mais da esquerda libertáriaPor Enock CavalcantiLembro que o jovem Felippe Corrêa, pilotando o partido Rede Sustentabilidade, surgiu como uma bem-vinda novidade quando esse partido de esquerda, de viés ambientalista, pilotado nacionalmente pela estóica Marina Silva, se projetava em Cuiabá e Mato Grosso e lançava o nome do historiador Renato Santana para a disputa da Prefeitura. Se múmias históricas da política como Júlio Campos e Carlos Bezerra ainda transitavam pelas urnas, novas cabeças despontavam na política e se falava em renovação de baixo para cima.O filho do jornalista Américo Corrêa surgia naquele época atuando como uma das lideranças a impulsionar - neste Mato Grosso tão conservador, tão ruralista, tão machista, tão Geraldo Riva, tão Silval Barbosa -, uma corrente política partidária que prometia mergulhar até à raiz dos problemas e inovar nos costumes e também nas práticas partidárias, incorporando a sustentabilidade ao discurso de mudança até então proposto pela esquerda brasileira. Imagino que, inicialmente, a expectativa de Marina Silva e seus companheiros de fundação era fazer da Rede um partido sem “caciques”, longe da hierarquização clássica e que tomasse suas decisões de forma conjunta, por meio do que chamaram de “consenso progressivo” . Como no PT, nas águas do velho PCB, se preservava ainda o Centralismo Democrático pregado por Lenin, o Rede pretendia horizontalizar a política, dentro de parâmetros que faziam pensar numa leitura tropicalizada dos dissensos à esquerda alinhavados por pensadores como Michael Lowy para quem a ruptura com as ideologias do progresso e com o paradigma civilizatório capitalista moderno seria uma condição indispensável para a atualização do discurso pretensamente revolucionário da esquerda pelo mundo afora.Américo Corrêa, figura emblemática na assessoria de imprensa dos tribunais de nossa capital, marcada por um formalismo e burocratismo excessivo, tinha, então, como aparente sucessor, um filho primogênito que parecia querer incorporar novos ventos, novos costumes às práticais usuais do pensamento político mato-grossense, se dispondo a quebrar os protocolos da política manipuladora, onde se via encarquilhados caciques, ainda que barbudinhos e militando à esquerda, a darem cartas previamente marcadas.Felippe Corrêa surgiu também propondo inovação na distribuição da informação (que também é poder), através do uso criativo das redes sociais, capaz de oferecer ao público mato-grossense uma visão de mundo que não se podia encontrar na mídia corporativa, sempre presa, nesta periferia do Brasil, e de resto em todas as periferias do Brasil, ao controle dos aparelhos ideológicos do Estado e prostituida pelo interesse argentário de muitos de seus dirigentes e editores. Só que parece que não foi muito longe esse Fellipe Corrêa, que se pretendia “navegador dos sete mares”, com suas teses libertárias e/ou liberticidas. Depois de uma primeira disputa eleitoral, insatisfeito com o pretenso tacão que o dirigente Eron Cabral teria imposto à Rede em nosso Estado, Felipe e um grupo expressivo de filiados acabaram por abandonar o partido, reclamando de um caciquismo que eles entraram na política falando em combater. Lembro de ter ouvido, do advogado e historiador Sebastião Carlos, o mesmo esperneio – e o Rede Sustentabilidade definhou e nunca mais pesou no jogo partidário. A organização desse partido pretensamente forjado no campo da esquerda libertária, acabou se diluindo em Mato Grosso sob o peso de uma centralização nada sutil e ainda a reclamar pela devida decodificação.Solto no vento, Felipe Corrêa aproximou-se, então, de outro jovem político pretensamente inovador, o empresário Felipe Wellaton, que também se reivindicava como um jovem detonador de mitos na política de Mato Grosso. Palavras, palavras, palavras. Nós os vimos juntos lançar o projeto Protagonize, que trouxe para Cuiabá a ideia de uma renovação da política, apoiada no exemplo de outros lutadores do Brasil, como a jornalista e vereadora Soninha Francine, do Cidadania de Sampa, e o cicloativista, filósofo e professor de ioga Jorge Gomes de Oliveira Brand, mais conhecido como Goura Nataraj, que foi vereador em Curitiba e, atualmente, exerce mandato de deputado estadual pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) na Assembleia do Paraná. Fellipe Corrêa parecia preservar ainda uma dose de utopia em sua atividade política, não se afastando totalmente da matriz da esquerda.Quem viu e participou daquelas tardes de reflexão nos salões da Fecomércio ficou com a impressão de que uma política inovadora pudesse vir a se implantar realmente neste Mato Grosso, com o compromisso de contrapor-se aos políticos carreiristas de plantão e abrir espaço a novos sonhadores que Wellaton e Felipe iam juntando, já com o compromisso de se candidatarem dentro das perspectivas lançadas no Brasil por projetos como o Renova Br, uma iniciativa (think tank) de renovação política idealizada pelo empreendedor e investidor Eduardo Mufarej. ( Como se pudesse surgir dos núcleos do capitalismo uma proposta de efetiva renovação da política.Vejam que o Partido Novo acabou no Irajá...) Mas qual! O tempo passa, o tempo voa e eis que agora é Felippe Corrêa, neste inicio do outuno de 2024, que vira as costas para as teses pretensamente libertárias que andara namorando, e abraça a política mais tradicional e conservadora, anunciando a sua desfiliação do Cidadania (genérico do Partidão, o velho Partido Comunista Brasileiro) e a sua filiação ao PL – Partido Liberal, comandado pelo inelegível e inominável ex-presidente Jair Bolsonaro, e pela pretensa pastora evangélica e esposa do capetão, a ex-primeira dama do Brasil, Michele Bolsonaro.Felipe Corrêa, que despontara como um jovem principe da nova política libertária em Cuiabá e Mato Grosso parece que virou um sapo. Um sapo barbudo mas bolsonarista. Quem haverá de explicar esta transformação tão radical do discurso desse jovem político que, certamente, assume agora política tão contraditória com tudo aquilo que continuam defendendo a Soninha e o Goura Nataraj, e até mesmo os formandos do Renova BR ?! Haverá explicação ou esse é mais um processo a traduzir a marcha contínua da entropia?Durante sua adesão ao PL, Felippe Corrêa fez questão de distribuir releases em que aparece vestido com a camisa das Diretas Já, dizendo-se admirador do líder político que foi Dante de Oliveira em Mato Grosso, talvez para mostrar que sua salada política tem cores muito variadas. Bem, como alguns sabem, o engenheiro Dante, pretenso guerrilheiro nos tempos da juventude - quando se incorporou ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro, se tornando correligionário do médico argentino Ernesto Che Guevara -, também acabou dando forte guinada à direita, quando avançou e se fortaleceu com seu grupo político, assumindo o Governo de Mato Grosso e promovendo o desmonte do Estado, no interesse dos capitalistas interessados em investir nessa nova Califórnia que surgira no Centro Oeste do Brasil. Mas, diga-se em favor de Dante, que o seu transformismo não foi nada tão ideologicamente porralouca, como aquilo que faz agora o Felipe Corrêa, sem lenço e sem documento, dizendo que seu leit motiv não tem nenhum fundo ideológico mas é pura e simplesmente resultado da amizade pessoal que construiu com Abilio Brunini. Quer dizer, coisa de homens, coisa do Clube do Bolinha, que está aí mesmo para reforçar o machismo em nossa política cotidiana. Como se já não tivéssemos machismo demais da conta. Felipe que, no Rede, militava ao lado da combativa advogada Wellen Cândido Lopes e do utópico engenheiro Archimedes Pereira Lima Neto, e no Cidadadia, formava ala com a feminista Maysa Leão, agora desfilará pela cidade abraçado com Gilberto Cattani, o bolsonarista das teses bovinas. Diga-me com quem andas, com quem fazes política ... Se a proposta do Fellipe, nos tempos do Rede Sustentabilidade, era abrir espaço para ventos inovadores pretensamentos trazidos pela esquerda da Geração Z, agora parece que tudo retrocede à Idade Média, e Felippe Corrêa vai se juntar ao evangélico e algo patético Abilio Brunini, herdeiro dos mais tradicionalistas pastores da Igreja Assembleia de Deus no Estado, para defender um programa que nos remeterá não aos principios pretensamente budistas esposados por Soninha e Goura mas aos Dez Mandamentos do Velhíssimo Testamento das origens do Cristianismo. Felippe Corrêa, vejam só, agora deve ser defensor da Familia tradicional, da Fé Evangélica, e da Propriedade, claro, controlada pelos padrões estabelecidos pela meritocracia capitalista.A pauta dos costumes que um partido como o PL apresenta me parece assustadora, mas os bolsonaristas não disfarçam suas intenções. Eles acreditam naquelas coisas, como se ainda estivéssemos nos tempos dos profetas. A esposa tem que obedecer fielmente a seu marido. Casamento só é aceitável ser for para unir um homem e uma mulher. Homem que se deita com homem, e mulher que faz sexo com mulher são seres abomináveis perante o que ficou estabelecido naqueles tempos em que Moisés vagava com o povo judeu em busca de Canaã - e os apetites sexuais tinham que ser controlados a ferro e fogo. Abomináveis são também, segundo a velha doutrina, aqueles garotos e garotas que não dominam a fome de seus corpos, usando e abusado de substâncias pretensamente alucinógenas como a maconha, cantada e decantada por artistas hereges como Bob Marley e Bezerra da Silva. Pior ainda é pensar em políticos que queiram atrair nosso povo para as teses igualitárias dos comunistas que, pretendendo abolir a dominação econômica do homem pelo homem, acabam questionando a própria existência do Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.Não acredito que prospere tanto assim esta pauta, em uma cidade como Cuiabá, onde gays e lésbicas finalmente estão superando os preconceitos mais castradores e afirmando as suas verdades, mas os bolsonaristas apostam no protagonismo dos seus bolsões mais reacionários para expandir por aqui sua dominação e chegarem ao controle da Prefeitura. Abilio Brunini, pelo que vejo, é candidato a Prefeito para transformar a Prefeitura de Cuiabá em uma espécie de centro permanente de combate às praticantes de abortos, àqueles endemoniados que não acreditam em Deus, a todos os pecadores que se entregam descontroladamente aos prazeres da carne, e praticam o sexo não para fazerem crescer e se multiplicar o número dos fiéis tementes ao Senhor Jeová, mas apenas para satisfazerem seus apetites bestiais, gozando a partir do uso criativo de seus pênis e vaginas e das multiplas zonas erógenas de seus corpos. Aquelas danações todas que Bolsonaro praticou lá no Planalto importadas para o Alencastro. Imaginem aonde a gente vai parar... Sim, muitas das teses que marcaram a Santa Inquisição Católica, na Idade Média, devem ressurgir agora, pela boca de Abilio Brunini e do seu novo e fiel escudeiro, Felipe Corrêa. Parece que não priorizam enfrentar e resolver situações com o caos na Saúde, o impasse entre BRT ou VLT, os malefícios das mudanças climáticas, a falta de vagas nas creches e nas escolas para os filhos dos vulneráveis, ou o transtornos causados por buracos nas ruas e avenidas. O que se prevê é que o PL está chegando para restabelecer a Moral e os Bons Costumes na gestão da Prefeitura de Cuiabá. Felippe Corrêa, imagino eu, agora vai combater gays e lésbicas, o uso das drogas, o comunismo e o Estado laico. Jesus Cristo deve despontar como a única esperança para essa capital de Estado aparentemente corrompida pelo pecado - é o que devem nos dizer aqueles que acreditam que o bolsonarismo veio para nos purificar. Quem não aderir será certamente excomungado, porque o Evangelho de Jesus, para essa gente, deve se impor como o único programa que nos pode salvar e garantir uma vida melhor.Eu, que acredito que o bolsonarismo representa, na verdade, um retrocesso, uma degradação dos costumes, lastimo essa mudança tão drástica na postura do Felippe Corrêa, que despontava, no início de sua carreira, como um “garoto de ouro”. Estranhos caminhos conduziram este jovem político até o vermos agora prostado, ajoelhado, diante de Bolsonaro e seus bolsonaristas amestrados. Com Bolsonaro preso, provavelmente, nos próximos dias, talvez tenhamos que aguentar, durante a campanha eleitoral, uma ladainha sobre um mártir escolhido por Deus mas que o ministro Alexandre de Moraes tenta pregar na cruz.A campanha eleitoral em Cuiabá, por tudo isso, deve nos oferecer cenas constrangedoras. Com Abilio Brunini, Felipe Corrêa e o PL, o que temo é que Cuiabá pode passar a ter um enorme e constrangedor passado pela frente.
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Enock Cavalcanti, 70, jornalista, é editor do blogue PAGINA DO E/ PAGINA DO ENOCK, editado a partir de Cuiabá, Mato Grosso, desde o ano de 2009. P.S. - Falei acima de Felipe Wellaton como jovem político pretensamente inovador. Outra decepção. Seu protagonismo renovador implodiu inteiramente. Para manter a cabeça fora da água, desistindo de suas antigas pretensões e pregações, Wellaton acabou se entregando ao grupo político do "Bicudinho de Goiás", que é como o deputado estadual Júlio Campos vez por outra se refere ao governador Mauro Mendes (UB). Pensar que submeter-se a MM possa ser um padrão de renovação da política em Mato Grosso, diz muito sobre o naufrágio político de Wellaton.

Felipe Corrêa: virando à direita, como Dante virou