EDUARDO GOMES: De modo geral, em Mato Grosso, há uma ridícula idolatria a Bolsonaro e Lula nas redes sociais por figuras cordeiras e silenciosas com o esgoto na vida pública que suja seus pés, suas canelas, seus umbigos, seu respirar, sua alma no Estado o

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De raposa com a chave do galinheiro
POR EDUARDO GOMES

Dengue se combate a partir do quintal. Por analogia, a política também exige assepsia doméstica.

Em Mato Grosso, considerável parcela dos internautas que navega por grupos de WhatsApp e Facebook apoia o presidente Jair Bolsonaro e o defende ardorosamente; nesse afã, além do carinho demonstrado pelo governante, não economiza ataques, inclusive no campo pessoal, aos que democraticamente divergem de Bolsonaro; outra parte endeusa o ex-presidente Lula.

Mesmo sem questionar o bolsonarismo e o lulismo, e se abstendo de lamentar a postura agressiva que os caracteriza, é preciso observar que a valentia no plano político nacional não se reproduz na esfera regional, onde a marca dessas bandeiras é o silêncio cúmplice, covarde e que resulta na dualidade da pureza no teto e do fétido no alicerce.

No sábado, 15, uma inegável grande manifestação de apoio a Bolsonaro aconteceu em Brasília, com a participação de mais de duas centenas de mato-grossenses e de milhares de outros estados e locais.

Nos vídeos se via, dentre outros refrães o: Lula ladrão! A disposição dos mato-grossenses que foram a Brasília gritar em defesa de Bolsonaro merece respeito e o devido reconhecimento. Essa é a verdadeira prática democrática.

De igual modo, é digno de aplauso o coro entoado na caapital federal e que bem traduz o ex-presidente petista: ladrão.

Que o bolsonarismo e o lulismo se mantenham firmes, coesos e que democraticamente lutem por seus ideais.

Os governistas de direita, pela reeleição do presidente ao qual esse grupo chama de Mito; os oposicionistas, nem todos de esquerda, por Lula.

Mas é preciso observar que as eleições de 2022 vão além da definição da Presidência.

Na data da votação para presidente o eleitor também escolherá deputado estadual, governador, vice-governador, deputado federal e um senador.

Em assim sendo, cabe a pergunta: os mato-grossenses seguidores do Mito e de Lula manterão a postura que os caracteriza ou sairão da dualidade cobrando regionalmente as respostas que nacionalmente buscam em seus líderes?

Toda manifestação política tem que ser respeitada, porém, sem prejuízo ao seu questionamento e ao contraditório.

Com as devidas exceções, de modo geral, em Mato Grosso, há uma ridícula idolatria a Bolsonaro e Lula nas redes sociais por figuras cordeiras e silenciosas com o esgoto na vida pública que suja seus pés, suas canelas, seus umbigos, seu respirar, sua alma no estado onde moram.

Pobres adeptos do barulho papagaiesco na esfera nacional e incapazes de apontar o dedo sobre o corrupto ao seu lado.

Com as devidas exceções, de modo geral, em Mato Grosso, há uma ridícula idolatria a Bolsonaro e Lula nas redes sociais por figuras cordeiras e silenciosas com o esgoto na vida pública que suja seus pés, suas canelas, seus umbigos, seu respirar, sua alma no estado onde moram.

Sem entrar no mérito do juízo de valor que bolsonaristas e lulistas fazem uns dos outros, mas para que ambos tenham legitimidade política seria preciso que exercessem militância política em sua terra, onde a insistência das postagens seria importante ferramenta de pressão social pela moralização da classe política, ora tão enlameada.

Infelizmente, nenhum deles tem esse entendimento.

Todos os que coabitam nas redes sociais teimam no discurso de abrangência nacional, como se eles, figuras de um estado periférico politicamente pelo quantitativo de seu eleitorado, tivessem força para mudar o Brasil.

Que os bolsonaristas gritem nacionalmente e os lulistas, também.

Fico com Mato Grosso onde o silêncio impera por falta da valentia que nacionalmente é manifestada nas redes sociais.

Fico com a terra dos meus filhos Agenor e Eduardinho, onde o governo federal não marca presença administrativa como o princípio federativo impõe e a realidade exige.

Democracia é o regime do respeito ao oposto.

Que as figuras mato-grossenses que coabitam nas redes sociais levem adiante seus discursos no plano nacional, que continuem indiferente ao que acontece em Mato Grosso.

A história nos mostra que nela há lugar para todos.

Que continuem discursando, xingando, endeusando, fazendo política na contramão territorial.

Não compactuo com o silêncio dos bolsonaristas nas redes sociais quando se trata de investigação tendo por alvos filhos do presidente, por suposta rachadinha ou envolvimento com milícias.

Não compactuo com a defesa do ciclo da corrupção puxada pelo PT e MDB nos governos Lula, Dilma e Temer, com a participação de figuras do PSD, PSB, PDT, PCdoB, DEM, PP, PL e tantas outras siglas, inclusive em algumas delas tendo participação de mato-grossenses.

Que o amanhã seja tempo de penitência por essa postura em relação a Mato Grosso, terra que exporta os valentes, que aqui, com seu silêncio, entregam pra raposa a chave do galinheiro.

EDUARDO GOMES DE ANDRADE é jornalista em Cuiabá, editor do Blog do Eduardo Gomes
eduardogomes.ega@gmail.com