O Coração que Ainda Pulsa
POR BRUNA TOMAZ
O centro histórico de Cuiabá é como um velho coração de pedra-canga e ouro, batendo teimoso sob as camadas do tempo. Ali, onde tudo começou em 1721, quando a descoberta do ouro abriu as primeiras ruas... Baixo, Meio e Cima — ainda ecoam os passos daqueles que fundaram a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Cada esquina carrega uma memória, cada fachada guarda um século inteiro de histórias que insistem em não se apagar.
É um lugar onde a arquitetura colonial, que chegou tímida com as mãos de barro e pau-a-pique, foi ganhando outras peles ao longo dos anos: neoclássica, eclética, moderna. Peles que se sobrepõem, esfarelam, resistem. O centro não é apenas um conjunto tombado pelo Iphan. É o espelho mais fiel do que fomos — e do que ainda podemos ser.
Nele, ergue-se a antiga Catedral, que um dia nasceu simples, em 1722, e marcou o início da urbanização. A Igreja do Rosário e São Benedito, com sua fachada colonial e seus altares barroco-rococó, guarda a fé de um povo que sobreviveu aos séculos. A Igreja do Senhor dos Passos, tímida e silenciosa, carrega lendas, dores e esperanças. E ao redor dessas memórias sagradas, brotam outras: o Palácio da Instrução, o Memorial da Água, o Arsenal da Guerra, o Museu do Rio, o MISC, a Casa Dom Aquino, o Museu Rondon… Cada prédio é um capítulo vivo, um livro aberto ao sol quente cuiabano.
Por essas ruas passaram governadores, garimpeiros, militares, navegadores, artistas. Até Getúlio Vargas dormiu aqui, entre 1941 e os anos áureos do Grande Hotel — quando a Avenida Getúlio Vargas era não só o centro político, mas o centro do glamour, dos bailes, dos encontros.
E foi ali, também, que o teatro se instalou para nunca mais sair. Desde as primeiras iniciativas do final do século XIX até a inauguração do Cine Teatro Cuiabá em 1942 — monumentos art déco que virou templo da cultura mato-grossense — a arte sempre encontrou no centro um lar. Mesmo quando tudo parecia ruir, o teatro permaneceu como se dissesse: o centro ainda respira, ainda tem vida, ainda tem palco.
Mas a verdade é que o centro vive entre contrastes. Enquanto alguns prédios renascem das ruínas, outros tombam — não pelo IPHAN, mas pelo abandono. A cada esquina, uma história esquecida; a cada fachada trincada, uma súplica silenciosa. A modernização que chegou ao Estado Novo e no pós-Brasília trouxe progresso, mas também apagamentos. O que antes era orgulho virou, em partes, vazio.
E, mesmo assim, existe um pulsar que não se cala. É o pulsar dos jovens que ocupam a Praça da Mandioca, das artes que teimam em florescer em espaços adormecidos, dos coletivos que organizam passeios noturnos para reacender a vida, dos artistas que transformam calçadas em palcos improvisados. É o pulsar da literatura — como nas páginas de Motosblim: a incrível enfermaria de bicicletas, que devolve cor e fantasia às ruas de Cuiabá — e o pulsar da música, da dança, do teatro, do movimento.
O centro histórico de Cuiabá não é um museu morto. Ele é um corpo vivo. Machucado, mas vivo. E como todo corpo vivo, precisa ser visto cuidado, considerado. Porque, enquanto houver uma criança correndo pela Praça Alencastro, um artista ensaiando no Cine Teatro, um fotógrafo captando a luz de fim de tarde na Rua Ricardo Franco, um morador cruzando a região que chama de lar — o centro seguirá existindo.
E enquanto existir seguirá pedindo: olhem para mim. Olhem para mim com o respeito da história, com a urgência da cultura, com o carinho de quem reconhece que uma cidade sem memória é uma cidade sem alma.
O centro histórico é a alma de Cuiabá. E nenhuma alma merece ser esquecida.
Bruna Tomaz, 38 anos, é Assessora Pedagógica na MT Escola de Teatro da UNEMAT e cursa Licenciatura em Literatura na UFMT,
Email: brunatomaz400@gmail.com
