SEBASTIÃO CARLOS: Estamos num Estado realmente rico e no qual, por conseguinte,  vivem algumas das pessoas mais ricas do Brasil. Então, por que tanta gente passando fome? Então por que, no Estado  dono do maior rebanho bovino do Brasil e um dos maiores do

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A FILA DO OSSO Sebastião Carlos Dizer que uma imagem vale mais que mil palavras só reforça o dito chinês  que a séculos vem sendo repetido. É claro que algumas imagens são mais  impactantes que outras e, em assim sendo, se fixam por mais tempo em nossa  memória. E, quase sempre, nos levam a uma reflexão mais aprofundada sobre o  fato mostrado. Mato Grosso acaba de contribuir para isso. Numa imagem que  correu o Brasil, vemos filas de pessoas, aglomeradas em plena pandemia,  sôfregas, com olhar em que a angustia é partilhada com mal disfarçada alegria. Pessoas simples, a maioria de chinelos de borracha e de vestimentas  modestas, fazem fila para conseguir um pedaço de osso. Alguém distraído e  menos atento à realidade poderia supor que os ossos iriam para os cães,  tradicionais consumidores dessas peças. Mas, não. Sim, o osso doado pela  caridade da proprietária de um açougue, era o alimento tão esperado por  desnutridas crianças. Os fiapos de carne grudados aos ossos era prêmio dos mais  aguardados.  Tal situação de pessoas famintas, desesperançadas, vivendo abaixo da  linha da pobreza, com um nível mínimo de proteínas e ferro, nutrientes estes  fundamentais na infância e na gravidez, constituem um escândalo. São infra  homens que estão sendo gerados para o futuro. Sim, penso sobretudo nas  crianças. “Futuro do Brasil”? Então puxo pela memória um dos poemas mais  soturnos que já li. O grande, e tão pouco lido, Manuel Bandeira escrevia há  algumas décadas: Vi ontem um bicho. Na imundície do pátio Catando comida entre os detritosQuando achava alguma coisa Não examinava, nem cheirava Engolia com voracidade.  O bicho não era um cão Não era um gato,Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. Afinal as filas imensas, famintas e ansiosas, fotografadas e televisionadas  eram a de um país devastado por uma guerra ou vítima de uma catástrofe  provocada pela força da natureza? Não, meu caro leitor. O cenário cuiabano, que  se mostrou ao Brasil, ao contrário, acontece em uma das regiões mais prósperas do país e, até o momento, imune a terremotos e a tornados. Pelo menos, não  desses provocados pelos elementos naturais. Então, senhoras, vamos à afirmação  dessa riqueza. Está em sites do governo e outros oficiais: o último dado disponível  pelo IBGE (2018), através da Pesquisa da Pecuária Municipal – PPM, registra que  MT possuía perto de 30 milhões de bovinos, o que representava nada menos que  13,8% do total nacional e, só para mostrar o crescimento, no ano seguinte esse  número chegava a 32 milhões de cabeças. Não é pouco. Conforme dados  divulgados pelo INDEA e pelo Instituto Mato-Grossense de Economia  Agropecuária – IMEA o ritmo anual dessa expansão vem sendo em média de 2,13%. Já algum tempo MT é dono do maior rebanho brasileiro. Mas, para não  ficarmos apenas na proteína animal, vejamos o caso das commodities agrícolas,  na qual se destaca a produção de soja, para citar um único exemplo. Segundo o  mesmo IMEA [março/21] a safra prevista para 2020/2021 alcançará perto de 36  milhões de toneladas, representando um crescimento recorde de 0,94%. Neste  item, mais uma vez MT está em primeiro no pódio. Em resumo, o PIB, ou seja a  soma de todas as riquezas produzidas no Estado, registra um crescimento  fenomenal de 41%, [entre os anos de 2010 e 2022], liderando a economia  nacional, para a qual contribui de modo significativo. Então, não há porque não  afirmar que estamos num Estado realmente rico e no qual, por conseguinte,  vivem algumas das pessoas mais ricas do Brasil.  Eis aqui a questão: então, porque tanta gente passando fome? Por que  favelas já estão aparecendo em cidades do interior, sem falar nas já existentes na  capital? Por que a violência pública grassa como praga? Então por que, no Estado  dono do maior rebanho bovino do Brasil e um dos maiores do mundo, a fila do  osso? Por que milhares de mães justificadamente dão graças a Deus por  receberem um pedaço de osso para tentar apaziguar a fome de seus pequenos? O que está faltando na mesa posta em um Estado tão rico? Vivi parte de minha juventude nos tumultuados e por vezes sombrios anos  sessenta e setenta. Entre as leituras que nos marcaram, a mim e a muitos jovens,  estavam dois textos ainda hoje vivos. Um deles, o da grande brasileiro Josué de  Castro (1908 - 1974). Em 1964, cassado, perseguido, proibido de lecionar, exilado,  foi dar aula em respeitadas Universidades europeias, Sorbonne, Genebra. Anos  antes havia publicado uma obra revolucionária e que marcaria gerações:  “Geografia da Fome”. Nela o médico e sociólogo desmascarava o mito de que o  fenômeno da fome era devido a influencias climáticas ou que era culpa da  improdutividade da população que, em grande parte, optava pelo ócio.  Argumento que, de certo modo, persiste ainda. “Interesses e preconceitos de  ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização  ocidental tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco  aconselhável de ser abordado- escreveu emblematicamente. O outro texto  marcante foi o do Papa João XXIII (1881 - 1963). A Encíclica Pacem in Terris [Paz na Terra], divulgada dois meses antes de sua morte, propugnava por uma  nova e dinâmica linha para a Doutrina Social [o aggiornamento] compatível com  os tempos modernos da Igreja, mas que era também dirigida para todos os  “homens de boa vontade”. Um pensamento doutrinário que estabelecia como  base estruturante a Verdade como fundamento, a Justiça como norma, a  Caridade como motor e a Liberdade como clima.  Textos estes, meio século depois, atualíssimos. E para mim, mais atuais ainda quando, diante da fila do osso, toma-se conhecimento de mais uma  contribuição de Mato Grosso. Uma inusitada notícia, divulgada até em jornais do  exterior, causou estupefação a alguns. Não era uma notícia qualquer. Num  momento de tantas dificuldades econômicas para a imensa maioria da população,  num momento em que os brasileiros se debatem numa crise social e psicológica de inesperadas proporções resultante de uma pandemia que diariamente ceifa  vidas valiosas e destroem famílias, uma pequena nota, que logo seria reproduzida  pelos sites, jornais impressos e pela televisão, teria o impacto de abalar os mais  ingênuos. É que, no dia 19 de fevereiro, o Sport Club Internacional, de Porto  Alegre, popularmente chamado de “Colorado”, postava em seu site “que recebeu  nesta sexta-feira, a doação de R$ 1 milhão de Elusmar Maggi Scheffer. O torcedor colorado, morador de Cuiabá-MT, assinou o termo que repassa o valor  ao Clube sem qualquer tipo de contrapartida.”. E, efusivamente, complementava: Registramos o nosso mais sincero agradecimento diante de  atitude tão genuína, que demonstra o quanto o torcedor colorado é apaixonado  e não mede esforços para contribuir com o clube do seu coração!Essa bagatela era destinada a que o time gaúcho pagasse multa que permitisse a um jogador  entrar em campo para enfrentar o carioca Flamengo. Um milhão de reais por  noventa minutos, quer dizer, o cabalístico número de R$ 11.111,11 por minuto de  jogo, que, como se sabe, acabou sendo muito mais já que o referido jogador não  atuou todo o tempo regulamentar. “Generosidade”, sem dúvida, digna de entrar  para o Guinness Book.  Para mim, não obstante, foi sobretudo oportunidade para algumas  reflexões. E, de quebra, trouxe-me à memória o período áureo do ciclo da  borracha na Amazônia, entre os anos de 1879 e 1912, época em que corria tanto  dinheiro que Manaus era conhecida como a “Paris dos Trópicos” e em que os  magnatas, nos bordeis que frequentavam, acendiam charutos importados com  notas de mil reis e os mais ricos até com notas de libras esterlinas. O  esbanjamento, porém, não duraria para sempre. Os ventos da economia mundial  soprariam em outras direções e a época do fausto e do luxo desmoronaria.  E agora, para encerrar, trago novamente o grande Josué de Castro que  gravou uma frase que tem o poder profético e que, diante de todos esses fatos deve, no mínimo, nos provocar, espero, uma reflexão: “Existem dois terços de  pessoas que não dormem porque sentem fome, e um terço de pessoas que não  dormem por medo dos que sentem fome. __________________________ Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é professor e historiador em Mato Grosso