FREI BETTO: Ex­cluir as mu­lheres do sa­cer­dócio e do epis­co­pado, in­clu­sive com di­reito a serem car­deais e eleitas papas, é um pre­con­ceito ma­chista que não se jus­ti­fica em pleno sé­culo 21. O mesmo vale para o ce­li­bato obri­ga­tório

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Padres casados, mulheres sacerdotes e relações homoafetivas

Por Frei BettoO papa Fran­cisco propõe de­bater temas con­si­de­rados tabus na Igreja Ca­tó­lica, como o sa­cer­dócio de ho­mens ca­sados, a bênção ma­tri­mo­nial a ca­sais ho­mo­a­fe­tivos e o di­reito de as mu­lheres terem acesso ao sa­cer­dócio. Para isso, con­vocou o Sí­nodo dos Bispos, cuja pri­meira sessão ocorre, em Roma, nesse mês de ou­tubro (4 a 29).Pela pri­meira vez es­tarão pre­sentes 54 mu­lheres com di­reito a voto. Con­tudo, em­bora haja 70 leigos no Sí­nodo, 75% são bispos e car­deais. Ao todo, 464 par­ti­ci­pantes.Fran­cisco é o único mo­narca ab­so­luto do Oci­dente. Mo­narca ab­so­luto, como o rei da Arábia Sau­dita, é aquele que ne­nhuma ins­tância pode ques­tioná-lo ou julgá-lo. Qui­sesse de­cidir so­zinho sobre ques­tões po­lê­micas, Fran­cisco po­deria fazê-lo. Mas como pro­cura im­primir à Igreja um ca­ráter mais de­mo­crá­tico, pre­fere con­sultar as bases e atuar em re­gime de co­le­gi­a­li­dade.Pelo menos cinco car­deais no­me­ados por João Paulo II e Bento XVI, pon­tí­fices con­ser­va­dores, já se ma­ni­fes­taram contra a or­de­nação de mu­lheres e a bênção à união de pes­soas do mesmo sexo. Con­fundem dou­trina, um le­gado his­tó­rico, com re­ve­lação di­vina, também su­jeita à in­ter­pre­tação, como o com­prova a pró­pria his­tória da Igreja.A mi­so­ginia é uma forte ca­rac­te­rís­tica da Igreja Ca­tó­lica e destoa in­tei­ra­mente dos evan­ge­lhos. Lucas (8,1) cita os nomes das mu­lheres in­te­grantes da co­mu­ni­dade de Jesus; João (4,5-42) res­salta que a sa­ma­ri­tana foi a pri­meira após­tola ao anun­ciar Jesus como Mes­sias; e Marcos (16,6) re­gistra que Maria Ma­da­lena, pro­cla­mada “Após­tola dos após­tolos” pelo papa Fran­cisco, foi a pri­meira tes­te­munha da res­sur­reição de Jesus.Ex­cluir as mu­lheres do sa­cer­dócio e do epis­co­pado, in­clu­sive com di­reito a serem car­deais e eleitas papas, é um pre­con­ceito ma­chista que não se jus­ti­fica em pleno sé­culo 21. O mesmo vale para o ce­li­bato obri­ga­tório. Das 24 Igrejas vin­cu­ladas à co­mu­nhão ca­tó­lica, apenas a se­diada em Roma exige que seus sa­cer­dotes sejam ho­mens sol­teiros, em­bora todos saibam que Jesus es­co­lheu um homem ca­sado, Pedro, para ser o ca­beça da pri­meira co­mu­ni­dade cristã (Marcos 1,30).Muitos na Igreja con­fundem he­ranças cul­tu­rais com re­ve­lação di­vina. E por ig­norar no­ções ele­men­tares de an­tro­po­logia, julgam que o atual mo­delo pre­do­mi­nante de fa­mília he­te­ros­se­xual é uni­versal e pe­rene. Ora, para a Bí­blia o fun­da­mento da re­lação entre pes­soas é o amor. Onde há amor, aí está Deus.Hoje, ne­nhuma pa­ró­quia ca­tó­lica pode negar o ba­tismo a fi­lhos de ca­sais ho­mo­a­fe­tivos. Não é essa uma ma­neira de ad­mitir a sa­cra­men­ta­li­dade da união dos pais ou mães dessas cri­anças?Des­confio de que certos clé­rigos têm uma visão por­no­grá­fica da mu­lher e dos gays. O mais pre­o­cu­pante, porém, é ainda a Igreja con­si­derar a pro­cri­ação como ob­je­tivo su­pe­rior à co­mu­nhão de amor no ca­sa­mento. As pes­soas não se unem para ter fi­lhos, mas por amor. Fosse o con­trário, de­veria ser con­si­de­rado nulo o ma­trimônio de um casal es­téril.O que se pode es­perar de fi­lhos cujos pais não se amam? Não de­vemos nos apro­ximar de Deus para evitar as penas do In­ferno ou obter a sal­vação. Mas por amor, so­bre­tudo aos nossos se­me­lhantes - ima­gens vivas de Deus. Não há ex­pe­ri­ência hu­mana tão feliz e plena quanto a do mís­tico que vive em es­tado de paixão pela Trin­dade.Não há um só caso nos evan­ge­lhos em que Jesus tenha re­pu­diado uma mu­lher, como fez com o go­ver­nador He­rodes An­tipas (Lucas 13,32). Ou pro­fe­rido mal­di­ções sobre elas, como fez com os es­cribas e fa­ri­seus (Ma­teus 23). Com mu­lheres, Jesus se mos­trou mi­se­ri­cor­dioso, aco­lhedor, afe­tuoso e exaltou-lhes a fé e o amor.É che­gada a hora de a Igreja as­sumir o seu lado fe­mi­nino e abrir todos os seus mi­nis­té­rios às mu­lheres. Afinal, me­tade da hu­ma­ni­dade é mu­lher. E, a outra me­tade, filha de mu­lher.FREI BETTO - Carlos Alberto Libânio Christo, ou Frei Betto, é um frade dominicano, jornalista graduado e escritor brasileiro. É assessor de movimentos sociais. Autor de 53 livros, editados no Brasil e no exterior, ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti (1982, com "Batismo de Sangue", e 2005, com "Típicos Tipos"). Artigo publicado originalmente no Correio da Cidadania.