EDMUNDO ARRUDA JR: Registro respeito por todos que mantêm crenças religiosas tradicionais. Para mim os seus malefícios são menores que os benefícios. Os melhores seres humanos que conheci acreditam ou acreditavam em Deus e frequentavam seus templos

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Ateu graças a Deus?* POR EDMUNDO ARRUDA JR

Lendo alguns dados biográficos de escritores, artistas, pensadores, deparo-me com aqueles autodeclarados ateus. Um direito deles.

Já deixo claro que não frequento igrejas embora tenha sido batizado presbiteriano (por vontade paterna) e frequentado missas com minha mãe, católica de carteirinha.

Registro respeito por todos que mantêm crenças religiosas tradicionais. Para mim os seus malefícios são menores que os benefícios. Os melhores seres humanos que conheci acreditam ou acreditavam em Deus e frequentavam seus templos.

Preocupam-me mais do que os usos históricos das religiões para formatar e alienar multidões (um autor fala em cristofascismo) ou suas utilidades sociais emancipatórias (passa por minha cabeça a teologia da libertação de L.Boff, F.Betto, R.Freire, etc), aquelas utilizações ideológicas dos espertinhos de todas as cores.

Ademais, basta um testemunho de melhoria de vida de um indivíduo que professe dada fé, institucionalmente ou não, para legitimar positivamente crenças e instituições. Também os fundamentalismos não invalidam tudo o que não está no garrote dos extremos.

Minhas dúvidas surgem em relação a ateus, melhor, aos profundamente ateus. Aos ateus de convicções inabaláveis. Os homens de certezas últimas sob a supremacia progressiva da Razão.

Conheço muitos ateus fora dos que encontro em grandes figuras públicas.
Em Curitiba trombei com um deles. Batia no peito dizendo -se ateu de pai e mãe. Vá lá que seja verdade. Tenho dúvidas. Dizia-se comunista sem os vícios pequeno burgueses. Colocava-se numa condição superior por não ter sido desvirtuado em sua origem, escapando dessa forma de todas as mistificações deformadores da droga chamada religião, e do embuste chamado Deus.

Aos dezessete anos deixei de frequentar cultos dominicais e missas nas quartas feiras. Entretanto, a fundação e/ou princípios estavam dados e perpassam minha vida até hoje. Com bons e maus frutos a formação cristã me acompanha. A psicanálise ajudou a minorar culpas e outros efeitos das ambiguidades daquela educação familiar, no caso, da mistura dos rituais evangélicos e católicos, sob a disciplina militar imposta pelo pai, oficial do Exército.

Mas permanece no meu coração uma semente que gera frutos e outras sementes. E constato a diferença do joio para o trigo.

Em mais de trinta anos de convivência observando aquele amigo, autorepresentado "comunista", vi um fervoroso devoto de Marx, pouco lido mas exaltado no discurso militante.

A palavra de um segundo Deus revelada num livro sagrado ungia aquele fiel à condição de superação de perversas transcendências burguesas. Marx nasceu em 1818 (Trier) e faleceu em Londres (1883), onde escreveu sua obra prima, "O Capital". Com esse Deus-Marx e sua Bíblia "O Capital" nas mãos tudo se torna racional...E se tudo é racional o real se tornaria mais e mais sob controle. Será?

Não entrarei no inventário de desencontros/encontros éticos e/ou morais de homens em progressiva dissociação entre ideias e práticas. Viver é ser atravessado por contradições. Julgamentos morais podem esconder o Palhares que todos temos dentro de nós (aproveitando o filósofo Nelson Rodrigues).

No caso daquele gordo fanfarrão da cidade sorriso, de caráter dúvidavel e fraternidade venal, mudou-se finalmente para Cuba, aguardando Chico Buarque e tantos outros apaixonados pelo castrismo.

Em tempos de regressão social em vários níveis dou razão a Habermas no desafio de valorizar a esfera religiosa no seu derradeiro esforço comunicativo. Nada óbvio, como tudo em tempos metamórficos. Mas uma esperança de resgate do que resta de liga (re-ligare...) num senso comum destroçado por crescentes e múltiplos ressentimentos que desinstitucionalizam a sociabilidade, no trabalho e, principalmente, fora dele, permanece em potência.

Dou razão também a autores que acusam as "segundas religiosidades" ou grandes sistemas de pensamento de não somente carregar mais elementos religiosos do que julgam, como de não proporcionarem algo melhor do que os grandes sistemas teológicos (cristianismo entre outros). Cristo é infinitamente maior que Marx, óbvio.

Os leitores já ouviram pastores e padres mais retóricos? Em nada se diferenciam dos discursos de estalinistas e fascistas, assumidos ou não. Quando aquelas retóricas são mais analíticas, conceituais ganham convergência com a discursividade acadêmica na qual ideias marxistas ou nazistas também ocupam espaços.

Não sei se religião e razão andam ou não juntas. Tendo a vê -las como práticas que suprem carências e projetam esperança, não obstante suas derivações negativas demasiadamente humanas.

Conhecer é um processo infinito como o é o mistério da geração (Deus crea, o homem, cria diz H. Rohden).


  • Edmundo Lima de Arruda Jr é sociólogo e professor titular aposentado da UFSC
    18.10.21