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Meu amigo/ Um dia eu ouvi maravilhado/ No radinho do meu vizinho/ Seu rockzinho antigo/ E foi como se alguma bomba / Houvesse explodido no ar/ E todo o povo brasileiro/ Nunca mais deixou de dançar/ E desde aquele instante/ Eu nunca mais parei de tentar/ Mostrar meu blues / Pra você cantar”.Nunca tive o talento de Sérgio Sampaio para transformar em canção o impacto que a música de Roberto Carlos me provocou, mas também senti como se uma bomba tivesse explodido no ar. Era um rock brasileiro que a gente não tinha vergonha de cantar. Não era cafona. Não era uma versão marota de um sucesso americano. E, depois, era 1965, a ditadura militar estava começando, a música de Roberto transformou-se num hino de protesto que fazia a juventude mostrar sua rebeldia.Joaquim Ferreira dos Santos: Os bastidores de uma desastrada entrevista quando Roberto Carlos entrou para o Conselho de Direito Autoral de GeiselDizem que Roberto fez a canção para mostrar as saudades que sentia de uma namorada que estava fazendo um curso de inglês nos Estados Unidos (“E a sua ausência é todo meu tormento”). Pode ser. Mas ela ganhou outro contexto. Tornou-se um jeito de a juventude, muito pouco ouvida na época, mostrar que estava contra... aquela coisa toda.Roberto Carlos já havia passado pela bossa nova, já havia gravado suas versões de rock americano, já havia feito suas tentativas de música romântica, mas ali, naquela parceria com Erasmo Carlos em que mandava tudo pro inferno, ele tornou-se fenômeno nacional. Foi ali que começou a ser Rei.Naquele novembro de 1965, o então ministro da Justiça, Juracy Magalhães, advertia, em manchete de jornal, que “ninguém desmoralizará a revolução.” E a “revolução” era desmoralizada a todo momento na voz de um cantor de 24 anos que nos fazia gritar em coro “que tudo mais vá pro inferno”. Roberto Carlos foi meu primeiro cantor de protesto.Crônica publicada em O Globo, em 18 de abril de 2021O adeus a Artur Xexéo que ajudou a formatar o moderno jornalismo contemporâneo no Brasil. LEIA CRÔNICA DO XEXÉO
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