JOSÉ ORLANDO MURARO: Para trabalhar na hortinha eu visto uma calça jeans toda  rasgada, botinaço nos pés e uma camiseta toda estropiada

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Grandes lições da pequena  horta na pandemia

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

Bom...foi numa quinta-feira. Tenho certeza disto. Semana passada ou retrasada....mas foi numa quinta-feira...

Até onde me lembro o  dia começou a se desenrolar dentro dos conformes. As 5:30 horas os gatinhos, xerox e azeitona, começaram a sinfonia de miados, em mi maior, obrigando-me a pular da rede e ir colocar a ração para eles.

Depois um café preto sem açúcar na pequena maquininha. E a faina de ir buscar água nos regadores, para molhar as  verduras e legumes da pequena hortinha aqui de casa.

Nestes tempos de ‘home Office” uma coisa aprendi: você tem que incorporar o personagem. Para trabalhar na hortinha eu visto uma calça jeans toda  rasgada, botinaço nos pés e uma camiseta toda estropiada.

Depois de acabar a lida na hortinha, eu tomo banho, faço a barba e visto a beca de advogado. Calça social e camisa de mangas compridas. E vou para o outro lado do barracão onde moro, e entro no escritório. E a coisa flui: internet, processos e conversa com clientes. Poucos, muito poucos, por sinal.

As 11 horas tranco tudo e vou para o bar do Japão. Três cervejas e uma dose de cachaça....uma vez ou outra extrapolo, mas tenho conseguido manter a média....

Ate´aí tudo foi dentro do normal em um tempo nada normal

Voltei, coloquei um pedaço de carne para fritar na pequena panela de ferro, alcancei a tesoura de poda e, com uma bacia, fui nas latas da pequena hortinha fazer a colheita. Salsinha, pimenta biquinho, folhas de taioba, tomates cereja, cebolinha, pimentão verde, folhas de couve manteiga e quiabo

Despejei água dentro da bacia,  coloquei vinagre e deixei descansando.

Lembro-me de estar satisfeito.

A primeira vez que tentei plantar uma hortinha aqui foi um fiasco total.

Dois erros graves. Em primeiro, fiz os canteiros no chão. E mesmo com as plantas vingando, a praga do caramujo africano acabava com toda a minha vontade de comer as verduras. Bicho asqueroso, nojento.....e mesmo lavando as verduras, ficava aquela cisma. Acabava lançando  fora e não comendo.

O segundo erro foi o adubo. Por ser mais fácil, usava o adubo NPK, que era muito forte e acabava por queimar as raízes e aniquilar as plantas....

Desisti.

Mas quando tudo fechou, em 26 de abril de 2020, aquele terrorismo, medo estampado, restaurantes fechados, dispensas de empregados e o sumiço daqueles que me deviam.

Sem crédito, sem restaurante e sem cervejas para pagar depois.

Estava sentado e olhando em cima da mesa. Eu tinha dois miojos e três dedos de arroz. Um pacote de farinha de trigo velho e cheio de gorgulhos. Meio quilo de feijão e só....... nada mais!

Foi a única vez que pensei em suicídio.

Era uma conclusão lógica: com 62 anos, sem trabalho, sem crédito em restaurantes e botecos, com mantimentos que mal dariam para uma semana....porque não se matar? O caixão da Pax  estava pago para o ano inteiro....não iria dar trabalho para ninguém...

Decidi fazer alguma coisa para afastar tais pensamentos. Peneirei a farinha de trigo, retirando os gorgulhos. Depois busquei no Youtube vídeos sobre pão sem fermento, ázimos. E fritos, já que não tenho forno....e nem fermento...

Sovei a massa e deixei descansar....de volta ao Youtube.

Um vídeo de um inglês chamado Ed Stafford, o único homem que percorreu, a pé, toda a extensão do Rio Amazonas...

O vídeo tratava de uma outra empreitada, em que ele ficou 60 dias sem recursos em uma ilha remota.... depois de 14 dias passando frio e se alimentado só de cocos, ele finalmente conseguiu fazer fogo.... nesta parte do vídeo, ele, comemorando a fogueira, diz a seguinte frase:

-Quando você está em uma situação extrema, não importa só sobreviver. Você tem que melhorar as suas condições de vida....

Ou seja, se você não busca evoluir, melhorar ou mesmo sair daquela situação, você poderá acabar morrendo!

A frase foi como um murro no meio da minha cara. Se eu ficasse ali, olhando para os dois pacotes de miojo e três dedos de arroz, com certeza, em uma semana, estaria sem ter o que comer.

Foi neste instante que vi, em um saco plástico, vários pacotes de sementes que tinham sobrado da tentativa fracassada de fazer uma horta. Muitas sementes estariam com os prazos de validades vencidos

Era arriscar.

Por sorte tenho um vizinho que  transporta bois em um caminhão gaiolo. Fui  a casa dele e pedi que ele deixasse o restolho da palha de arroz que se forram o piso do caminhão, e se misturam o estrume e a urina dos animais.

Expliquei que iria fazer uma pequena horta e precisava daquele adubo. Ele concordou.

Voltei animado. Adubo orgânico eu já tinha.

Sai e fui catando as latas vazias de tintas que encontrava pelas ruas. Não iria plantar no chão.....adeus caramujos africanos.....

E assim a coisa foi tomando forma. No outro dia tomei um café preto sem açúcar e comi dois pães azimos. E parti para a empreita....arrumar terra boa, misturar com o adubo orgânico e ir plantando....

Dias depois encontrei o adubo de rochagem ROCKALL, feito aqui mesmo em Chapada pelo José, lá no Jamacá.

As coisas começaram a melhorar no meu espírito. Consegui vender um pedacinho de um “grilo” de terras, mandei o dinheiro da pensão para Cuiabá, paguei as contas nos restaurantes e botecos e decidi estocar mantimentos, pois não tinha a mínima idéia de quando voltaria a ter dinheiro nas mãos.

Comprei tudo de caixas. 100 miojos (marca Adoralle) 30 pacotes de bolachas, duas caixas de leite, muitos, muitos rolos de papel higiênicos, 10 detergentes, 20 sabonetes, 3 quilos de sabão em pó, dez aparelhos de barbear,,,,,,

E cinco quilos de pernil de porco e três litros de banha. Cozinhei a carne no fogão de lenha e depois fritei, deixando na gordura. A famosa “carne de lata” que deu para seis meses, pelo menos.

Assim foi a primeira “pegada” já em plena pandemia. Fiquei mais tranqüilo.  Tinha comida estocada....

E prossegui com a pequena hortinha.... sempre baldeando água, arrastando todas as latas  vazias de tinta que encontrava.... desdobrando o ROCKALL com a borra do café que coletava todo dia....

Como sempre acontece em toda hortinha, o que primeiro vinga é a salsinha e a cebolinha. A primeira  plantei sementes e a cebolinha fui no restaurante e pedi aquela parte das raízes que eles jogam fora. Separei e plantei....Duas semanas depois já  tinha salsinha e cebolinha na refeição.

E a hortinha foi crescendo. Decidi que a cada dia plantaria uma verdura ou legumes....em latas de tintas vazias ou em garrafas pet de 2 litros e meio.

Assim plantei pimenta biquinho, pimenta dedo-de-moça, açafrão, gengibre, tomates, couve manteiga, pimentões, quiabos e maxixes. Em latas grandes plantei cinco pés de taioba e mais cinco de inhames....

Foi desta forma, com esta produção, que cheguei naquela quinta feira...uma bacia cheia de verduras e legumes diretamente da minha hortinha da pandemia. Sem agrotóxicos e sem caramujos africanos...

O “insight” aconteceu.

Atingi o satori, a iluminação budista.

Enquanto a carne cozinhava na panelinha de ferro, coloquei uma dose de cachaça em um pequenino copo. E outro cheio de água, para tomar logo em seguida para  não cozinhar o fígado.

Quando levei o copinho na boca, meus olhos ficaram travados na bacia com água e vinagre.

E a ficha caiu....na bacia eu não tinha um mix de verduras e legumes...eu tinha um mix de vitaminas e sais minerais!!!

Olhei para os potes de arroz. O que eu incorporo quando como arroz?

Só amido. Só amido......mas naquele mix de verdura e legumes banhando na bacia eu tinha um verdadeiro coquetel de vitaminas e sais minerais!!!

Decidi cozinhar as verduras e legumes no caldo da carne que estava na panelinha de ferro.

Quando despejei no prato, aconteceu o segundo satori, a iluminação.

Estava claro para mim, como se meus olhos estivessem se abrindo para uma verdade divina: eu estava produzindo oitenta por cento da minha alimentação...oitenta por cento!  Verduras, legumes e carne frita.....não precisava mais do que isto!

Agora plantei cenouras de inverno... em garrafas pet de 2,5 litros....cinco pés a cada dez dias....assim terei  oferta de cenouras durante todo o ano...e plantei brócolis....recolhi um pé de jurubeba da rua e replantei em uma lata...e já está florido....

Semana que entra vou na Casa do Adubo em Cuiabá.  Vi um pacote de sementes de beterrabas cônicas, como cenouras....e que dá para plantar em garrafas pets de 2,5 litros. Quero comprar semente de pimenta de cheiro, jilós e beringelas.....e mais alguma coisa que encontrar e que me desperte o interesse.

A pequenina horta que comecei mais para arrumar o que fazer e abandonar idéias negativas, em um tempo já tão negativo, se transformou em uma alimentação saudável, sem agrotóxicos......um mix de vitaminas e sais minerais tão necessários a um ser humano na minha idade....

E a pequena hortinha deixou de ser um hobby, um passa tempo e se incorporou no meu dia-a-dia.... melhorei a minha alimentação...e estou satisfeito comigo mesmo: hoje eu produzo oitenta por cento do que consumo!!!

Chapada  dos Guimarães, 30 de maio de 2021.

JOSE ORLANDO MURARO SILVA é advogado e editor do Pluriverso Chapadense.

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