Gilney Viana defende que pressão popular e dos ambientalistas serão vitais para garantir que novo governo de Lula não seja capturado pelo Agronegócio. Ele saudou reaproximação entre Lula e Marina Silva. 'Prefiro Mariana a Geraldo Alckmin", disse Gilney. V

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Médico e professor universitário aposentado, Gilney Viana, que ja foi deputado federal (1995-1999) e deputado estadual (1999-2002) em Mato Grosso, continua um ativo militante da esquerda brasileira. Morando atualmente em Brasília, Distrito Federal, esse antigo guerrilheiro, que enfrentou a violência da ditadura militar no Brasil como parceiro de Carlos Marighela na Aliança Libertadora Nacional, assumiu agora militância em defesa do Ecossocialismo - uma forma de defesa mais radical das bandeiras ambientalistas, apontando para a superação do Capitalismo como maneira mais efetiva de impedir a inviabilização da vida no planeta e garantir a superação da crise climática.Falando diretamente de Brasilia, nesta sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022, Gilney Viana conversou durante quase duas horas, ao vivo, via Stream Yard, com os jornalistas Alexandre Aprá (do saite Issoé Noticia) e Enock Cavalcanti (blogueiro da PAGINA DO E), sobre a sua trajetória pessoal e os rumos do PT e campanha do velho metalúrgico Luis Inácio da Silva, visando a retomada da presidencia da República pelo Partido dos Trabalhadores, do qual ele figura como um dos fundadores, tanto em Minas Gerais, sua terra natal (ele nasceu em Crisólita, distrito do municipio de Águas Formosas, em 12 de agosto de 1945), como em Mato Grosso.Gilney conta que tem se dedicado com muito ardor à campanha pró-Lula ao ponto de financiar, com recursos próprios, a abertura de um comitê para a defesa da candidatura em Brasília, além de participar de articulações com este objetivo não só no Distrito Federal mas por diversas outras regiões do País. Sempre alertando que "Lula ainda não ganhou", ele se mostra entusiasmado com as pesquisas que, há mais de ano, colocam Lula na dianteira das preferencias populares, mas demonstra preocupação com a qualidade que pode vir a ter o novo governo petista, tendo em vista os interesses notadamente do movimento ambientalista, em face da gravidade da crise climática.O ex-dirigente nacional do PT avalia que o momento que a campanha de Lula vive neste ano de 2022 é diferenciado do que se viveu em 2002, ano que marcou a eleição do histórico líder metalúrgico para a seu primeiro mandato como presidente a partir de 2003. "Há semelhanças mas muitas diferenças. A comparação é muito arriscada, eu não faria. Exceto com relação à expectativa de vencer, que é muito semelhante. Lula naquela ocasião tinha vindo de três derrotas e amadureceu bastante e naquela ocasião, em 2002 lembro que Lula impôs uma condição ao PT, eu estava lá na direção, e ele pediu uma certa liberdade pra escolher seu vice, suas alianças. Mas não se compara com o que é hoje, cara. O Lula agora ganhou total autonomia." - tanta autonomia que Gilney diz que é dificil se contrapor a Lula e à maquina do PT lulista.Na avaliação de Gilney Viana são muitos aqueles que se satisfazem com a perspectiva de que a nova eleição de Lula vira quebrar o poder da direita atualmente no poder e desmontar a aliança dessa direita com setores importantes da burguesia brasileira. Ele destaca que essa será, de fato, uma vitória importante, já que devolver a direita ao seu gueto de 10% de influência sobre a sociedade deve ser uma conquista da eleição que se aproxima, mas que ele, Gilney, está entre aqueles que querem mais - notadamente no enfrentamento dos poderes atualmente enfeixados nas mãos dos operadores do Agronegócio dentro da estrutura do Estado, no Brasil."Nós tivemos o golpe em 2016 até a eleição viciada de 2018, uma eleição viciada porque o principal concorrente foi retirado na marra, através de um recurso extra eleitoral, não foi no processo eleitoral. O ministro do STF (Barroso) falou agora que foi golpe, não é? O que é essa aliança que tirou a presidenta Dilma? É uma aliança muito mais poderosa do que aquela que retirou o João Goulart e deu o golpe em 1964. Para fazer reformas antipopulares, a ditadura teve que fazer uma limpa no Congresso, cassaram cento e tantos deputados e senadores. Agora, depois do golpe de 2016, as reformas foram feitas sem cassar ninguém. Fizeram agora reformas que a ditadura militar não fez. Então, tivemos uma aliança poderosa e ideologicamente mais consistente, que promoveu um desmonte do Estado, a sua captura pela burguesia e pelo capital. A total desestruturação da CLT, em prejuízo dos trabalhadores, é coisa desse governo. Hoje tá tudo na mão deles, o capital nomeia e o faz de uma forma descarada... Então estamos diante de uma verdadeira contra revolução. A direita em 1964 era partidariamente pulverizada e agora temos uma direita que tem uma liderança mais forte e uma inserção muito forte no Estado. Para derrotar isso tem que ter, sim, uma agregação de forças, mas será que tem que ser uma agregação de força tão larga, tão ampla? Eu discordo desse aliança muito ampla. Segunda coisa, eles desmontaram o Estado e remontaram. Aqui pra nós, o que o Agronegócio fez de ele aglutinar em suas mãos poder sobre terra, sobre meio ambiente e sobre os direitos sociais é uma coisa poderosissima, que a ditadura não fez...não que eles não pudessem fazè-lo, mas a ditadura não fez. Mas é muito dificil imaginar que esse Agronegócio, que aí em Mato Grosso é tão poderoso, vá aceitar um programa de recomposição do Estado, de retomada do desenvolvimento, de bem estar social. Eu, sinceramente, não acredito".Em sua apaixonada defesa do Ecossocialismo, Gilney Viana se alegra com uma possível aproximação entre Lula e a ex-ministra Marina Silva - "Melhor Marina do que Alckmin", disse ele durante a conversa com os dois jornalistas - e aponta a mais violenta contradição que um futuro governo do PT precisa esclarecer: "Como é que em meio a uma crise ecológica, uma crise climática como essa que estamos vivendo, você vai fazer aliança com aqueles que são os causadores da crise ?! Você vai botar eles na gestão?! Esses caras que desmontaram o Meio Ambiente, desmontaram o Incra, desmontaram os centros de pesquisas?! Se for assim, vamos ter um governo Lula que não será capaz de fazer as reformas mínimas para termos um desenvolvimento minimamente aceitavel. Por isso, estou defendendo a transição da transição".Gilney avalia que Lula, se vacilar quanto a um correto enfrentamento da crise climática e demais temas caros aos movimentos sindicais e populares, pode vir a enfrentar uma oposição pela esquerda ao seu governo. “Reestabelecido um ambiente de maior liberdade, é evidente que os movimentos sociais irão pras ruas” - prevê ele.VEJA NO VIDEO A INTEGRA DA CONVERSA DE GILNEY VIANA COM ALEXANDRE APRÁ E ENOCK CAVALCANTI