GABRIEL NOVIS NEVES, reitor fundador da UFMT, nomeado durante a ditadura militar, relembra como enfrentou a primeira Greve Geral na universidade federal de Cuiabá, devidamente organizada pela UNE

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PRIMEIRA GREVE GERAL NA UFMT

POR GABRIEL NOVIS NEVES

Chego ao hospital e caminho para o meu consultório.

Na “Praça da Alimentação”, encontro elegantemente vestido lendo um jornal, um famoso economista, ex-aluno da UFMT.

Aproximo do meu amigo consagrado pelos estudos para cumprimentá-lo e adverti-lo.

Mestre, este é um hospital feminino.

Sua presença aqui levanta suspeita.

O professor entendeu a brincadeira.

O seu clínico geral, tem o seu consultório no segundo andar, mas, distante da Praça de Alimentação, polo dos consultórios dos ginecologistas e obstetras.

Como seu médico estava atrasado, o ex-dirigente do Diretório Acadêmico da UFMT na década de 70, espontaneamente, me fez um depoimento que desconhecia durante o nosso cordial bate papo.

O senhor conhece a verdadeira história da primeira greve da UFMT?

Disse-lhe que foi uma greve de adolescentes e que não deixou cicatrizes.

Então, em homenagem a história, ele me relatou com minúcias os acontecimentos que eu desconhecia totalmente.

Fui o único reitor encarregado de implantar uma Universidade Pública Federal no período do regime militar e que dispensei o serviço de inteligente (SNI), na instituição de ensino, e nem me interessei por ideologias, raças, religião, preferência sexual e outros penduricalhos do sistema social da hipocrisia.

Também nunca apliquei o temido artigo 477, que desligava o aluno da universidade por motivos ideológicos.

Tinha como único foco implantar a maior usina de conhecimentos em Cuiabá e, só.

Trabalhei com os mais variados perfis humanos e profissionais, e sempre aproveitei as suas virtudes.

A tentação para o desvio e provocações foram inúmeras.

Diante do relato do ex-aluno, fiquei perplexo.

O comando do diretório da UFMT era do MR-8.

O relacionamento dos estudantes com o reitor era o melhor possível.

Nunca foi aplicado nenhum ato revolucionário contra um aluno ou professor.

O reitor sim foi cassado por motivos políticos.

Depois recuperou o seu cargo.

A ordem nacional revolucionária era uma greve geral em todas as universidades públicas brasileiras.

Foi solicitada a presença do presidente da UNE, que clandestinamente veio para cá e se infiltrou entre os nossos estudantes, fato esse confirmado anos depois pelo próprio ex-dirigente da UNE, que se tornou político profissional.

Precisavam de preferência de um cadáver para que o movimento tivesse projeção nacional e internacional.

Conseguiram um voluntário que simulou uma agressão por empalamento, que o levou ao suposto abdômen agudo.

Conduzido a Santa Casa de Misericórdia por seus colegas, foi atendido por especialistas e internado para observação.

Nada de anormal foi encontrado pelo exame físico e laboratorial.

Só então fui informado do que estava acontecendo.

Passei no Restaurante Estudantil ao lado da reitoria onde os estudantes, meus amigos, estavam concentrados e revoltados.

Disse-lhes que lamentava o ocorrido e que iria visitar o seu colega no hospital, mas voltaria para informar-lhes sobre a real situação de saúde do universitário.

Com mais de seis anos de prática no maior hospital de urgência e emergência da América Latina, o Hospital Souza Aguiar do RJ, após ouvir o relato dos meus colegas que estavam cuidando do garoto, me permiti a examiná-lo, a pedido dos mesmos.

Meu diagnóstico batia com o da equipe de especialistas: “simulação”.

Fomos para a sala dos médicos onde discutimos o assunto sob todos os ângulos, e considerando que a medicina não é uma ciência exata, decidimos que o melhor seria fazer um procedimento clássico e ético: “laparotomia exploradora”.

Não quis entrar no campo cirúrgico, embora estivesse presente no Centro Cirúrgico, pela minha condição de reitor.

Após inventário minucioso de toda a cavidade abdominal, nenhum sinal de trauma foi constatado.

Concluído com êxito o procedimento médico, apressei-me em trazer aos jovens acampados no restaurante a boa notícia.

Ao fazer o relato das boas condições de saúde do seu colega, sem nenhuma possibilidade de ter sofrido um trauma ou risco de morte, levei a maior vaia da minha vida.

Toda aquela gente inocente precisava de um cadáver.

Esses fatos com nomes dos autores me foram fornecidos pelo renomado e respeitado economista.

Até onde a paixão política transforma seres humanos privilegiados em frequentar uma universidade pública, em país de analfabetos, em seres irracionais.

Assim, terminou melancolicamente a primeira greve geral na UFMT.

Essa é a história não escrita.

Gabriel Novis Neves, é medico e professor aposentado em Cuiabá, MT e titular do blogue Bar do Bugre.

16-11-2013