GABRIEL NOVIS NEVES: Lembro dos tempos que morava na rua de Baixo, em Cuiabá. Esperava a chuva diminuir para sair de casa com um vidrinho. Ia para o córrego da Prainha garimpar pepitas de ouro próximo à Igreja do Rosário para vender na Casa Miráglia, onde

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CHEIRO DA INFÂNCIA
Por Gabriel Novis Neves

Hoje o tempo amanheceu brusco, com o sol escondido, ventos agradáveis e não muito fortes, mas o suficiente para derrubar a folhinha do Coração de Jesus pregada por um prego na parede atrás do meu computador.

Fui obrigado a fechar metade da janela do meu escritório e, a folhinha foi recolocada em seu lugar.

O céu carregado de nuvens escuras e com poucas nuvens brancas.

Consulto o serviço de meteorologia do meu iPhone.

Ele registra chuvas para hoje e para os próximos dias.

Minha funcionária da cozinha me informa que ouviu cedo pelo rádio que está chovendo na cidade de Nobres, próxima à Cuiabá, e que ela não tardará a chegar até aqui.

Gosto muito das chuvas, especialmente quando estou em casa.

Prefiro as chuvas de dia às da noite, quando estou dormindo e nem sei que choveu.

Vejo que a chuva já chegou por aqui e está na Arena Pantanal e atrás do Shopping Estação.

O meu quarto de dormir está escuro e a chuva moderada chegou à minha casa.

O asfalto está molhado e os carros estão circulando com seus faróis acessos.

Quem estiver nas ruas estará se molhando, assim como as minhas plantas e flores do jardim da minha cobertura.

Ela aumentou de intensidade e até um trovão se fez presente para aumentar a beleza da natureza.

Sou obrigado a fechar toda a janela do meu escritório para continuar a digitar está crônica.

Sinto uma imensa alegria, mas cheia de melancolia, pois logo me vem à lembrança minha infância distante.

Lembro dos tempos que ainda morava na rua de Baixo.

Esperava a chuva diminuir para sair de casa com um vidrinho que a minha mãe me dava.

Ia para o córrego da Prainha garimpar pepitas de ouro próximo à Igreja do Rosário para vender na Casa Miráglia de joias, onde “seo” Miraglia pesava e nos pagava em dinheiro.

Era um prazer incomparável, e até hoje me causa muita melancolia o cheiro da infância causada pela chuva durante o dia.

Os trovões estão mais presentes e as chuvas diminuíram, deixando em mim a certeza que tudo na vida passa tão rápido, menos a natureza que continua linda.

Gabriel Novis Neves é médico e professor aposentado em Cuiabá, MT. Titular do blogue Bar do Bugre

11-11-2022

Gabriel. Foto Secom MT