No Brasil, até cachorro investiga. Menos a imprensa de Mato GrossoPor Enock CavalcantiO ex-procurador da República e ex-governador de Mato Grosso Zé Pedro Taques, hoje atuando como advogado, é dotado de um senso de humor peculiar. Fez muita trapalhada, se embaraçou nas próprias pernas como gestor público e hoje, na política do Estado, é só uma desbotada lembrança, mas deixou algumas boutades que funcionam e devem ser usadas para maior compreensão da realidade. Paulo Taques, Alan Maluf, Permínio Pinto foram algumas das personalidades, avalio eu, que contribuiram para o descrédito crescente do Zé Pedro Taques, depois de sua passagem pelo comando do Governo do Estado, mas ele é um importante personagem de nossa história recente. Merece atenção e estudos.Zé Pedro costumava bater na tecla de que, neste grande País (pelo menos geograficamente) chamado Brasil, até cachorro, quando usado para farejar cocaína, maconha e outras substâncias, investiga. Então, por que pretender, por exemplo, reprimir a possibilidade de agentes do Ministerio Público investigarem?! Zé Pedro, talvez entusiasmado momentaneamente com a permanente busca da verdade, defendia que se incentivasse em nosso País a manutenção de uma investigação ampla, geral e irrestrita, dos mais diversos assuntos e questões, como forma de uma mais perfeita abordagem da realidade em derredor. Humildemente, concordo com ele.Já que é dado ao cachorro farejador de drogas, na Policia Civil ou Militar ou Federal, o poder de investigar, que investiguemos todos.Além das autoridades policiais e do MP, Zé Pedro ressaltava a responsabilidade que temos nós, os jornalistas, de também investigar cotidianamente, contribuindo assim para o melhor esclarecimento dos fatos, no interesse dos cidadãos que, no final das contas, são aqueles que pagam todas as nossas contas. Jornalistas existem para serem investigadores, em suma.Olho no espelho e acho que estamos devendo explicações ao Zé Pedro porque, enquanto imprensa de Mato Grosso, não temos investigado tanto quanto deveríamos investigar. Falhamos, diante do Zé Pedro e, certamente, também, diante dos cães farejadores que seguem cumprindo com seu mister, dia após dia, desde que exigidos pela Policia.A imprensa de Mato Grosso investiga muito pouco, é a constação que faço, constrangido,e para isso dou dois exemplos recentes. Evidentemente que existem muitos outros exemplos mais que poderiam ser aqui listados. Mas meu fôlego, de velho que está chegando aos 70 anos, é curto. Sei dos meus limites.Vejam que, no dia 4 de janeiro deste ano, abrindo seus trabalhos em 2023,o reporter Rogério Florentino, que é editor do saite Conexão Mato Grosso publicou uma matéria bombástica: "Condenado por fraude processual e nome no SERASA, vice-governador Pivetta vê dívida ultrapassar R$ 14.3 mi". Eis o link para quem se interessam em conhecer o texto publicado: https://conexaomt.com/politica/condenado-por-fraude-processual-e-nome-no-serasa-vice-governador-pivetta-ve-divida-ultrapassar-r-14-3-mi/Como disse, uma matéria bombástica, já que relata novo esquema financeiro altamente suspeito e irregular envolvendo o atual vice governador de Mato Grosso e sojicultor multimilionário Otaviano Pivetta, alvo da atenção da 2.ª Vara Civel mantida pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, no municipio de Nova Mutum (241 KM da capital). O mesmo produtor rural e notável empresário que, em passado não muito distante, estrelava garrafais manchetes no jornal A Gazeta, do Dorileo Leal, como investigado em outro esquema financeiro bombástico que, nas matérias do então repórter Romilson Dourado, eram editados sob a retranca 'Escândalo da Cooperlucas". O caso Cooperlucas rendeu muitas e muitas matérias, nos mais diversos veículos, daqui e de fora.A matéria bombástica do Conexão Mato Grosso, todavia, porém, contudo, ficou por isso mesmo. O saite e o repórter Rogério Florentino não conseguiram, pelo jeito, avançar com a pauta, esclarecer melhor essa condenação, documentada nos alfarrábios do TJ-MT, que atinge Pivetta. O pior é que outros veículos de informação de Mato Grosso não se interessaram em se somar às investigações. Sabemos que existem empresas de comunicação bem melhor estruturadas do que o Conexão MT para promoverem investigações.A gente está acostumado a ver, no Jornal Nacional, por exemplo, os repérteres dizerem: "Tal informação foi divulgada pela Folha de S. Paulo, ou pelo Estadão, ou pela revista Veja, e a reportagem da Rede Globo também teve acesso à informação, confirmando a importência dessa investigação". Ora, não sei por qual estatuto, mas parece que esse mergulho na reportagem alheia parece que está proibido de ser exercido entre os veículos de comunicação de Mato Grosso. Será pelo fato dos entes públicos, como o Governo do Estado, ao longo dos anos, se constituirem como os maiores patrocinadoes e, portanto, os maiores sustentadores financeiros de nossas empresas jornalisticas? Eis uma questão para ser devidamente esclarecida - e nao será, certamente, pelos cães farejadores, que tem poder de investigação reconhecido por Zé Pedro Taques, mas um poder de investigação limitado.Mas prossigamos.Poucos dias depois, no dia 5 de janeiro, foi a vez do repórter Alexandre Aprá, no saite Issoé Noticia, publicar reportagem com tema que também julgo importante, impactante, bombástico: "Empresas da família Mendes devem mais de R$ 115 milhões em impostos à União". Eis o link, para seu melhor conhecimento, caso não tenha lido: https://www.issoenoticia.com.br/noticia/86944/empresas-da-familia-mendes-devem-mais-de-r-115-milhoes-em-impostos-a-uniaoA reportagem do Aprá, repleta de dados, reproduzindo documentos, não foi capaz de inspirar desdobramentos oportunos em outros veículos da nossa imprensa, notadamente na televisão, que é a mais acessado pelo chamado grande público, pelos contribuintes, consumidoes e pagadores de impostos, que, certamente, se interessariam por saber mais sobre as práticas de pagador de impostos do governador Mauro Mendes que é, justamente ele, um feroz cobrador de impostos, como tem sido reportado muito ultimamente pela nossa mídia, notadamente no caso da chamada “cobrança de impostos do Sol”, no caso da taxação da produção de energia solar que provocou tanto alarde na imprensa e no parlamento e na Justiça mato-grossense, por conta das movimentações de parlamentares como os senhores deputados Faissal Calil e Ulysses Moraes.Neca de pitibiriba. Silêncio sepulcral. Assunto que não se desdobra. Outro caso de “pauta abafada” foi a questão dos gordos salários extras pagos a alguns de seus privilegiados secretarios, por Mauro Mendes, usando as estruturas dos conselhos de empresas pretensamente defuntas como a Sanecap, para beneficiar apaniguados como Gilberto Figueiredo, Beto Dois a Um, Rogério Gallo e César Miranda, assunto que ficou restrito ao blogue do veterano jornalista Eduardo Gomes, como você pode conferir neste link: Beto Dois a Um conselheiro da Sanemat fica em silêncio sobre nomeações para conselhos – Blog do Eduardo GomesDigo isso porque sei da atividade de mais de mil jornalistas em Mato Grosso e sempre tendo em conta o alerta do Zé Pedro Taques: se até os cachorros tem o poder de investigar, garantido por Lei, por que não investigam mais aqueles que, conforme tanto se espera, tem o dever de investigar, que são os jornalistas?Falo dos jornalistas e penso que, nesses dois casos, os assuntos devam merecer também a preocupação das autoridades do Ministério Público, da Assembleia Legislativa, da Corregedoria Geral do Estado, enfim, de tanta gente que, como os cães e as cadelas, recebem para investigar, esclarecer melhor o fato e o comportamento de determinadas autoridades publicas - mas que preferem ficar silentes, imóvéis, como se nada estivesse acontecendo.Se poderosas estruturas de investigação foram montadas pela imprensa em nosso Estado, e montadas basicamente a partir da sustentação que lhes garante o poder público, como principal patrocinador de toda a mídia, imagino que essas estruturas devam prestar um serviço público obrigatório. O omissão não lhes fica bem. A omissão pode sugerir cumplicidade.E deus proteja os cachorros e as cadelas policiais que, ainda que por instinto, seguem investigando e cumprindo com suas responsabilidades. Para melhor referência, procure ver em seu serviço de streaming o filme "K-9 - Um Policial Bom Pra Cachorro', um filme americano de 1989, uma comédia de ação com James Belushi, Pruitt Taylor Vince e Mel Harris, dirigida por Rod Daniel. Muitos outros filmes exploraram esta temática, dando razão ao Zé Pedro Taques. Rememorando minha infância, recordo que até o Lobo, do seriado brasileiro “Vigilante Rodoviário” e o pastor alemão Rin Tin Tin, do pequeno cabo Rusty, naquele outro enlatado do Tio Sam, também eram vorazes investigadores.Enock Cavalcanti, jornalista, é editor do blogue PAGINA DO ENOCK, editado a partir de Cuiabá, desde o ano de 2009.Email enockcavalcanti@gmail.com