ENOCK CAVALCANTI: Neri Geller e Wellington, as duas faces do Agro que domina e sufoca Mato Grosso

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Neri Geller e Welington, duas faces do Agro que domina e sufoca MTPor Enock CavalcantiO Agronegócio concentra suas preocupações e seus investimentos na disputa pela única vaga do Senado que será posta à disposição dos eleitores de Mato Grosso neste ano de 2022. É que o Agro parece querer confirmar, mais do que nunca, a sua hegemonia sobre a vontade dos mato-grossenses. Para o Governo do Estado, a reeleição do empresário garimpeiro Mauro Mendes já seriam favas contadas, segundo os prognósticos que circulam pelos bastidores.Com Jayme Campos e Carlos Fávaro que já estão lá no Senado, o Agro trabalha para manter sua hidra de três cabeças reinando sobre as votações e sobre as articulações na Câmara Alta para que Mato Grosso se confirme como o rendoso pasto que Dante de Oliveira e os governos tucanos entregaram ao guloso controle dos ruralistas na virada do século 20 para o século 21.Não é exagero dizer que Mato Grosso, atualmente, é a Fazenda Modelo da mais violenta concentração de renda da História desse Brasil sempre dominado pelos latifundiários, a ferro e fogo e sempre concentrado na exportação de produtos primários, desde a exploração inicial do pau brasil. Para os pobres escravizados de antes e para os pobres assalariados de agora, sobram sempre os ossinhos - e/ou um desemprego que os mantém fora do mercado e do acesso às modernas maravilhas criadas pela opulenta sociedade burguesa que temos por aqui.Mas por que o Agro não se unifica em torno de uma só candidatura nesssa disputa pelo Senado? Welington Fagundes é um nome de maior tradição no servilismo, pois nunca se preocupou com as populações subalternizadas, sempre teve olhos apenas para as grandes obras de infra-estrutura, sempre atendeu fielmente às exigências da Casa Grande. Neri Geller veio depois, inventado pelos integrantes da familia Maggi que, por sua vez, foi uma invenção do pioneiro Olacir de Morais, importada lá das sangrentas margens do Rio Bostinha, no Paraná.Ora, existem aqueles analistas que já documentaram que o Agro teria formado como que uma enorme máfia no Brasil, sugando as riquezas de toda a República, e toda máfia que se preza - seja na Cosa Nostra italiana, seja na Bratva da Russia , seja na Mara Salvatrucha na América Central, seja na Yakuza - haverá sempre que ser marcada por disputas internas sangrentas, fratricidas, que vem lá do mito de Abel e Caim que está na base de todos as angústias que marcam a condição humana. Aqui em Mato Grosso, no Centro Oeste brasileiro, tem muito, uma montanha de dinheiro rolando nestas plantações, nestas matas, nestas florestas, mermão, e tanto dinheiro sempre atrai olhos famintos, troca de esbirros, choque de egos – e muitas outras plantações, e muitas outras minerações, e muitas outras formas de enriquecer, que é semente, que é plantação, ainda mais com tantos mercados a que a globalização pode nos envolver e arrastar. Pelo que se viu nas recentes investigações da CPI da Sonegação, na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, a contabilidade do Agro é um emaranhado tal que nem os nossos parlamentares estaduais mais esforçados conseguiram penetrar, para entender a mágica pela qual grande parte dos recursos que os ruralistas mato-grossenses recolhem pelo Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab) acabam retornando aos cofres de entidades como a Aprosoja, suspeitas de usarem esses recursos para financiarem até mesmo atividades contra o Supremo Tribunal Federal.O fato é que a eleição está no ar e os candidatos já estão voando. Se você votar Neri Geller senador, o Agro pega. Se você votar Wellinton senador, o agro come. O controle sobre o gado, povo marcado nesse mercado mato-grossense, é tão forte, é tão tradicional, é tão corriqueiro, que é dificil para qualquer analista pensar em uma alternativa viável. Nossos partidos , claro, não ajudam, só servem mesmo para multiplicar espantos, como essa candidatura de Antônio Galvan pela extrema direita sojeira.Crucial é perceber que o controle sobre o Parlamento, que produz as Leis, é necessário para que o Agro implemente medidas como a que, recentemente, foram consagradas pelo Projeto de Lei (PL) 1293/21 que afastou os fiscais do Estado e estabeleceu a fiscalização de todas as atividades da agropecuária no Brasil atraves, vejam só, do autocontrole dos próprios produtores. De um lado, o controle do Governo Federal pelo bolsonarismo vai sucateando a máquina do Estado e se chega a situações como a que se registrou no norte do estado do Paraná, recentemente, onde o Ministério da Agricultura dispunha de apenas uma fiscal para fiscalizar estalecimentos rurais de 60 municípios, algo em torno de 400 a 500 granjas. Abre-se concurso e contrata-se mais fiscais?! Que nada! Os ruralistas que dominam o Congresso acharam bem melhor entregar a fiscalização de suas atividades aos próprios ruralistas, confiando que eles são todos homens e mulheres de boa vontade. A partir de agora, intervenção zero do Estado. Produtores poderão aderir voluntariamente aos programas de autocontrole, por um protocolo privado de produção, com registros auditáveis de toda a cadeia – da matéria-prima ao produto final. Podia haver coisa melhor?! Fico temendo que, se o bolsonarismo vencer e ganhar um segundo mandato com Bolsonaro e o Congresso seguir nas mãos venais do Centrão, pode ser que essa desregulamentação chegue a todos os setores da economia. Sim, se os ruralistas podem viver e trabalhar no campo sem qualquer fiscalização estatal nos seus cangotes, pra que mantér os Procons empentelhando a vida de donos de lojas de shoppings e de supermercados?!E esse é só um exemplo do controle (ou descontrole) cada vez maior que o Agro vai exercendo sobre o cotidiano brasileiro e do impacto que isso pode ter em todo o nosso modo de vida, levando a uma mercantilização atroz das mais diversas facetas do nosso cotidiano.Os investimentos eleitorais, nesse mês de maio, já estão a todo vapor e traduzem uma guerra interna que para o grande público é dificil perceber. O que o público certamente já percebe , todavia, é que o dinheiro para viabilizar este ou aquele candidato dos ruralistas já está jorrando. Custosas placas com a campanha de Neri Geller e Welington que brigam para ser a cara do Agro no Senado já ocupam ruas e vielas da capital e do interior, numa pré-campanha eleitoral rica e evidentemente ilegal, mas sem que a Justiça Eleitoral se preocupe em coibí-la. Afinal de contas, Governo, Parlamento, Ministério Público, Poder Judiciário... todas as instâncias de poder se confraternizam e evitam os confrontos desnecessários quando o mais importante é viabilizar “uma nova e histórica eleição democrática em nosso País”.Quem controlar o poder no Agro controla o poder no Brasil. Sim, porque Mato Grosso vê Neri Geller duelando contra Wellington pela preferência do Agro, no mesmo momento em que todo mundo já sabe que, no plano nacional, seja Jair Bolsonaro, seja Luis Inácio Lula da Silva, as duas campanhas presidenciais já dão a pinta de que se renderam também ao poder desse Agro que, para perplexidade nossa, parece não ter quem lhe estabeleça limites e alternativas.Enock Cavalcanti, 69, jornalista, é editor em Cuiabá, do blogue PAGINA DO ENOCK , desde 2009