ENOCK CAVALCANTI: Não votei em Lula pra reeleger Arthur Lira

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Não votei em Lula pra reeleger Arthur LiraPor Enock CavalcantiA gente sempre espera de um ano novo, uma vida nova, renovada. Mas talvez não seja assim. A sensação no ar, por todo o mundo, é que as coisas estão a piorar. Mudanças climáticas, qualidade de vida que cai de padrão, geleiras que derretem nos polos, gelo que cai virulento sobre a América do Norte, matando muitas, muitas pessoas. Viver segue sendo um exercício perigoso para quem não se cuida, e muito mais para quem não tem condições de se cuidar. Irmãos, é preciso coragem!A chegada do velho metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva ao poder - depois do golpe de 2016 e das criminosas maquinações da Vaza Jato, comandadas por Moro e procuradores do MPF, associados com a midia corporativa, e o sempre presente dedo de Washington -, é, sem dúvida, um acontecimento para se comemorar neste 1º de janeiro de 2023, com chuva, suor e cerveja. Podemos retomar nosso fôlego democrático. Devemos preservar a esperança.A trama fica bem escancarada porque os golpistas da extrema direita seguem acampados diante dos quarteis, nessa virada de ano, de 22 pra 23, clamando por um golpe militar nos moldes daquele terror que tivemos em 1964. Onofre Ribeiro, claro, nâo enxerga as ameaças e garante que tudo não passa de um caso explícito de liberdade de manifestação. Liberdade com clamor para que se tenha, de novo, o AI-5, o fechamento do STF, a caça aos comunistas. Onofre Ribeiro me parece orgulhoso em ser porta-voz dos golpistas em Mato Grosso, um porta-voz da regressão.Ah, 1964...Ah, ditadura militar...Eu era garoto de pouco mais de 15 anos, mas me lembro do clima de terror que pairava naqueles anos de chumbo. Eu ia para a escola, de trem, chegava na Central do Brasil e havia cartazes com rostos de militantes de esquerda, homens e mulheres que eram caçados pela polícia como terroristas. Lembro de um dia, tomando minha xícara de café com leite, meu pão com queijo do reino e olhando para um cartaz com a cara inexpressiva do capitão Lamarca. Ainda não havia, naquele tempo, o pão na chapa. Não dava para entender direito tudo aquilo porque não havia notícias esclarecedoras no rádio e na TV. Só os cartazes sombrios nas paredes. Foi quando comecei a ler o Jornal do Brasil – a Última Hora que meu pai comprava já não me satisfazia –, para ver se desvendava melhor aquela realidade. Quem disse que consegui, até hoje?!Clima de terror dos anos de chumbo era parecido com o que se vivia em Cuiabá quando por aqui se vivia, final dos anos 90, sob o reinado do crime organizado e sob o reinado do comendador Arcanjo - aquele que, um dia, Wilson Santos teve o despudor de chamar de 'gênio da raça” (o vídeo continua rolando nas redes, testemunha ocular desta história). As pessoas até se evitavam olhar nos olhos, durante a ditadura, e durante o reinado do Arcanjo, em Cuiabá. Medo por todos os cantos, escorrendo pela cornija, como num conto de Edgar Allan Poe. Irmãos, era preciso coragem!Agora, o período trágico do bolsonarismo está terminando e uma grande maioria espera muito do Lula. Torcendo pela anunciada reconstrução do Brasil.Mas, acompanhando o noticiário, ficamos, claro, com uma pulga por trás da orelha, quando vemos que Lula mantém sua disposição de permitir que o Agronegócio, tão concentrador de renda, continue dando as cartas em Mato Grosso, escolhendo o Carlos Fávaro para seu ministro da Agricultura - que talvez não seja o seu ministro, mas, sim, o ministro de Blairo Maggi. Nunca mais esbarrei com uma pulga, falar nisso...A higiene dos ambientes em que vivemos, certamente, melhorou. Por outro lado, o problema hoje é que há veneno, agrotóxico demais nos ambientes, como se denuncia tanto em Mato Grosso. Fico espantado, em certas regiões deste Estado, cruzando aqueles amplos espaços sem árvores, sem pássaros, sem pirilampos, só a soja rasteira produzindo euros para certos barões de que se fala, mas com quem ninguém esbarra nas ruas.Numa roda de amigos, no Natal, afirmei que não votei em Lula pra reeleger Arthur Lira presidente da Câmara Federal. Um rompante. Pra mim, garganteei, presidente da Câmara deveria ser o Marcelo Freixo ou o Molon. Alguém me deu um choque de realidade dizendo que nem Freixo nem Molon estarão no parlamento em 2023, porque o povo os derrotou nas urnas do Rio de Janeiro em 2022. São muitos os que gostariam que o orçamento secreto - que Lula já disse que é pior que o Mensalão do PT - fosse extinto, enterrado, esquecido, mas o noticiário nos diz que ainda haverá muitos bilhões para distribuir via emendas do relator. Governo e Congresso em simbiose constante, mistura que só traz confusão e desperdício.Sou daquele tempo em que o PT tinha como deputado federal, em Mato Grosso, o médico revolucionário Gilney Viana e não permitia que seus parlamentares participassem desse leilão das emendas parlamentares. Hoje o PT mete o pé na jaca das emendas sem tugir nem mugir. Mudanças climáticas e mudanças políticas tornando o mundo cinzento.

Mudaria o Natal ou mudaria eu?” - indagava o Machado de Assis. Mudou o PT e mudamos nós, a cada dia, a cada agonia.A gente sempre espera de um ano novo, uma vida nova. Mas as notícias que temos, em Cuiabá, é que juízes que haviam sido afastados por corrupção estão retomando suas funções neste confuso Tribunal de Justiça de Mato Grosso. O comunista Kleber Lima foi visto faturando uns cobres e fazendo marketing eleitoral para o mais sectário dos bolsonaristas, que é aquele inacreditável Nelson Barbudo.Alfredo Mota Menezes continua generalizando, sem fulanizar em suas análises. Os conselheiros do Tribunal de Contas, acusados de cobrar propina do Silval, agora não são acusados de mais nada, tudo continua tal e qual, e ninguém ousa fazer uma análise em torno desse vai e vem. Irmãos, é preciso coragem!Sérgio Ricardo voltou a fazer campanha para salvar o Rio Cuiabá, agora usando a estrutura do TCE, da qual voltou a se assenhorar. A Ong Moral e o MCCE-MT são apenas, hoje em dia, um drummoniano retrato desbotado na parede.O Parque Nacional da Chapada dos Guimarães foi privatizado sem que se ouvisse um protesto sequer. Antes disso, houve um tempo em que a água deixou de cair no Véu da Noiva. Os empresários, insistentes, continuam brigando na Justiça pelo direito de implantar pequenas hidrelétricas nos rios que formam o Pantanal mato-grossense. Mudanças climáticas e políticas seguem nos fustigando por todos os lados. Irmãos, é preciso coragem!Enock Cavalcanti, 69, é jornalista e editor do blogue PÁGINA DO ENOCK, a partir de Cuiabá-MT, desde o ano de 2009.