ENOCK CAVALCANTI: Morte de Meneguini é um pouco a morte do jornalismo romântico e combativo, em Cuiabá

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Morte de Meneguini é um pouco a morte do jornalismo romântico e combativo, em CuiabáPor Enock CavalcantiPartiu mais um dos notáveis pioneiros do moderno jornalismo em Mato Grosso. Morreu na sexta-feira (11 de agosto), o fotógrafo e servidor aposentado do Estado Vanderlei do Carmo Meneguini, aos 72 anos. Vanderlei Meneguini estava internado desde 24 de julho com uma cólica intestinal, o estado de saúde foi se agravando e ele não resistiu. Meneguini era fotógrafo e servidor efetivo da Secretaria de Estado de Comunicação e se aposentou em 2018, com 37 anos de contribuição ao Estado. Mais do que isso, deve ser lembrada sua contribuição ao jornalismo nesta terra de Rondon.Natural de São José do Rio Preto, em São Paulo, Meneghini morava em Mato Grosso desde 1974, quando ingressou no Governo do Estado, na gestão do então governador Frederico Campos. Participou da implantação da TV Centro América, em Cuiabá. Talentoso, muito dedicado e profissional exemplar, Meneguini registrou com sua câmera momentos marcantes e históricos em Mato Grosso e ajudou a fortalecer, por mais de 3 décadas, o setor de comunicação do governo estadual. Também foi gerente de TI na Secom. Seria bom que a Secom MT montasse uma exposição com os melhores registros de fotógrafo tão ativo. Será que existe gente na Secom com empatia suficiente para implementar uma iniciativa como esta?!Meu contato mais próximo com Meneguini foi na redação do semanário Jornal do Ônibus, que ele comandava, em sua fase inicial, com Jê Fernandes e Mara Carnevale, em Cuiabá. Na mesma sala do prédio da Mitra Diocesana, ao lado da Livraria Janina, no beco da rua Antônio João, no centro de Cuiabá MT, os veteranos José Eduardo do Espírito Santo, José Maia de Andrade(sempre vestido de branco), o Villa Marcos Antônio Moreira e o jornalista e poeta Ronaldo Castro, tocavam o Correio da Semana.Foi um período de honrosa convivência para esse migrante que vinha de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, com uma turma que marcou época no jornalismo de Mato Grosso. O ataque e destruição por empastelamento da redação do Correio da Imprensa, durante o período da ditadura militar, em Cuiabá, é uma história que ainda não foi devidamente contada, para o perfeito conhecimento pelas novas gerações de jornalistas e por toda a nossa sociedade. Muita gente parece que prefere abafar por aqui o que representou, no comando do governo do Estado, a gestão do interventor Frederico Campos, revalorizado no final de sua vida como uma espécie de "bom velhinho". Sem medo de exagerar - eu que sempre procurei ser um exagerado, na bela tradição poética que nos legou o poeta Cazuza -, diria que a morte do Meneguini é um pouco a morte do jornalismo romântico e combativo que eu encontrava, sempre que visitava aquela redação do Jornal do ônibus e do Correio da Semana, no prédio da Mitra. As histórias eram muitas, a ironia imensa, os chistes memoráveis e ali estavam alguns cérebros realmente notáveis.Olho hoje em volta e vejo que ninguém fala mais, por exemplo, desse grande articulista, deste grande pensador do jornalismo mato-grossense, que foi o jornalista Zé Eduardo do Espírito Santo. Pelo que sei, foi um dos responsáveis pelo surgimento do Curso de Jornalismo na UFMT. Vejam só que ironia, nunca foi convidado a pontificar na faculdade que ajudara a implantar porque não tinha diploma, era da geração anterior aos diplomas. Escrevia textos que sempre cultuavam a nossa língua portuguesa e primavam pela apuração cuidadosa, pelo embasamento jurídico, pelo apoio de uma vasta documentação. Alguém, algum dia, cuidará de reunir os artigos candentes, as reportagens aprofundadas, a argumentação apaixonante que Zé Eduardo soube apresentar em defesa, por exemplo, da implantação da ferrovia em Mato Grosso, como um fator fundamental para o desenvolvimento econômico que se tem hoje neste Mato Grosso hegemonizado pelo Agronegocio. Ele também escreveu muito sobre Sudam, sobre incentivos fiscais manipulados e desviados na Amazônia, sobre a custosa montagem de um Mato Grosso que ao invés de priorizar o seu povo trabalhador, acabou virando pasto para a fortuna de ruralistas espertalhões.O prédio da Mitra me parece que é hoje um prédio entregue à exploração comercial por comerciantes de quinquilharias que a China nos empurra aos borbotões, todos os dias. A Janina transformou em depósito parte das salas. Sumiu também a pastelaria da familia dos Uema, onde eu gostava de parar para curtir um pastel com caldo de cana, relembrando minha adolescência de colegial nas ruas do centro do Rio de Janeiro, estudando na Escola Rivadávia Corrêa, defronte ao Campo de Santana e à Biblioteca Estadual Darci Ribeiro. Quem se lembra da redação do Correio da Semana e dos seus icônicos jornalistas?! Zé Eduardo do Espírito Santo, Jê Fernandes, Ronaldo de Castro estão tão esquecidos, tão enterrados tristemente na memória dessa capital de Mato Grosso pela qual tanto lutaram que não vejo uma homenagem sequer, em todo território cuiabano, para reverenciar e lembrar da combatividade destes jornalistas.Zé Eduardo do Espírito Santo, mais do que qualquer um, não merecia esse esquecimento, este desprezo, esta cova rasa. Muitas vezes, encontrava com ele, caminhando pelas ruas cuiabanas e era divertido ouví-lo argumentar que, apesar de aposentado, velho, claudicante, não coneguia se ver como um profissional “inativo”.Temo que o ativo e tão valoroso Vanderlei Meneguini acabe também como vítima deste descaso inexplicável para com os profissionais que tanto fizeram pela maturidade da imprensa e do jornalismo de Cuiabá, de Mato Grosso.Hoje, que as mulheres tomaram de assalto todas as redações de Cuiabá, seria bom se elas, além da profissionalismo, da criatividade, da beleza, trouxessem também a valorização da memória, como importante fator de construção de nossas habilidades.Além das fotos, Meneguini cuidava da diagramação do Jornal do Ônibus e também bancava o pioneiro, comercializando computadores que ele mesmo montava. Um profissional muito especial, um amigo sempre atencioso. Tive o privilégio de partilhar muitas das "confissões" que Meneguini fazia, discretamente, com relação ao jornalismo mato-grossense e algumas de suas figuras mais proeminentes. O corpo de Meneguini foi cremado. Vanderlei Meneghini deixa esposa, quatro filhos e quatro netos.
Enock Cavalcanti, 70, é jornalista, editor do blogue PAGINA DO ENOCK em Cuiabá, Mato Grosso, desde o ano de 2009.