Lúdio não diz toda verdade sobre “sacrificios” que fez pelo PTPor Enock CavalcantiCom as minhas responsabilidades de jornalista e analista politico neste Mato Grosso, com mais de 30 anos de atuação no Estado, com o reforço de minha militância partidária no PT, desde os tempos imemoriais do Movimento Pró-PT, em 1978, devo registrar que não avalio como válida a alegação do médico e atual deputado estadual Lúdio Cabral de que já fez demasiados “sacrifícios” pelo Partido dos Trabalhadores, em Mato Grosso, e que, por isso, prefere disputar a reeleição para deputado estadual pela legenda nas eleições deste ano 2022.Menos, Lúdio Cabral, menos.Lúdio Cabral é como aquele personagem Silva, criado pelo humorista Jô Soares: tem "o seu jeitinho" e com este jeitinho vai conseguindo mais êxitos que desgraças em sua caminhada, elogiado à esquerda e à direita por seu pretenso equilíbrio politico-parlamentar, seja como vereador da Capital, antes, e agora na AL-MT. Recentemente, vi na TV Cidade Verde, o apresentador bolsonarista Agnelo Corbelino, como Satanás diante de Jesus Cristo no deserto, derramar-se em elogios a Lúdio, argumentando que o petista, um parlamentar que descrevia como tão sóbrio, tão elegante, tão bom moço, contrariava a lógica mais elementar ao permanecer filiado a uma agremiação aparentemente tão repulsiva como o Partido dos Trabalhadores de Mato Grosso. Tá tudo gravado, para quem quiser rever o diálogo que achei deprimente. Lúdio, claro, se manteve estanque diante das lambidas que recebeu.Imagino que para Lúdio aquele discurso maquiavélico não foi nenhuma surpresa. Ele sempre tem se visto diante de manifestações assemelhadas porque, como jovem e bem falante médico e parlamentar, quase sempre não corre riscos desnecessários, não costuma fulanizar os seus ataques na tribuna ou fora dela e evita resvalar para os vícios e os discursos dos militantes da extrema esquerda - embora saiba sempre encontrar jeito e maneira de seduzir até os militantes da extrema esquerda do seu partido e de outros partidos.Mas não quero escrever uma nova Bíblia Sagrada. Quero apenas fazer um contraponto ao que Lúdio alegou recentemente.Lí agora no saite O Documento: "Lúdio afasta nova candidatura majoritára: “já me sacrifiquei duas vezes. Pretendo a reeleição”. Não serei eu, como velho blogueiro, a negar a importância da atuação do Lúdio Cabral como deputado estadual na legislatura que está findando este ano em Mato Grosso. Muito pelo contrário. Diante da pasmaceira que reina da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, quem olhar para o Legislativo mato-grossense não poderá deixar de enxergar Lúdio como um gigante entre muitos pigmeus. Só que sempre cabe uma leitura mais ampla de personagens como Lúdio dentro da História que todos nós estamos vivendo nessa contemporaneidade.Lúdio tem verbalizado, por exemplo, uma denuncia importante do domínio que os barões do Agro tem mantido sobre o Estado, aqui neste Mato Grosso de tantas riquezas estratosféricas e de tanta pobreza cidadã. A Casa de Leis estremece quando Ludio para para detalhar as vantagens que as espertas 7 mil famílias de ruralistas (relacionadas pelo Neurilan Fraga, da AMM) arrancam da maioria de nossa sociedade, faturando em euro e dólar, enquanto a maioria de nosso povo patina numa miséria que não fica a nada a dever aos cenários de padecimentos dos pobres descritos por Victor Hugo e Charles Dickens em seus livros mais pungentes. Ao ponto de escandalizar o mundo inteiro, atualmente, com o surgimento, aqui no bairro do CPA, em Cuiabá, de uma fila de subnutridos ávidos por consumir os ossinhos para a sopa que são distribuidos pelo açougue Atacadão das Carnes.Só que a História não é um poema em linha reta e entendo que essa história do doutor Lúdio se vitimar, dizendo que "já fez muitos sacrificios pelo PT" não pode prosperar sem que eu faça, humildemente, alguns reparos para tentar melhor situar, historicamente, o personagem.Eu sou daqueles que preferiria ver Lúdio Cabral não como um cético personagem de um poema de Fernando Pessoa mas como um daqueles miticos militantes desenhados pelo alemão Bertolt Brecht: "Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis."Tendo como referência o verso brechtiano, acho que posso dizer que, na história da esquerda mato-grossense, Lúdio parece escolher e trilhar aquele caminho dos que "lutam por muito anos e são muito bons". Quem há de negar?! No futuro, quando Lúdio passar, como tudo passa, sua memória não será jamais esquecida e teremos talvez até uma cidade chamada de Ludiolândia para reverenciar a memória deste médico e militante brechtianamente tão bom.Eu, todavia, dada a disposição da atuação política de Lúdio Cabral, entendo que tenho o direito de sonhar mais e pretender que Ludio, se se dispusesse a isso, poderia se fazer personagem de uma história bem mais radical, como um militante daqueles a quem sempre nos referiremos como “imprescindivel”.Diria, por isso mesmo, recorrendo agora ao futebol, que Lúdio prefere, na politica, não atuar como um centro-avante cavador, daqueles que invade a área, como Hulk do Atlético Mineiro e Karim Bezema, do Real Madrid, sempre desafiando as caneladas e porradas dos zagueiros adversários. Lúdio parece que nasceu para ser um meia armador, dentro de minha fábula futebolística, e isso, claro, faz dele um político admirável, muito bom, merecedor de todas as homenagens que venha a receber, em vida, e depois dela.Como, no futebol brasileiro, consagramos Didi, Gerson, Tostão.Mas o fato é que não posso me calar quando vejo Ludio dizer que já fez muitos “sacrificios” pelo PT.Principalmente porque eu tive a oportunidade de registrar neste meu blogue que o Lúdio não havia sido, originalmente escalado para disputar o Governo do Estado pelo Partido dos Trabalhadores, em 2014. Se outros não prezam o resgate histórico, eu prezo.Não houve nenhum “sacrifício” do Ludio, naquela oportunidade, ele atuou, pelo contrário, com muito esforço para romper um acordo partidario que definira que o candidato do PT, apoiado pelas mais diversas correntes internas, deveria ter sido o juiz Julier Sebastião da Silva que resolvera então abandonar os quadros da Justiça Federal para assumir a atuação político-partidária no PT. Eu, inclusive, participei de um dos encontros, na casa do Julier, no Jardim Itália, em Cuiabá, onde este acordo foi pacificado. Sim, houve um tempo que, na militância, eu frequentava este tipo de reunião. Hoje apenas conto minha versão dos fatos.Só que não escrevo sobre isso agora, já escrevi vários artigos sobre isso, como esse artigo publicado aqui em 11 de março de 2014, como se pode conferir neste link:https://paginapublica.com.br/o-melhor-detergente-e-a-luz-do-sol/leitura-equivocada-de-ludio-do-atual-momento-politico-provoca-novo-racha-no-pt-candidatura-a-governador-alimentada-por-parceiros-opositores-do-pt-como-valtenir-e-bezerra-pode-comprometer-oportunid/
Fico me perguntando, por isso, se o hoje deputado estadual Lúdio Cabral, que hoje choraminga e se queixa de ter ficado seis anos sem mandato por conta dos tais “sacrificios” que teria feito pelo PT, teria enfrentado esses “sacrificios” se, em 2014, com um pouco mais de disciplina partidária, tivesse respeitado o combinado entre diferentes correntes do PT, e não tramasse contra a candidatura de Julier para governador e se contentasse em disputar e, muito provavelmente, se eleger como deputado federal pelo PT-MT, tendo a oportunidade de se projetar nacionalmente. Ah, Lúdio certamente teria cumprido um outro destino, com menos dores e não falaria hoje em “sacrificios” - 'sacrificios' estabelecidos, vejam só, por suas próprias escolhas. E teria também contribuido para projetar o juiz Julier de uma forma que esse notável personagem não conseguiu até agora.Com o ego inflado, naquela época, Lúdio tocou o horror dentro da coligação do PT com o PMDB e acabou destronando Julier, em trama que, como voce pode conferir no link acima, eu comparava, querendo parecer pomposo, a uma verdadeira tragédia shakespeariana.O fato, opinava eu, então, e opino agora, é que não houve sacrificio nenhum pelo PT.Lúdio Cabral tramou contra a candidatura Julier com uma sede de poder que, agora neste ano de 2022, parece estar bastante atenuada. Agora Lúdio parece ter abandonado o afogadilho. Ele sabe que o cavalo pode passar arriado diante dele mais adiante. Mas que não venha distorcer nem os fatos nem a história. Se ele, dessa vez, não quer se arriscar para disputar o Governo do Estado em nome do PT, quando tem todo o respaldo popular para isso, e a conjuntura favorece a sua candidatura, que, pelo menos, não fale em “sacrífico” e reconheça que esta sua decisão de agora é resultado de um cálculo politico muito bem urdido.Quem sabe mais maduro, pai de cinco filhos, bem acomodado no gabinete da Assembleia, sem polemizar muito espertamente com as patifarias que marcam a atuação da Mesa da Assembleia, ele agora parece que não se deixa dominar por aquele arroubo político que o dominou em 2014, quando ele, aliado a Ságuas Moraes, Bezerra e Valtenir, detonou toda uma construção interna, dentro do PT, que se definira pela candidatura de Julier Sebastião.Isso, pra mim, é História. Não cabe chororô. Mas deixa patente para mim que, na cabeça de Lúdio Cabral, os interesses do conjunto dos Partido dos Trabalhadores, como eu os avalio, mais uma vez, não são tão prioritários assim para ele. Ou ele faz um leitura da realidade queé completamente diferente da minha, o que não é um crime. Ele alega, agora, que o PT tem outros nomes gabaritados para a disputa. Ora, mas o que vejo, com meus olhos vesgos, é que a direita partidária, sempre capitaneada pelo velho metalúrgico Lula, atua para que nomes de fora do partido, como o prefeito José Carlos do Pátio (Solidariedade) e o deputado estadual Max Russi (PSB) possam vir a ser os candidatos apoiados pelo PT em 2022. À medida que Lúdio se esquiva, forças de fora do PT voltam a forçar a porta, como já fizeram os ruralistas anos atrás, impondo coligações em torno de Mauro Mendes e Blairo Maggi, descaracterizando a caminhada do partido que desde então claudica em Mato Grosso, conspurcada pelo bafo dos ruralistas que submeteram o partido. E essa seria a hora de o PT enfrentar com garra o Agronegócio, e não mais uma vez se submeter a ele, escalando para o enfrentamento quem já tão competentemente faz esse enfrentamento da tribuna do parlamento estadual.A história se repete como tragédia ou como farsa. A muito citada frase daquele velho escritor e sonhador chamado Karl Marx, na abertura de “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte,” de 1852, ainda que se refira a outros contextos e à conjuntura política da França do século 19, deve servir como referencia às reflexões dos petistas mato-grossenses neste ano de 2022, onde o mais lógico, me parece, seria ter o deputado estadual Lúdio Cabral, mesmo com a sua egolatria registrada nos bastidores, como candidato do PT a governador. Eu, modestamente, lamento que Lúdio prefira a acomodação. O PT, no Estado, já perdeu muito com personagens como Alexandre César, Valtenir Pereira, Serys Slhessarenko, Domingos Bonitinho e Ademir Brunetto que, depois da histórica caminhada, acabaram deixando o desgaste dos seus afastamentos consumir parte vital da força partidária. Tudo isso, no final das contas, porque o PT talvez não tenha estado, de fato, nos seus corações e nas suas mentes.Enock Cavalcanti, 68, é jornalista em Mato Grosso e editor deste blogue PAGINA DO E, a partir de Cuiabá-MT, desde 2009.PS: Vejam que não escrevo nada sobre o enorme desgaste que representou, na campanha de 2014, o fato do PT tentar figurar como continuador da gestão de Silval Barbosa. Mas como disse que não estava disposto, neste artigo, a escrever uma Biblia Sagrada, deixo este aspecto do “causo” para outra oportunidade ou para analista mais competente do que eu...PS2: Como falei em Shakespeare, recomendo o filme recente “A Tragédia de Macbeth”, do diretor Joel Coen, estrelado por Denzel Washington e Frances McDormand, baseado na peça do bardo inglês. Encenações como essa provocam sempre oportunas reflexões.