ENOCK CAVALCANTI: Debater aborto, sim, para curar dor das mulheres

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Debater aborto, sim, para curar dor das mulheresEnock CavalcantiMeus amigos, meus inimigos: o velho metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva, por muitos e muitos motivos, incorpora hoje a nossa esperança, a esperança de tantos e tantos brasileiros. Como conseguiu se firmar como principal liderança de esquerda no País, sua mística resiste aos anos, entre tapas e beijos. Lula é a voz rouca das ruas. Lula incorpora os desejos despedaçados de uma imensa legião de nossos cidadãos e cidadãs, sempre subalternizados, através de séculos tão sofridos.Os negros pisoteados pelo preconceito infame, desde que o primeiro negro, tratado como animal irracional e sem alma, veio acorrentado e arrastado para esse País, servir como escravo à bestialidade de alguns brancos endinheirados. Os homossexuais que muito gostariam de torturar, ferir, matar, pelo simples fato de erotizarem zonas de seus corpos que ficaram de fora do receituário do prazer judaico-cristão que tantas inquisições nos introjetaram pela goela (ou pela bunda?) a dentro. Os indígenas que, na lógica da acumulação capitalista, valerão sempre menos do que os vis metais que tem enterrado nos territórios sobre os quais insistem em viver, e que ainda conseguem chamar de seus.Até a flora, as árvores ameaçadas nas florestas cada vez mais derrubadas e incendiadas. Até a água que ainda corre serena por rios e riachos e corixos. Até o oxigênio que respiramos, os sonhos que guardamos em nossas cacholas. Nossa brejeirice, toda essa riqueza material e imaterial que forma essa nação, este País tropical, abençoado por deus e bonito por Natureza.Vivemos aquele momento da História em que muito depende de Lula - e de até aonde ele nos será capaz de conduzir. Se Lula existe, é porque ele é uma possibilidade que a Natureza criou, através dos descaminhos da condição humana, nessa eterna disputa entre civilização e barbárie. Lula é um signo, um sinal, uma estrela.Esses dias, Lula falou dos abortos clandestinos que seguem sendo uma das principais causas de morte materna no Brasil, segundo dados do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) da Fiocruz - Fundação Oswaldo Cruz. Lula botou um dos nove dedos que lhe restam nesta ferida, nesta sangria desatada que sacrifica a vida de tantas e tantas mulheres em Mato Grosso e pelo Brasil a fora, essa nação, repito ecoando Jorge Ben, abençoada por deus e bonita por natureza.Mas que deus cruel e assassino é esse que deixa tantas mulheres sangrarem e morrerem pelos anos afora, sem que se consiga firmar política publica para encarar, identificar perfeitamente e resolver essa chaga social sempre aberta em nossa adoecida sociedade?!Lula é a voz rouca das ruas que clama, que fala do problema do aborto, uma dor que tantos tentam calar nas gargantas amordaçadas de nossas mulheres.A OMS - Organização Mundial da Saúde define a morte materna como aquela morte que é resultado de problemas ligados à gravidez ou por ela agravados, ocorridos no período da gestação ou até 42 dias após o parto.  A razão de morte materna ultrapassa os valores de 50 por 100 mil habitantes no Brasil. Segundo a OMS, os números deveriam ser inferiores a 20. Os dados sobre abortos no Brasil são muito, muito imprecisos - claro, já que ninguém quer encarar o problema de frente, quase todos desconversam, baixam a cabeça diante dessas mulheres que sangram - mas, sempre segundo a OMS, um total de 73,3 milhões de abortos seguros e inseguros ocorreram no mundo anualmente entre 2015 e 2019 e, na América Latina, três em cada quatro abortos foram feitos de forma insegura. Como aquele aborto que a personagem de Marilia Pêra, no filme “Pixote”, de Hector Babenco, faz com uma agulha de tricô.Lula fala porque certamente percebe o que dói no ventre das mulheres brasileiras, notadamente das mulheres pobres e pretas, pobres e faveladas, pobres e miserabilizadas, pobres e afastadas dos beneficios mais elementares da civilização.Para os abortos das mulheres de classe media e das camadas mais ricas da população, existem clínicas muito sofisticadas, faturando cada vez, apesar de toda a proibição que a legislação impõe, pretensamente, a todas as mulheres brasileiras. Só que algumas mulheres, devido à classe social a que pertencem, jamais entraram no foco das políticas e da polícia repressora. A hipocrisia social no Brasil não tem tamanho.E não é só a policia que aparece para reprimir as mulheres na hora em que elas decidem abortar.Em recente depoimento à Agência Pública, a pesquisadora Emanuele Goes, da Fiocruz Bahia, declarou em tom peremptório: "Existe um estudo no Rio de Janeiro que mostra que as mulheres negras são as mais criminalizadas pelo profissional de saúde, são as mais denunciadas e acusadas de realizar aborto provocado, mesmo quando afirmam que o aborto foi espontâneo. As mulheres negras são colocadas em dúvida muito mais do que as mulheres brancas, porque para as mulheres negras esse lugar da maternidade não existe, presume-se que todos os abortos das mulheres negras são abortos provocados, não são espontâneos."O que Lula cobra das autoridades públicas, o que Lula cobra de todos nós, é que realidades como esta não fiquem mais escondidas nas gavetas dos serviços de Saúde do Brasil. Que as dores das mulheres na hora de abortar sejam bem identificadas e possam ser assumidas como um problema de saúde pública - como aliás já vem sendo feito, há muitos anos, nos países civilizados deste planeta. Quase dois terços das mulheres do mundo atualmente residem em países onde o aborto pode ser obtido mediante solicitação por uma ampla gama de razões  sociais, econômicas ou pessoais. Na Argentina, no Canadá, nos Estados Unidos, na Colômbia, em práticamente todos os países da Europa, inclusive em Portugal, nosso avôzinho.Por que então essa maldição pesa sobre nós, por que as mulheres brasileiras, nesta nação imensa, tem que continuarem submetidas a este suplício sem fim?!Tava faltando alguém gritar. E o velho metalúrgico Lula soltou o seu grito de alerta. Não dá mais pra segurar.É importante trazermos e sustentarmos e ampliarmos essa discussão, de que a criminalização não irá proibir as mulheres de abortar. É um fenômeno que está no nosso cotidiano, é milenar. Tanto o aborto quanto o parto estão no nosso dia a dia, por mais que se procure tirar da pauta esta discussão. As mulheres continuam a sangrar nos porões fétidos de nossa brasilidade.O aborto é questão milenar. Realidade tão presente no cotidiano das pessoas que mesmo lá nos escritos da Biblia Sagrada, no livro de Exôdo, pouco depois de falar com o patriarca Moisés sobre os Dez Mandamentos que seu povo deveria respeitar, o Deus Jeová aparece também conversando com Moisés sobre o aborto. O que foi que Deus prescreveu então sobre o aborto?! De acordo com o que qualquer um pode conferir no capitulo 20, do livro do Exôdo, versiculo 21, Deus falou o seguinte: “Se alguns homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não resultando, porém, outro dano, este será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes; mas se resultar dano (à vida da mulher), então darás [como pena] vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe”.Vejam que o próprio Deus, em nome do qual tantas danações se lançam contra a mulher que aborta, ainda hoje em dia, naquele tempo em que Moisés vagava com seu povo pelo deserto, já demonstrava uma compreensão do aborto que parece que jamais será devidamente entendida pelos Gilberto Cattani e demais deputados da Assembleia Legislativa de Mato Grosso que, essa semana mesmo, resolveram repudiar Lula simplesmente por querer que o Brasil e os brasileiros coloquem a questão do aborto em pratos limpos, ou melhor dizendo, em enfermarias devidamente asseadas para tratar com dignidade as mulheres que procurarem médicos e serviços de Saude por causa de um abortamento.Sim, Lula falou do aborto. E o Brasil precisa ouvi-lo.É claro que devemos respeitar as convicções de todos os que sejam contra o aborto. Esse respeito se expressa quando os deixamos livres para jamais submeterem-se ao procedimento, seja a gravidez perigosa para a mãe, fruto de um estupro ou que traga em si fetos com deformidades incompatíveis com a vida extra-uterina. A decisão deve caber a cada mulher, pois o corpo é da mulher e a decisão sobre este corpo deve caber, prioritariamente, à própria mulher.A legalização possível e necessária não significa, portanto, obrigatoriedade. Cada mulher estará autorizada a agir segundo as convicções pessoais e religiosas que adotar. Numa sociedade democrática, todavia, há que se saber conviver com a possibilidade de que existam opções de vida diferenciadas. O importante é que, dentro da Democracia brasileira, as mulheres constrangidas a abortar possam expor dignamente esta sua situação nos serviços públicos de Saúde – e serem tratadas com respeito, e com urgência, de acordo com o seu interesse.Lula é a voz rouca das ruas que clama, que fala do problema do aborto, um dor que tantos tentam calar nas gargantas amordaçadas de nossas mulheres. Precisamos ouvir o velho metalúrgico.Enock Cavalcanti, 68, jornalista, é editor do blogue PAGINA DO ENOCK, em Cuiabá, MT, desde 2009.