ENOCK CAVALCANTI: A contradição de Maysa Leão, feminista e bolsonarista

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A contradição de Maysa Leão, feminista e bolsonaristaPor Enock CavalcantiA vereadora cuiabana Maysa Leão faz questão de mostrar, em suas redes sociais, que é bonita e charmosa. Personalidade midiática, antes de ser vereadora, são muitas as fotos dela posando, através dos anos, em ambientes requintados, mostrando sua família feliz, seus amigos e amigas descolados, suas viagens pelos quatro cantos do Brasil e do mundo, as roupas elegantes que veste, as comidas gostosas que consome, o corpo bonito que ela mantém sempre saudável. A vereadora Maysa Leão é uma vereadora da alta classe média cuiabana que se esforça por mostrar seu pretenso compromisso social, assumindo as bandeiras do feminismo e a defesa dos autistas, sempre se mantendo como consumidora de alto padrão. Maysa Leão talvez seja candidata a se tornar uma Marta Suplicy pantaneira, já que a histórica sexóloga paulista também é charmosa e sempre ergueu bandeiras em favor da emancipação das mulheres.Nesses últimos dias, a vereadora Maysa Leão ganhou importância diante desses meus olhos míopes e esquerdistas porque assumiu o confronto com esse bolsonarista raiz que é deputado lá de Sinop, o notório Gilberto Cattani, que já virou uma espécie de ogro reacionário e emblemático de Mato Grosso, conhecido e repudiado não só aqui em nosso Estado, mas também pelos quatro cantos do Brasil, devido aos exageros em que incorre para pontificar como liderança dos bolsões da extrema direita.Na semana que passou, Maysa Leão foi vista chorando durante discurso na tribuna da Câmara Municipal de Cuiabá, mais precisamente na manhã da quinta-feira (31 de agosto), ao relatar as ameaças de estupro por conta de um vídeo dela que teria sido recortado e divulgado, com intenções de queimá-la dentro dos grupos conservadores de Mato Grosso e pelo Brasil afora, numa iniciativa que, segundo ela, seria do deputado estadual Gilberto Cattani, o parlamentar super conservador lá de Sinop, MT.Com a manipulação do video, Gilberto Cattani, pelo que relatou a própria vereadora, teria procurado fazer crer que Maysa Leão contemporiza com estupradores de mulheres. Diante de um ataque tão vil, uma vez comprovada a manipulação do vídeo, Maysa Leão merece nossa solidariedade. Mais do que isso, merece que lutemos ao lado do dela para deter mais essa nova arremetida do bolsonarista Cattani, sempre preocupado com a defesa da mais tradicional e careta das familias brasileiras.Na tribuna, Maysa Leão alegou temer que os crimes saiam do virtual para o real e garantiu que o deputado Cattani incitou o público que ele cativa em suas redes sociais ao crime de ódio contra ela, Maysa Leão, além de tê-la caluniado e difamado.“Se a minha filha morasse em Cuiabá, eu não permitiria que ela saísse nas ruas. Esse ódio não é digital, é real. Isso é instigar as pessoas a atacarem as outras. O risco de um fanático, lunático desses, querer fazer justiça com as próprias mãos é um risco real” - protestou Maysa Leão na tribuna, conforme registrou o saite Conexão Mato Grosso, editado pelo jornalista Rogério Florentino.O vídeo que Gilberto Cattani é acusado de ter recortado teria sido tirado de uma entrevista que a vereadora Maysa Leão deu a um programa de podcast falando sobre o método de punição que prevê a castração química para pessoas acusadas e condenadas por estupro. Maysa Leão se posicionou contra a adoção dessa tal castração química no Brasil, o que não agradou ao Gilberto Cattani que, pelo que ele mesmo tem dito, tem se posicionado como um defensor ardoroso desta proposta de castração.“Ele pega um diálogo de sete minutos sobre uma questão e publica 90 segundos, dando a entender que eu sou uma defensora de estupradores. Quando ele publica isso, ele põe “opinem, julguem”, instigando o julgamento de sua audiência sobre uma questão que ele recortou e colocou de forma extremamente irresponsável uma atribuição a minha conduta. Eu fui condenada e julgada na rede social no deputado Cattani” - reclamou Maysa Leão, em seu choroso protesto na tribuna da Câmara de Cuiabá.Pelo que contou a vereadora, a reação dos seguidores de Gilberto Cattani foi a de condená-la, a partir do recorte de vídeo publicado pelo deputado, chegando alguns a desejar até que ela, sua mãe e sua filha de 19 anos fossem estupradas. O vídeo, segundo a vereadora, continua no ar. Maysa Leão contou que, impactada pelo vídeo, procurou contato com Gilberto Cattani pelas redes sociais mas que teria sido ignorada. Depois disso, procurou o deputado de forma privada e mandou ofício para seu gabinete na Assembleia Legislativa de Mato Grosso, procurando minorizar o bafão. A vereadora recebeu como resposta que o deputado não iria apagar a postagem e que ela teria entrar na justiça para tentar remover o conteúdo.Depois de receber a resposta malcriada do gabinete de Gilberto Cattani, a vereadora Maysa afirmou em alto e bom som que irá registrar boletim de ocorrência, acionar o deputado de Sinop na Justiça e que também entrou em contato com a deputada estadual Janaina Riva, líder da Procuradoria Especial da Mulher e presidente da Comissão de Ética da Assembleia Legislativa para ver se consegue botar um freio nas investidas de Gilberto Cattani contra ela. Maysa Leão parece temer que os ataques e baixarias do deputado bolsonarista contra ela e sua família continuem e acabem criando uma situação ainda mais conflituosa.A vereadora Maysa Leão, vejam só, que procura sempre se apresentar nas suas redes como uma senhora bonita e charmosa, ao adentrar na arena política e ao assumir a bandeira do feminismo, talvez mesmo sem querer, acabou por assumir algumas lutas espinhosas. Por tudo que se vê, não é fácil defender bandeiras feministas neste Estado extremamente machista que é o Mato Grosso e nesse País extremamente machista que é o Brasil. "Só quem provou sabe como dói" - já vaticinou o poeta popular. Mudar a realidade da submissão das mulheres diante do poder dos machos, em nossa sociedade, não é questão que se resolve de um dia para o outro, como já se viu nos estudos de Friedrich Engels, Simone de Beauvoir e tantos outros.Só que eu, velho blogueiro, com 40 anos de atividades jornalisticas neste Estado, digo que pior, ainda, é a contradição em que mergulhou a bonita e charmosa feminista Maysa Leão, porque, pelo que vejo e acompanho no noticiário, Maysa Leão tenta se firmar como política feminista atuando dentro de uma corrente partidária que acaba sendo a mesma do deputado Gilberto Cattani - a corrente do Bolsonarismo. Se Maysa Leão fizer uma pesquisa, por mais rala que seja, vai ver que feminismo não rima nem combina com bolsonarismo. Muito pelo contrário.Maysa Leão, da fina flor da melhor sociedade cuiabana, já foi do Cidadania (ex-PPS, ex- Partido Comunista Brasileiro). Por interesse eleitoral, para fazer campanha ao lado do escorregadio mas também metido a charmoso vereador Felipe Wellaton, que aparece como um dos seus padrinhos, Maysa Leão acabou se transferindo, com todas suas belas poses, com suas ótimas amizades, com seu marcante padrão de vida, para o partido Republicanos - que vem a ser uma das muitas correntes do Bolsonarismo no Brasil. Basta lembrar que esse partido já teve como um dos seus filiados de destaque o atual senador Flávio Bolsonaro, um dos filhos queridos do ex-presidente Bolsonaro, tantas vezes deputado federal.Ou seja, Maysa Leão não percebeu mas seguiu Wellaton para uma verdadeira Cova dos Leões, como na parábola bíblica de Daniel. (Conferir no sexto capítulo do Livro de Daniel, na Bíblia Sagrada.)O que me leva a concluir que tanto a Maysa Leão quanto o Gilberto Cattani, estiveram juntos, em Mato Grosso, fazendo campanha pela reeleição do capetão Jair Bolsonaro, no ano da graça de 2022, e do governador Mauro Mendes, que é outro bolsonarista. Talvez não se encontraram em um mesmo palanque eleitoral mas foram vozes uníssonas que contribuíram, ao lado de figuras como Otaviano Pivetta, Gisela Simona, Mauro Carvalho, Júlio Campos, Eduardo Botelho, Wellington Fagundes, Abilio Brunini e tal e tal para que este Estado de Mato Grosso, se firmasse nas estatísticas e no noticiário, e ficasse conhecido pelo Brasil e pelo mundo afora, como o Estado mais bolsonarista do País.Então, avalio, humildemente, que há um erro de origem nesta opção política feita pela senhora Maysa Leão porque, ao abraçar Bolsonaro, ela também abraçou, por mais contraditório que possa parecer, o sr. Gilberto Cattani. Todo mundo conheceu, nestes últimos anos, as repulsivas manifestações machistas, homofóbicas, preconceituosas, e mesmo criminosas, segundo a legislação brasileira, expressas por Bolsonaro, conforme farta documentação à disposição de todos e também da senhora Maysa Leão, que está longe de ser uma pessoa ingênua. Bolsonaro é o modelo, a referência política e ideológica que Gilberto Cattani procura seguir com fidelidade, tentando fidelizar o mesmo gado, a mesma parcela do eleitorado que deu mais de 50 milhões de votos para a extrema direita no Brasil e liderou as estatísticas eleitorais neste confuso Mato Grosso. E eu não soube, na minha ingenuidade, de nenhuma manifestação sequer da hoje vereadora Maysa Leão, que também tentou ser deputada estadual apoiada por Wellaton, contra o ambiente antifeminista que sempre reinou nas hostes do Bolsonarismo.Então, me parece que, como a vereadora Maysa Leão defende teses feministas e confronta o machismo exarcebado e repulsivo de Gilberto Cattani - denunciado nacionalmente, muito recentemente, por comparar mulheres e vacas - ela precisa resolver, antes de qualquer coisa, essa contradição de princípio que é tentar ser uma bolsonarista limpinha e cheirosa, que trabalha pelo Bolsonarismo, que vibra com as teses de Michele Bolsonaro, que adora posar ao lado da deputada extremamente bolsonarista Amália Barros, porque, imagino eu, essas são manifestações que entram em forte contradição com a sua opção pretensamente feminista e libertária.Manifesto minha mais irrestrita solidariedade à vereadora Maysa Leão, nesse momento em que ela é alvo desta truculência criminosa que ela aponta que estaria sendo articulada contra ela pelo deputado estadual Gilberto Cattani. Truculência que ela denuncia da tribuna da Câmara de Cuiabá e também que estaria denunciando junto às autoridades da Policia Civil e do Judiciário de Mato Grosso. Mas avalio que a senhora Maysa Leão precisa entender melhor o campo onde está pisando e o caminho que ela está querendo seguir. Assumir bandeiras feministas, defender as mulheres e as minorias sociais, atuando na mesma corrente política ao lado de bolsonaristas já apontados como extremistas como Gilberto Cattani, Amália Barros, Michele Bolsonaro e Jair Bolsonaro, pode ser uma demonstração, como diria Nelson Rodrigues, de má fé cínica ou obtusidade córnea. Desse jeito, Maysa Leão cai em severa contradição consigo mesma e, para ser feminista libertária, de fato, ela precisa se livrar desse encosto do Gilberto Cattani, desse encosto que lhe fazem todos os bolsonaristas e descobrir, quem sabe, um caminho novo.Ah, sim. Reparei que em suas redes, a senhora Maysa Leão, apesar de militar em favor do Bolsonarismo, tem evitado falar de Bolsonaro. Um silêncio omisso, eu ousaria dizer, porque quem cala e consente, apesar dos seus arroubos feministas, que o Bolsonarismo continue a grassar no seu entorno, com sua inegável contribuição, tá querendo enganar a quem?!
Enock Cavalcanti, 70, jornalista, é editor do blogue PAGINA DO ENOCK, publicado a partir de Cuiabá, desde o ano de 2009.