EDUARDO GOMES: Desprezado por patrões do jornalismo, políticos e anunciantes, veterano jornalista volta a anunciar seu afastamento da profissão. “A idade, o cansaço natural contra o qual luto sempre, o desgaste pela longevidade na atividade, a visão monoc

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Quando 2023 vierPor EDUARDO GOMESPrisão informal no sentido mais amplo da palavra. Assim é o jornalismo artesanal de sobrevivência Brasil afora. Esse é meu universo, há algumas décadas entre quatro imaginárias paredes, que mesmo abstratas impedem o ir e vir, o intenso contato com o mundo exterior, que é longe da cela criada pela mente e que sequer tem ao lado população carcerária para convívio.Você escreve um dia, uma semana, um mês, um semestre, um ano, algumas décadas e avança pelo tempo. Em determinado momento o pensamento vagueia e por mais que se esforce não é possível reencontrar o tempo vivido, como se a vida fosse constante prática do esquecimento do ontem restando somente o hoje e a preocupação com a pauta do amanhã.A pesada rotina, de 10, 12 ou 14 horas por dia – inclusive aos domingos – escrevendo automatiza o jornalista. Nem mesmo na arena vendo o time do coração é possível desligar a tomada que une o torcedor ao jornalista. Entre um lance e outro a memória está sempre armazenando imagens dentro e fora das quatro linhas para uma reportagem, nota, artigo ou editorial.Nenhuma ruptura é fácil. Antes, tentei dizer adeus por duas vezes, mas não tinha condições de assegurar minha manutenção fora do jornalismo. Agora, a idade, o cansaço natural contra o qual luto sempre, o desgaste pela longevidade na atividade, a visão monocular, doenças naturais na terceira idade e o desencanto com a falta de remuneração que permita – pelo menos – o equilíbrio das contas, sugerem a palavra: chega. Não será de uma hora para outra, mas o mais rápido possível, para que 2022 seja o ano do adeus sem drama.Dentro das minhas limitações sempre fiquei ao lado do abençoado e ensolarado Mato Grosso. Fui mantido à distância pela classe política – tem a exceção que não lota Kombi – e pelas organizações sindicais. Não tenho jornalismo palatável para os que precisam do silêncio. Com um texto fraco, pobre e periférico busquei espaço vendo do outro lado da vida tantos valorizados jornalistas verdadeiramente jornalistas para os padrões convencionais do poder mato-grossense.No último ato jornalístico agradecerei, falarei das emoções vividas, das poucas conquistas, dos fracassos e das dores, mas não terei texto para mágoas, pois não sei guardá-las, graças a Deus.Enquanto isso, a vida segue rotineira com minha permanente gratidão ao Senhor Jesus Cristo. Não há preocupação em limpar gavetas, pois sequer possuo bens materiais, e o que tenho de valor afetivo não entra em redação.Continuemos juntos até a hora do adeus silencioso.EDUARDO GOMES é jornalista e editor do Blogue do Eduardo Gomes, em Cuiabá, MT