EDMUNDO ARRUDA JR: Agora a CPI do golpe parece incontornável. Lula não deve temer a verdade, as absurdas ideias conspiratórias da extrema direita bolsonarista, segundo as quais o 8 de janeiro foi orquestrado pelo governo, não resistem ao menor esforço lóg

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O 8 de janeiro" narrativas e fatos*

Por Edmundo Arruda Jr

O Rei pode não estar nu, mas quase. Em francês temos a expressão apropriada: emmerdé. Uma anedota vem à mente. Um domador de leões de circo, num daqueles dias em que o animal volta a ser animal, atacando-o. Apavorado o domador mete as mãos na cueca e passa as fezes na cara do leão, assustando-o.Amigos bolsonaristas, não necessariamente terraplanistas ou obscurantistas regozijam-se com as surpreendentes imagens reveladoras de outra faceta do dia 8 de janeiro. Refiro-me aos bolsonaristas convencidos de que as eleições foram fraudadas (primeiro e segundo turnos). Eles aproveitam as manchetes de ontém para zoar o governo, sugerindo outra fraude. Antes, aos fatos.Nada poderia complicar mais, em momento tão delicado e de tantas indefinições (nas políticas interna e externa), que os vídeos comprometedores. Já havia desconfortos a cada desatino de um presidente confusamente professoral. Disparates de Lula eram reproduzidos pelos leguleios e puxa-sacos da Corte.E daí surge uma bomba no meio da desordem, a matéria da CNN-Brasil na qual funcionários do governo transitam amigavelmente junto com golpistas naquele 8 de janeiro.As imagens até ontem interditadas oficialmente deixam claro que os eventos do dia 8 de janeiro precisam ser investigados, agora com um vetor intrigante: a presença de funcionários do GSI e o seu diretor geral, general Gonçalves Dias, na cena do crime. Uma presença curiosa e estranha, não por estarem lá (é o local de trabalho deles) num domingo (nada anormal), mas pelo comportamento amistoso com apertos de mão e oferta de água mineral aos vândalos.Muitas questões devem ser respondidas não somente pelo general e pelo capitão, ali presentes entre os invasores, dóceis e educadamente a abrir portas aos criminosos. Há que se averiguar a teia dos envolvidos. Antes, algumas observações.Não é crível a anuência de Lula com a invasão dos três poderes em Brasília, da mesma forma que não parece aceitável Bolsonaro ter envolvimento direto com o assassinato de Marielle (2018), ou de Lula na morte de Celso Daniel (em janeiro de 2002, coincidentemente), ou de algum grupo de esquerda no atentatório contra Bolsonaro, em 2018.Agora que a CPI do golpe parece incontornável. Os brasileiros terão a oportunidade de saber mais sobre as justificativas do caráter secreto dos videos; quais as informações Flávio Dino e outras autoridades tinham dos fatos anteriores e posteriores à invasão; o que os funcionários do GSI fizeram ou poderiam ter feito. William Waack, sugerindo ausência de heroísmo, esperava, ao menos, um "socorro na cara" do general. Piada?Lula não deve temer a verdade, pois até agora as absurdas ideias conspiratórias da extrema direita bolsonarista, segundo as quais o 8 de janeiro foi orquestrado pelo governo, facilmente caem por terra, não resistindo ao menor esforço lógico à luz dos fatos. Tratou-se de um movimento previamente organizado e financiado por setores reacionários já identificados, muitos já presos. Então restam muitas questões a serem respondidas sobre o 8 de janeiro.Muitos chicoteiam o general Gonçalves Dias por estar no Palácio em pleno domingo, tendo lá chegado quase duas horas antes da invasão. Não há dúvidas sobre a lealdade do militar a Lula. Desmerecer o currículo do general, sua promoção a general de divisão por Lula, não tem sentido e parece algo abjeto. Ele e o capitão Paulo Pereira serão decisivos para elucidar ligar alguns pontos. Com certeza ambos terão esmiuçadas suas redes de comunicação, principalmente durante o ocorrido.Enquanto as investigações dos depredadores prosseguem, e até que se tenha uma CPI instaurada, temos que afastar os argumentos conspiracionistas chulos e aqueles que operam a inversão dos fatos. Ou vamos ter que engolir absurdos tais quais os que afirmam que o 8 de junho nada teve a ver com bolsonaristas, pois nessa narrativa estapafúrdia, petistas fantasiados de bolsonaristas seriam os protagonistas do golpe dia 8 de janeiro de 2023.Na mesma lógica enlouquecida das fake news que movem os crentes na fraude e na "armação" do golpe (contra quem mesmo?) não vai demorar muito para se acreditar que a Ucrânia é que invadiu a Rússia.Cuidado. Há muitos leões e hienas no circo do zoológico ornitorríntico._____* Edmundo Lima de Arruda Jr20.4.23

A bola de cristal de Nassif*

Por Edmundo Arruda Jr

Luis Nassif, um jornalista respeitado, sai em espirituosa e direta defesa do governo ("A conspiração que derrubou o Chefe do GSI", 20.4.23). Árdua a tarefa do jornalismo em tempos turvos que tumultuam a isenção imprescindível em momentos de guerra de torcidas. Tentar o impossível para atingir o possível, dizia Max Weber.

O grande Nassif esboça com notória destreza uma contra-narrativa no caso das imagens do Ministro de Lula, General Gonçalves Dias no olho do furacão doa 8 de janeiro de 2023. Trata-se de general de divisão, três estrelas, e não um "oficial da mais alta patente no Exército", como coloca Nassif, pois não se trata de general de Exército, ou quatro estrelas. Pouco importa, o inegável é que Gonçalves Dias estava ali, passeando junto aos criminosos naquele fatídico na hora dos crimes.

Nassif acredita em engenhosa montagem de imagens e na oportunista manipulação de informações contra o governo, articulada a outras coincidências e interesses em desestabilizar o status quo.

Nassif é um incansável crítico e excelente profissional. Pode ter parcelas de razão, ou não. Acertar e errar, como todo humano. Ser passional ou não. O tempo regressivo a todos envolve, ou não? Jamais a nossa sociedade esteve tão dividida, ressentida, alimentada por ódios entre tribos de todas as cores. Veremos no andar da carruagem o que restará na história no liquidificador das narrativas...

Procedente ou não, os escritos de Nassif sempre viralizam, desdobrando-se politicamente em muitos usos e abusos, o que é preocupante da parte de quem age de boa fé e não acredita e na onda da "pós-verdade". Há pontos merecendo respostas mais detalhadas na teoria conspiratória de Nassif.

Nassif tem por certo que o furo da CNN foi plantado. Pergunta: para quais propósitos? Por interessados em derrubar o general amigo de Lula, devolvendo a escolha do dirigente da pasta ao Exército, conforme vem ocorrendo desde Temer (e não por normativa jurídica)? Mas o Comandante Geral das Forças Armadas General Tomás Paiva, não é de confiança absoluta do presidente e este o Comandante em Chefe de todas as forças militares?

Afirma Nassif que os vídeos plantados encontravam-se disponíveis desde o dia 8 de janeiro, colocando como grande questão quem permitiu o vazamento. Mas se disponíveis não há sentido em arguir-se do vazamento, ou Nassif considera os vídeos em disponibidade seletiva: para o governo. Disponíveis para quem ou para qual conspirador de plantão? Não havia uma diretiva da presidência proibindo a divulgação? Se não, por que nenhuma mídia veiculou daquelas imagens em quase três meses? Se a CNN o fez, mérito dela.

O general Gonçalves Dias teria dado, segundo Nassif, "explicações verossímeis". Intuitivamente lá se encontrava o general no palácio, num domingo, duas horas antes do vandalismo botar os pés no prédio esbulhado. Heroicamente e desarmado, impediu os criminosos de subir ao terceiro andar, o gabinete presidencial, segurando os criminosos no segundo piso (onde seriam presos segundo o mesmo general (?) e conduzindo-os às portas de retirada. Pergunta: com que força o general logrou conter a massa enlouquecida quebrando tudo?

Mas Nassif deduz que o ato conspiratório que derrubou o general deve ser observado diante de estranhas coincidências que sugerem uma articulação, envolvendo:

• "As invasões de escolas, com jovens desequilibrados sendo estimulados a assassinar alunos.

• A convocação do ex-chefe da ABIN, general Augusto Heleno, ex-Ministro do GSI pela Assembléia Distrital do DF..

• A visita de Lula à China e suas declarações de aproximação com China e Rússia".

Nada mais contrafático nas articulações da queda do General com os fatos acima. Vamos a cada uma dessas "coincidências". São três eventos distintos e divorciados em vários níveis, inclusive no político. Os ataques à escolas quando "ideologizados", implicam numa distorção na qual embarcou até o Ministro da Justiça e da Segurança. Resta medir o quanto doenças mentais são "estimuladas" pelo quadro geral de violência (muito antigo e que perpassa governos e países distintos) e suas correspondências com o neonazismo ascendente.

De fato a suástica nazista e adesões a grupo supremacistas estão presentes no imaginário de assassinos em colégios,fora do Brasil, embora sem organicidade real com grupos terroristas. No caso de Blumenau é forçar demais a barra e já escrevi sobre aquele infeliz discurso de Flavio Dino.

A convocação do General Heleno para depor já vem tarde e é de interesse da democracia e do governo que derrotou Bolsonaro e continua na legítima luta de isolar os bolsonaristas. Hoje as Forças Armadas, se Lula mantiver a postura de estadista e não de atiçador irresponsável, encontram-se bem harmônicas, mesmo aliviadas com os usos ilegais de militares (ministros em.pkena ativa) e com uma excessiva mistura de política no meio corporativo.

Sobre a coincidência com a ida de Lula à China, de fato ela esboça um certo alinhamento do Brasil àquele país (e de alguma forma com a Rússia), causando surpresa e preocupação um públicos bem mais alargados que o da oposição bolsonarista. E daí?

O artigo de Nassif dispensaria esse apelo às coincidências articuladas com o que toma como "conspiração contra o Chefe da DSI, e restaria menos fabuloso. E há se registrar as tagarelices dos sem noção, aqueles que seguem os que de fato produzem opinião pública, inconsequentes que somente servem ao entorpecimento geral.

É o caso de Malu Aires, uma brilhante cantora mineira que se autodenomina militante política. Na esteira de Nassif o extrapola, segundo suas convicções, considerando toda a mídia brasileira como nazista e a CNN e Globo News como "cabide de empregos de bolsonaristas". O que seria de Hitler sem Goebbels ou Stálin sem Béria? Papagaios e baba-ovos de seus ídolos.

De Nassif espera-se que as peças do seu "quebra cabeças" ajudem a contrapor argumentos no xadrez dos fatos em si e de jornalistas sérios (que não são nazistas, fascistas ou sequer do campo da direita), necessariamente, a exemplo de William Waack, entre muitos outros. Agora um parêntese para os efeitos perversos do texto de Nassif.

O artigo não nominado de Malu e outros nesse grau de simplificação ajudam em grande medida a dissover contribuições de jornalistas no nível de Nassif, do qual podemos discordar, mas sempre levar em consideração no debate público

Aguardemos as averiguações dos fatos com duplo cuidado: a) com a guerrilha de narrativas: separando o que é retórica estratégica centrada no maniqueísmo lulismo/bolsonarismo; b) com o que nos é ofertado por fontes isentas e fidedignas de informações. Algo muito difícel diante de certa paralisia cognitiva alimentada por todos os protagonistas (não se enganem), mas possível para os quixotes do século XXI.


* Edmundo Lima de Arruda Jr é sociólogo e professor aposentado da UFSC,
22.4.23