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Em sua maioria, são brancas de classe média. O problema não é serem assim, mas a maneira como nos olham. Um olhar de ‘tadinho, nossa, é muito difícil’. Quando é a gente que entrega, não rola essa questão hierárquica e as pessoas não se sentem tão mal de estar recebendo essa ajuda”, diz. “Só veem a parte que somos pobres. E não somos só pobres precisando de alimentos. É como se fizessem uma boa ação tentando se livrar de uma culpa”, completa.Pertencimento — A relação de solidariedade e pertencimento foi fundamental para que Lupita assumisse também a defesa da manutenção da Escola Estadual Miguel Baracat, que fica na Vila Pirineu, onde ela mora.Ao lado de outras pessoas, denunciou e promoveu um abaixo-assinado contra a tentativa de fechamento pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) — o órgão agiu por meio de um decreto sem negociação ou diálogo com os moradores. “Gerações da minha família estudaram ali. A escola abarca estudantes do Pirineu e outros bairros ao redor. Foi pela atuação de professores, ex-alunos e tantos outros apoiadores que conseguimos que a escola continuasse no mesmo lugar.”Papel social — Lupita acredita que o universo acadêmico não a afasta de suas raízes, ao contrário, a empodera para ampliar sua percepção. Como pesquisadora e moradora de um bairro periférico, ela observa que a desinformação chega com força nos bairros mais pobres. “É muito mais fácil chegar fake news na periferia do que informações corretas e sem teor preconceituoso”, sinaliza.Para o futuro, diz sobre o papel que pretende desempenhar a partir da universidade para combater preconceitos e desigualdades: “Temos que simplificar a linguagem na universidade e trazer para os bairros. Esse tem sido o meu trabalho ao lado de outras pessoas. Temos que fazer um trabalho de valorização dos nossos conhecimentos, das nossas potencialidades. É olhar para essas pessoas não com o olhar que os outros olham para a gente”, reforça.Estado brasileiro — Representante da população LGBTQIA+ no Conselho de Política de Ações Afirmativas e extensionista do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre), ambos na UFMT, Lupita afirma que a ausência de investimentos do governo federal intensifica o racismo. “A ciência passa por vários cortes para além da educação. Estamos diante de um governo de repressões, muito cruel no sentido de contribuir na acentuação das desigualdades sociais e raciais que já vivemos. Para além do governo, seus apoiadores se sentem confortáveis em reproduzir preconceitos”, critica.Frente à atual conjuntura política e econômica, ela responde, como ativista, que têm apostado no caminho de formar redes e pontes. “A onda de repressão e de fascismo tem crescido contra nós, mas também estamos organizadas há muito tempo enquanto comunidade negra e LGBT. Me apego a isso.”Mudar o foco — Incomoda Lupita o fato de, no imaginário social, a denominação “travesti” estar sempre relacionada a um aspecto negativo. De acordo com ela, basta dar uma pesquisada para encontrar notícias sobre violência, mortes, criminalidade e marginalidade.Depois de contar histórias sobre o racismo sofrido e preconceitos relacionados ao mercado de trabalho e outros ambientes, ela avalia que uma ressignificação de pensamento se faz ainda necessária e reforça que seu lugar é “onde escolher estar”. “Hoje sou bem mais respeitada no meu bairro por conta da minha atuação, sobretudo por pessoas que, quando tinha 14 anos, já foram bastante preconceituosas comigo”, lembra. E fala sobre seu papel de cientista social. “Quero produzir conhecimento dentro da universidade e que o reconhecimento disso seja ampliado para que outras pessoas possam ver isso como possibilidade, se assim desejarem”, afirma. “Quero deixar minha história de resistência como legado a futuras gerações e que isso permita às pessoas também construir afeto entre si”, conclui Lupita.FONTE O ESTADO DE S PAULO