ADVOGADO EDUARDO MAHON: O crime de racismo, de misoginia, de fobias sociais está se naturalizando e, se não for repelido publicamente de forma ágil, deixará de inibir quem quer que seja

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Neonazismo brasileiroPor Eduardo Mahon*As fobias sociais contaminam a mentalidade brasileira. Isso não é uma opinião. É um fato.O racismo é a mais antiga forma de consolidar os estamentos de classe. Ele se adapta perversamente às teorias da moda, mesclando-as de acordo com a conveniência. Era certo haver núcleos nazistas no país. Julgávamos, porém, serem minoritários, conhecidos há uns 20 anos, depois da vedação que o STF impôs às publicações de traduções alemãs que circulavam em estados sulistas.Em 2003, Siegfried Ellwange teve o recurso desprovido por não conseguir demonstrar que suas publicações nazistas não podem ser interpretadas como “liberdade de opinião”. Não há opinião meritória ou demeritória sobre raça. O que há é o racismo e suas múltiplas formas de infiltração na opinião pública. Curiosamente, a tese da “liberdade de expressão” ganhou força ultimamente. Não por coincidência, essa mesma liberdade é invocada para clamar por ditaduras militares. O discurso da ordem, da força e da hierarquia convergem.Passados os anos, houve uma forte reação à política de cotas. Entre muitos argumentos, o fundo racista fermentava no fundo das boas intenções. No caso do acesso às universidades, dizia-se que os governos deveriam melhorar a qualidade de ensino público e, seguindo à lógica excludente, a qualidade do ensino superior sairia prejudicada com o ingresso de estudantes “menos qualificados”. A universidade pública mantém-se no topo do rendimento do ensino superior e da pesquisa brasileira. Das 10 melhores do país, 8 são públicas e todas elas aderem à polícia de cotas há quase duas décadas. Nada indica que as cotas afetaram a excelência das universidades públicas. Nenhum indicador, nenhuma avaliação, nenhum fato concreto.Leia Também: Março, mês das Mulheres: celebração e reflexãoAquele ranço misógino e racista que estava camuflado em argumentos bem-intencionados, preocupados com a “igualdade”, “produtividade”, “excelência” e outros que tais, perdeu o pudor. Atualmente, o racismo, a misoginia e o xenofobismo revela sua verdadeira face. Não são raras as menções diretas às teorias nazistas, às publicações nazistas, à ideologia arianista que dominou a Europa entre os séculos XIX e XX. Depois da 2ª Guerra, o fracasso do nazismo evidenciou-se. Mas a teoria não morre facilmente, ela se traveste de outras, em geral, mais vulgares e populares. O rastro arianista ainda tempera o pensamento brasileiro.Dois episódios públicos (e políticos) ilustram o avanço da ideologia nazista no Brasil. Ambos se ligam às declarações em tribunas parlamentares, o que é revelador. O primeiro deles é do vereador gaúcho Sandro Fantinel que hostilizou baianos (negros) e os rotulou de preguiçosos. O segundo é a explícita exibição hitlerista do deputado sul mato-grossense João Henrique Catan a bradar publicamente em favor do nazismo com Mein Kampf nas mãos. São exemplos inquestionáveis de que a inibição acabou. O racismo, a misoginia e as fobias sociais ganharam voz e representação. Na verdade, nunca deixaram de existir, mas hoje são notórias.Não quero (nem me permito) entrar no aspecto psicológico dos racistas, em geral atormentados pela insegurança e sadismo. A questão é que o crime de racismo, de misoginia, de fobias sociais está se naturalizando e, se não for repelido publicamente de forma ágil, deixará de inibir quem quer que seja. Minha reflexão tampouco se prende à questão essencialmente criminológica, ligada à força da sanção. Só quis pontuar – e já vou concluir – que o racismo brasileiro encontra amparo nazista. Não é uma opinião, é um fato. A política brasileira alberga nazistas. É preciso dar um basta.*Eduardo Mahon é advogado, escritor, doutor em literatura, membro da AML e do IHGMT, em Mato Grosso