A GAZETA LEVANTA A LEBRE: Estado cometeu as mesmas irregularidades que levaram gestão de Mauro Mendes a rescindir contrato com o Consórcio Rio Verde. Secretário da Seplan, Basílio Bezerra, fica sob xeque

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Com 14 mil irregularidades no atendimento, o Governo de Mato Grosso fica na linha de investigação de possíveis fraudes no atendimento do Ganha Tempo, nos anos de 2016 a 2020. Senhas emitidas manualmente, duplicadas, emissão e finalização de senhas indevidamente computadas como efetivamente atendidas após a desistência dos usuários, replicações indevidas das senhas no mesmo CPF, atendimento de apenas um CPF em duas unidades ao mesmo tempo e uso de documentos inválidos, fazem parte de um dossiê que veio a público neste domingo (21), revelado pelo jornal A Gazeta.

O curioso que vale ressaltar é que os dados levantados por A Gazeta, apontam que o Governo de Mato Grosso, na atual gestão do governador Mauro Mendes (DEM) cometeu os mesmos crimes que levaram o mesmo governo ao rompimento contratual com a Concessionária Rio Verde, acusada de ter cometido fraudes enquanto administrava a unidade.

Na época do rompimento, por meio de nota, a empresa reagiu e negou a fraude, argumentando que o sistema poderia ser falho e informou que apresentou à Justiça materiais de que as provas poderiam ter sido forjadas ou fabricadas, o que pode ser comprovado agora pelo relatório divulgado pelo Jornal A Gazeta.

Conforme o relatório, a ocupação provisória (espécie de intervenção) feito pela Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão no Consórcio Rio Verde aponta que o Estado cometeu as mesmas irregularidades atribuídas à empresa durante os anos em que administrou as unidades do Ganha Tempo em Mato Grosso (2016 a 2020).

Entre setembro de 2020 e março de 2021 foram detectadas 14.789 irregularidades no atendimento do Ganha Tempo sob a gestão do governo do Estado.

As mesmas irregularidades apontadas resultaram em uma investigação criminal pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção em Mato Grosso (Deccor), que deflagrou em setembro de 2020 a Operação Tempo é Dinheiro, resultando na intervenção na empresa, bem como a rescisão contratual em maio deste ano.

Em setembro do ano passado, durante o primeiro mês da ocupação estadual, foram realizados 2.595 atendimentos duplicados numa mesma seção, 474 com finalizações duplicadas e 41 atendimentos com CPFs inválidos.

Apesar das falhas e atendimento ‘fantasma’ feito pela gestão do próprio governo, o relatório da Seplag classifica tais irregularidades consideradas como crimes na esfera judicial, de ‘anômalos ou atípicos’ decorrente de ‘falha humana’ ou ‘erros sistêmicos’.

Em fevereiro deste ano, ao ser questionado pelo Ministério Público Estadual (MPE) sobre tais irregularidades, o secretário de Estado, Basílio Bezerra, respondeu que os atendimentos são feitos com qualidade e excelência, ‘podendo ocorrer falha humana como em qualquer outra função/profissão’.

Ele também afirmou que as duplicidades no atendimento seriam de responsabilidade da empresa Visual Sistemas Eletrônicos. Já no inquérito policial, as irregularidades apontam para uma possível fraude na emissão de senhas o que acarretaria o aumento na margem de lucro da Rio Verde.

Durante os meses de ocupação pelo Estado na empresa que gerencia os Ganha Tempo de Cuiabá, Várzea Grande, Sinop, Barra do Garças, Cáceres, Rondonópolis e Lucas do Rio Verde, foram retidos R$ 295.3 mil por conta das pretensas irregularidades.

Basílio Bezerra, secretário da Seplan, entra no foco

Operação e coação

A empresa foi alvo da Operação Tempo é Dinheiro, deflagrada pela Delegacia de Combate à Corrupção (Deccor) em setembro de 2020. As investigações indicaram que teria havido fraude de pelo menos R$ 12 milhões. Um relatório elaborado pela Controladoria Geral do Estado (CGE) concluiu que a concessionária teria realizado a emissão de senhas por atendimentos ‘fantasmas’, que não foram efetivamente prestados pela empresa.

A Rio Verde, por sua vez, também denunciou possíveis fraudes nos relatórios que embasaram a rescisão contratual. As denúncias vieram dos próprios servidores do Estado e da empresa de consultoria que fiscaliza a prestação dos serviços do Ganha Tempo. Eles registraram boletins de ocorrência, denunciando a fraude.

Segundo disse a servidora pública S.S.O. à polícia, ela foi coagida pela fiscal Lucimeire Pavianto, vinculada à Secretaria de Estado de Planejamento (Seplag), a produzir e assinar relatório com atendimentos em menor número que o prestado a usuários, como forma de sabotar o resultado e fazer com que a empresa fosse punida por mau serviço, recebendo menos no contrato.

A servidora registrou boletim de ocorrência relatando o fato. Outros servidores também teriam sido constrangidos a assinar relatório com contagens sempre a menor.

“Os resultados desses relatórios comprometem de forma clara a confiabilidade dos relatórios produzidos pela Seplag e CGE”, disse o advogado do Consórcio Rio Verde, Daniel Leon Bialski.

Rescisão do contrato

Em maio deste ano o Governo do Estado decidiu por fim ao contrato com a Rio Verde, que fora assinado na gestao anterior, do governador Pedro Taques. A rescisão foi uma decisão tomada cerca de 5 meses depois do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) determinar que o governo anulasse a contratação.

“Fica o ato administrativo que julgou habilitado o Consórcio Rio Verde na Concorrência Pública nº 1/2017/Setasc, determinando, por consequência, a anulação do correspondente Contrato de Concessão Administrativa nº 062/2017/Setasc, sem prejuízo da futura e eventual declaração administrativa de inexecução contratual suficiente à extinção do contrato por caducidade em razão das fraudes em apuração por parte da concessionária no bojo da execução contratual, o que será avaliado em procedimento próprio” diz trecho da portaria da Seplag.

Outro lado

A Secretaria de Planejamento e Gestão informa que no período da ocupação temporária determinada pela Justiça, atuou em duas frentes:

“1º Manter o atendimento à população: foi designada uma equipe de servidores públicos para manter a prestação de serviços à população, utilizando-se de toda a estrutura física, de pessoal, equipamentos e sistema de atendimentos da Concessionária Rio Verde Ganha Tempo SPE S.A. com foco na não interrupção da prestação de serviço.

2º Manter a fiscalização e acompanhamento da execução do contrato de concessão: Com todas as irregularidades encontradas nos procedimentos dos atendimentos por questões operacionais e fragilidades do sistema, as correções foram realizadas ao mesmo tempo em que os serviços eram prestados para que a população não fosse prejudicada.

Ressalta-se, desta forma, que a Administração Pública agiu de forma efetiva em todas as frentes visando a correção das irregularidades detectadas, não havendo qualquer prejuízo ao erário”.

A Gazeta manchetou, em sua edição de domingo, 22/8, irregularidades cometidas pelo próprio Governo de Mato Grosso, na atual gestão das diversas agências do Ganha Tempo no Estado